A juventude exige liderança democrática

A nomeação de um presidente num processo opaco, em que não foram ouvidas as organizações de juventude que o deveriam eleger, atira o Conselho Nacional de Juventude para a divisão e a ignomínia, num golpe palaciano que instrumentaliza os jovens nele representados.

Somos a primeira geração que nasceu, não só num Portugal democrático, mas num Portugal europeu. Somos uma geração fustigada pelas crises de 2008 e 2011 e, novamente agora, com uma pandemia que provocou uma crise económica e social sem precedentes, enquanto o país enfrenta a crescente ameaça da extrema-direita e o planeta sofre com a emergência climática. Estes desafios, e a oportunidade da Presidência Portuguesa da União Europeia, convocam-nos, como jovens, para reclamar os nossos direitos, para tomar a mudança da sociedade e a conquista do futuro nas nossas próprias mãos.

É neste contexto que o Conselho Nacional de Juventude (CNJ) pode desempenhar um papel fundamental. Foi esse caminho que se iniciou neste último ano, com um mandato mobilizador para causas justas como a Agenda para a Natalidade. A presidência da Rita Saias foi muitas vezes crítica do Governo do Partido Socialista mas nem por isso foi menos apoiada pelos jovens socialistas, que integraram a sua direção e que contribuíram para construir uma visão de políticas públicas que melhorem as oportunidades e condições de vida da nossa geração.

A nomeação de Rita Saias para a Casa Civil do Presidente da República orgulha todas as organizações membro do CNJ e, em particular, aquelas que compõem a sua direção. Todavia, a sua sucessão coloca o CNJ em profunda crise. Afinal, quem votou numa determinada associação e numa determinada pessoa vê agora indigitada, para a substituir, uma outra pessoa, com outro perfil, de uma outra organização-membro.

É certo que, como nos recorda o PÚBLICO, esta situação tem precedente. Infelizmente, a confirmar-se esta indigitação, dois dos últimos quatro presidentes do CNJ terão usado esta manobra para subir ao poder, sempre debaixo de contestação e insatisfação de várias organizações. Todavia, não se deve transformar uma situação de exceção, de completar os últimos meses de mandato, como aconteceu na saída de Hugo Carvalho para o Parlamento, numa regra geral, a aplicar num mandato que vai a meio, muito menos ser coniventes com este novo “costume” para chegar à presidência do CNJ.

Esta sucessão dinástica é profundamente contrária ao espírito democrático com que a nossa geração está comprometida e de que o CNJ e os seus estatutos estão imbuídos. Se é certo que os Estatutos permitem a substituição de dirigentes pelas suas organizações, este preceito é grosseiramente desfigurado quando se estende a figuras com perfis distintos, de organizações distintas e que nunca fizeram percurso na associação da qual a presidente demissionária, Rita Saias, foi eleita.

Este truque, despachado à pressa e à socapa, é não só digno das piores páginas dos livros de intriga política, como dá uma machadada na credibilidade e legitimidade do CNJ. O CNJ deveria ser a plataforma representativa e agregadora das organizações de juventude de âmbito nacional e, assim, do conjunto da juventude. Como pode o presidente indigitado do CNJ falar pelos jovens e pelo associativismo jovem se se recusa a ser sufragado por eles?

Os desafios que a nossa geração enfrenta merecem um Conselho Nacional de Juventude forte, legitimado e unificador. Ao invés disso, a nomeação de um presidente num processo opaco, em que não foram ouvidas as organizações de juventude que o deveriam eleger, atira o CNJ para a divisão e a ignomínia, num golpe palaciano que instrumentaliza os jovens representados neste Conselho. O Conselho Nacional de Juventude merece mais. Os jovens merecem mais. Merecem representantes eleitos. Merecem democracia.

Os autores escrevem segundo o novo acordo ortográfico