Coronavírus

Quando a Suíça fechou fronteiras, a situação tornou-se “insólita”

Em 2020, pela primeira vez desde a Segunda Guerra Mundial, a Suíça fechou fronteiras – e​ as novas "barricadas" entre países deram azo a situações "insólitas". "Vi casais que colocavam mantas ou colchões por debaixo da fita de sinalização: um deitava-se do lado alemão, o outro do lado suíço. Outro casal chegou a desenhar a linha de fronteira na manta que partilhava."

©Roland Schmid
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O fotógrafo suíço Roland Schmid está acostumado a fotografar zonas em crise. "Quando a pandemia estalou na Europa, tinha acabado de chegar de Donbass, na Ucrânia", conta ao P3, numa entrevista por e-mail. E como crise é crise, Roland decidiu documentar a que se desenrolava diante dos seus olhos. "Entre 16 de Março e 15 de Junho, devido à pandemia de covid-19, a Suíça fechou fronteiras pela primeira vez desde a Segunda Guerra Mundial", explica.

Um momento histórico, discorreu. "Havia, agora, fitas de sinalização a dividir territórios que tinham sido, pela última vez, separados por arame farpado. Em cidades raianas, como Riehen e Kreuzlingen, os cidadãos viveram décadas sem reparar que existia uma fronteira entre dois países." Schmid conduziu ao longo das fronteiras com a Alemanha e a França e percebeu que "amantes e amigos se encontravam, corpo a corpo, junto às barricadas".

As barreiras transformaram-se em pontos de encontro e não em marcos de divisa. "A situação tornou-se engraçada e insólita", descreve o fotógrafo. "Vi casais que colocavam mantas ou colchões por debaixo da fita de sinalização: um deitava-se do lado alemão, o outro do lado suíço. Outro casal chegou a desenhar a linha de fronteira na manta que partilhava." Algumas pessoas vinham de longe para se encontrarem na fronteira. "O pai vivia na Suíça, a mãe e o filho na Alemanha. Encontravam-se no único lugar onde se podiam ver, junto à fronteira. Deve ter sido difícil."

Schmid recorda também a história do casal que se beija numa das imagens do projecto que desenvolveu, intitulado Cross-Border Love, que está nomeado para os prémios World Press Photo, na categoria de Notícias generalistas. "O seu amor ainda estava fresco. Katarina, de Fauenfeld, na Suíça, e Ivo, de Konstanz, na Alemanha, tinham-se conhecido durante a passagem de ano, em Zagreb. Só podiam encontrar-se uma vez por semana junto à fronteira encerrada." Mais tarde, nessa fronteira em particular, as autoridades ergueram mais uma vedação a dois metros de distância da primeira, para que as pessoas não pudessem estar fisicamente próximas, "o que originou protestos vigorosos", descreve o fotógrafo. "Quando perguntava às pessoas no local o que pensavam sobre a situação, muitas expressavam incompreensão."

Se erigir novas barreiras teve um peso negativo ou positivo, Roland Schmid não sabe precisar. "Para todos nós, na Europa do século XXI, esta é a primeira pandemia, motivo pelo qual compreendo que muitos políticos estejam a cometer erros." Não acredita, porém, que estes encerramentos tornem a repetir-se tão cedo, uma vez que a circulação rodoviária foi reposta sem restrições. "Estamos tão acostumados a ter as fronteiras abertas que as barricadas nos provocam uma sensação de opressão."

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