“O confinamento veio facilitar uma série de crimes online”. APAV recebeu cinco vezes mais pedidos de ajuda em 2020

Primeiro vieram as mensagens, depois as ameaças, depois o grupo de WhatsApp onde o ex-namorado de Ana enviou fotografias e vídeos íntimos aos amigos e familiares. Em 2020, Ana foi uma das 587 pessoas que ligaram à APAV a pedir ajuda por causa de crimes online.

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A APAV ajuda as vítimas a reaver o acesso das suas contas Paulo Pimenta

“Podes ter os homens todos que quiseres, mas no final serás sempre minha.”

A primeira vez que Ana (nome fictício) ouviu a frase da boca do antigo namorado, riu-se. Estava farta do olhar controlador do parceiro e a relação a mais de 100 quilómetros de distância não estava a funcionar. 

Tinham-se conhecido online há pouco mais de três meses e, depois de alguns encontros em pessoa durante os fins-de-semana, Ana, que é mãe solteira, não via grande futuro para a relação. “Ele tinha muitos ciúmes”, partilha. “No final, eu disse que podíamos ficar amigos e ele gozou com a ideia”, lembra. “Ficámos por aí.”

Para Ana, a relação tinha acabado. Só depois de conhecer o actual parceiro, é que começou a receber mensagens do ex-namorado. 

“Espero que o jantar tenha corrido bem”, lia-se na primeira. Chegou à caixa das mensagens de Ana no dia do primeiro encontro com o novo namorado, com o nome do restaurante onde tinham estado.

Primeiro, Ana tentou ignorar. Depois das ameaças começarem (“ou estamos juntos por uma última vez, ou a tua vida vai correr mal”), bloqueou o contacto e deixou de atender números privados ou desconhecidos. Quando os familiares e conhecidos começaram a ser contactados, foi à polícia.

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O telemóvel torna-se uma forma de controlar a vítima Paulo Pimenta

Foi nessa altura que o ex-namorado criou um grupo de WhatsApp para partilhar imagens íntimas e privadas da Ana. Esta não se lembra de ter feito os vídeos. Pouco depois, perdeu o acesso às contas nas redes sociais.

APAV recebeu 587 pedidos de ajuda

A história da Ana não é única. O caso é um de muitos que chegaram em 2020 à Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV), que no ano passado recebeu 587 pedidos de ajuda diferentes devido a crimes online — um valor quase cinco vezes maior que no ano anterior. Do total, 27% das vítimas eram homens.

Os números foram divulgados esta terça-feira pela APAV por ocasião do Dia da Internet Segura, que se celebra a 9 de Fevereiro.

“O confinamento obrigou a uma maior interacção humana através do computador. E isso veio facilitar uma série de crimes e abusos online. Em parte, devido à falta de literacia digital de muitas pessoas”, começa por explicar ao PÚBLICO Ricardo Estrela, responsável pela operacionalização das Linhas Internet Segura e Alerta da APAV, que qualquer pessoa pode utilizar gratuitamente para pedir informação ou procurar ajuda. 

Ana é uma das vítimas de pornografia de vingança (um fenómeno melhor conhecido por revenge porn), que passa pela divulgação não autorizada de conteúdos íntimos, seja por um ex-companheiro ou por alguém estranho à vítima. 

Foi exacerbado com a Internet, com agressores que usam VPN (redes virtuais privadas que permitem aos utilizadores mascarar a identidade online e fingir que estão noutros países) e novos serviços e produtos para monitorizar as pessoas (programas-espião ou sypware, no inglês) que permitem aceder remotamente a mensagens enviadas via telemóvel e informação de GPS em tempo real. São promovidos, frequentemente, como serviços para proteger e monitorizar crianças.

Muitos infractores também se aproveitam da falta de literacia das vítimas para obter credenciais de acesso.

“A queixa mais comum são mesmo as ameaças — que vêm lado a lado com outros crimes, como o furto de identidade online, gravação de imagens ilícitas, extorsão sexual ou revenge porn. Muitas vezes, ouvimos histórias de companheiros que ameaçam divulgar imagens privadas, ou que roubam o acesso às redes sociais”, resume Ricardo Estrela.

Pedir ajuda, para quê?

Apesar dos pedidos de ajuda terem aumentado, ainda há vítimas que evitam denunciar por medo ou porque acham que não vai ajudar.

“Quando nos contactam, não podemos dar expectativas irreais”, reconhece Ricardo Estrela. “A verdade é que isto são situações complicadas, mas é importante que as vítimas não deixem de denunciar.”

Foi depois de chegar à APAV que Ana conseguiu que fosse aberto um processo-crime contra o antigo namorado (ainda em curso), obter apoio psicológico e receber ajuda para reaver o acesso ao Instagram — que o ex-namorado continua a controlar. 

“É preciso distinguir o processo-crime, junto das autoridades, que precisa de seguir uma série de diligências e a tecnologia que pode ajudar a lidar com o cibercrime”, explica o responsável pelas linhas de apoio. “Os padrões das comunidades e os sistemas de detecção de conteúdo ilegal estão a evoluir.”

Muitos sites de pornografia online e redes sociais já utilizam sistemas para detectar uma espécie de “impressão digital” (hash) de imagens e vídeos ilegais e apagá-los automaticamente, antes mesmo de serem publicados. Trata-se de uma tecnologia que permite converter uma imagem em valores numéricos, que é comparada com bases de dados massivas de imagens e vídeos ilegais e denunciados.

“[A APAV] faz parte da rede de trusted flaggers [revisores de confiança], o que garante que quando o conteúdo é reportado, é removido com mais facilidade”, acrescenta Ricardo Estrela.

A associação também ajuda as vítimas a reconfigurar redes de Wi-Fi (que podem estar a ser acedidas pelo agressor, à distância) e aparelhos móveis em casa. “Vale sempre a pena denunciar”, reforça Ricardo Estrela.

Hoje Ana prefere evitar as redes sociais. Está actualmente a ser acompanhada por uma psicóloga, enquanto aguarda o desenrolar do processo-crime contra o antigo companheiro. “Espero poder deixar isto para trás um dia. Tenho medo que ele pare durante uns anos e depois volte”, admite.