Cinco crianças por dia, 167 mulheres por semana: sobe o número de vítimas de crimes apoiadas pela APAV

Associação Portuguesa de Apoio à Vítima registou aumento do número de apoios num ano atípico: foram mais de 13 mil. A maioria dos crimes foram contra as pessoas, 75% dos quais de violência doméstica.

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Ines Fernandes

Foi um ano atípico por causa da pandemia, sublinha o relatório anual da Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV) mas, mesmo assim, em 2020 esta entidade apoiou directamente 13.093 vítimas, mais do que no ano anterior em que se registaram 11.676 apoios. Dos crimes identificados, a esmagadora maioria foi contra as pessoas e, desses, 75% corresponderam a violência doméstica.

Feitas as contas anuais, a APAV apoiou 8720 vítimas do sexo feminino, o que deu uma média de 24 pessoas por dia ou de 167 por semana. Isto correspondeu a mais uma pessoa do sexo feminino por dia das que foram apoiadas em 2020. Além disso, os dados mostram que a APAV prestou ajuda a uma média de cinco crianças por dia, num total de 1841 durante o ano. Em relação às pessoas idosas os atendimentos situaram-se numa média de quatro por dia, para um total de 1626 idosos durante o ano, praticamente o mesmo número de elementos do sexo masculino — 1627 —, que receberam apoio da APAV em 2020. Também em relação a crianças, idosos e pessoas do sexo masculino os números subiram relativamente ao ano anterior, em que a APAV apoiou uma média de quatro crianças, quatro homens e quatro idosos por dia.

Em ano de pandemia, “um dos objectivos foi afirmar a essencialidade de apoios à vítima como serviço de primeira linha”, comentou ao PÚBLICO João Lázaro, presidente da APAV. “O aumento é significativo face à conjuntura: a maior parte do ano a APAV esteve sem serviços presenciais abertos. Com o dever de confinamento o grande desafio foi chegar às pessoas que fossem vítimas de crimes. É claramente um sinal de que conseguimos estar na linha da frente”, acrescenta. João Lázaro sublinha que a criminalidade mudou, houve menos furtos, mas subiu a preocupação com a violência intra-familiar.

Lendo o  relatório anual da APAV, este é o perfil típico da vítima que apoiaram em 2020: a maioria do sexo feminino (quase 75%), tinha uma média de 40 anos e, em 18,2% dos casos em que foi possível apurar, era cônjuge do agressor. Já as crianças identificadas foram igualmente do sexo feminino (quase 60%), tinham uma média de dez anos, e num terço dos casos eram filhos do agressor.

Quanto às pessoas idosas, 72% identificadas eram do sexo feminino, tinham 76 anos, em um terço das situações era a mãe ou pai do agressor e em 22% seu cônjuge. Quanto às vítimas do sexo masculino, 57% eram adultos, 29% crianças e 15% idosos; tinham uma média de 36 anos; em 16% eram filhos do agressor e em quase 11% seu cônjuge.

Em relação aos autores dos crimes 65% eram do sexo masculino. As idades mais comuns das vítimas e agressores situaram-se entre os 25 e os 54 anos mas no caso das vítimas essa faixa etária representou quase 40% do total, enquanto nos agressores correspondeu a 21%.

Os vários serviços da APAV — Gabinetes de Apoio à Vítima, Equipas Móveis de Apoio à Vítima, Pólos de Atendimento em Itinerância, Sistema Integrado de Apoio à Distância, Sub-Redes Especializadas, Casas de Abrigo e Linha Internet Segura — fizeram um total 66.408 atendimentos.

Isto significa uma média de 38 chamadas por dia, e um registo de 19.697 crimes e outras formas de violência. Quase metade das situações deu origem a uma queixa formal junto de menos uma entidade policial, e isso correspondeu a um aumento de 4% face a 2019, nota ainda o relatório.

Esta organização está a estudar o reflexo da pandemia com o projecto de investigação científica Violência contra as Mulheres e Violência Doméstica (VMVD) em Tempos de Pandemia: caracterização, desafios e oportunidades no apoio à distância, financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia e conta com a parceria da Egas Moniz - Cooperativa de Ensino Superior (LABPsi) e da Universidade Fernando Pessoa.