A ilha do Farol retratada “em toda a sua beleza e fragilidade” para memória futura

©Filipe Farinha
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Filipe Farinha caminha por entre os arruamentos improvisados na ilha do Farol. O Inverno dita que a pequena língua de areia algarvia esteja praticamente deserta  –​ ninguém, para além do faroleiro e de "meia dúzia de pessoas", habita o local nos meses de frio. O fotógrafo sabe disso e prefere assim. Trabalhar em silêncio garante que ouvirá com mais clareza aquilo que o lugar – a paisagem, as construções, os objectos em pausa – tem para lhe dizer.

"Cada casa é um rosto", refere Filipe na sinopse do projecto Farol. "As janelas são os olhos que fitam o mar, a porta a boca que se abre de espanto quando os donos regressam no Verão." É precisamente o carácter singular das construções da ilha que mais atrai o fotógrafo. Porque foram edificadas "pelas mãos de quem as habita" - pelos orgulhosos "ilhéus", como gostam de ser tratados, sublinha Filipe, em entrevista ao P3. "Os materiais mais ou menos improvisados e os acabamentos mais ou menos rigorosos" são marcas distintivas do bairro que brotou da areia. "As regras são definidas por quem constrói e quem constrói sente a liberdade que não tem na cidade", explica. Existe, porém, um acordo tácito entre quem erigiu estas estruturas, que dita que as fachadas deverão ser simétricas, que os caminhos de entrada deverão ter diferentes tipos de pedra e que cada propriedade deverá estar rodeada de um muro, "por mais baixo que seja". "A ideia é cuidar do espaço do muro para dentro e deixar a natureza desenvolver-se arbitrariamente da porta para fora."

Algumas casas retratadas neste projecto já foram, entretanto, demolidas. "A luta contra as demolições [nas ilhas-barreira da Ria Formosa]​, por parte dos ilhéus, prende-se com a salvação das suas casas como espaços que usam para habitar sazonalmente, sendo que a maioria até está pouco consciente da possível subida do nível do mar nas próximas décadas, e não tem grandes preocupações em relação ao património natural", refere o fotógrafo de 33 anos, natural de Faro. "Estas imagens mostram o meu sentimento ambíguo em relação à ilha, porque tanto documentam espaços de habitação de carácter único que foram construídos com uma grande carga sentimental, como também mostram a interferência que têm na natureza endémica, por falta de planeamento territorial." A subida do nível das águas irá colocar em risco, a médio prazo, a segurança das construções. Farol é um documento de preservação para gerações vindouras. "É assim, hoje, a ilha do Farol, em toda a sua beleza e fragilidade", remata.

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