Nuno Graciano apresentado como candidato “de mérito” ainda que sem experiência política

Na apresentação do candidato, o líder do Chega pediu a Nuno Graciano que nunca deixe de dizer o que pensa. “Neste partido é sinal que estás no partido certo”, declarou André Ventura. O candidato não apresentou propostas concretas, dizendo apenas que quer “estar próximo das pessoas” e que haverá tempo para discutir o programa eleitoral.

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Nuno Graciano é o candidato do Chega a Lisboa LUSA/RODRIGO ANTUNES

Com o Padrão dos Descobrimentos como fundo, Nuno Graciano foi apresentado esta terça-feira como o “corajoso”, que fará “parte da família” e irá lutar “contra o politicamente correcto”. A apresentação foi feita pelo líder do Chega, André Ventura, que diz já conhecer o apresentador há muitos anos, depois de ambos se terem cruzado nos corredores da CMTV. “O Nuno vai sempre lutar por mais, mesmo quando todos o tentam amordaçar”, declarou, entre as palmas de mais de 50 apoiantes do partido. 

O líder do Chega defendeu a candidatura de Nuno Graciano dizendo que o partido “premeia o mérito”, ainda que o candidato não tenha qualquer experiência política.

Nas suas primeiras declarações, Nuno Graciano notou o elevado número de jovens presentes na apresentação e defendeu-se das declarações feitas em 2016, quando disse que “o maior inimigo da democracia era a democracia”. Procurando justificar-se, Graciano disse ser “um democrata” que não aprecia “a libertinagem”.

“Há uma esquerda doentia, absolutamente doentia, neste país que não nos permite falar, que nos quer vergar, que não quer que nós digamos as nossas opiniões pelo facto de sermos diferentes”, continuou o candidato do Chega. “Parece que a esquerda neste país pode dizer rigorosamente tudo e a direita se diz alguma coisa é acusada de extrema-direita”, queixou-se, dizendo que a sua candidatura foi recebida com comentários de ódio.

O candidato aproveitou também o momento para procurar justificar as declarações que fez no passado e diz que não acredita na existência de minorias. “Não me revejo em nada melhor do que ninguém, mas também não acho que seja pior do que ninguém. Acho que somos todos iguais, desde que cumpramos com as nossas obrigações, somos todos iguais”, declarou.

Nuno Graciano não concretizou propostas para a Câmara de Lisboa, dizendo apenas que está “a estudar pastas”. O antigo apresentador televisivo prometeu “um abanão” para resolver “vários problemas muito graves” e diz que o único patrocínio que precisará “são sapatos para percorrer as ruas e ir a casa das pessoas”.

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A candidatura foi apresentada junto do Padrão de Descobrimentos Rodrigo Antunes/Lusa

Os recados mais directos foram deixados pelo líder do partido que não perdoou ter sido dispensado pela coligação de direita que apoia o candidato social-democrata Carlos Moedas. “Aqui na Câmara de Lisboa, onde tinham pensado que nos isolavam, onde tinham pensado que nos deixariam fora da solução de disputa com um candidato que mais não tem feito do que destruir a cidade, como é o caso de Fernando Medina [actual autarca], e com outro candidato que daria para gerente de um banco, mas nunca para gerente da cidade de Lisboa”, afirmou.

Ventura irá recorrer a mais “caras famosas"

Aos jornalistas, André Ventura descreveu a estratégia “clara” em torno de Nuno Graciano, como uma candidatura de “pessoas comuns” afastando a ideia de que está à procura de “caras famosas” para ganhar eleitorado. “Ele chega à política como um lutador. Não chega como superstar”, declarou André Ventura, embora tenha reconhecido que “é evidente que a notoriedade ajuda”. “É uma pessoa que nos entrou pela casa dentro durante 20 anos, que é próxima dos cidadãos, que fala a linguagem dos cidadãos”, declarou. O líder do Chega diz ainda que irá ter “mais personalidades” famosas, não querendo adiantar quais, nem revelar o nome que já está a ser preparado para a Câmara do Porto.

Sem querer estabelecer “fasquias” para afastar “a possibilidade de uma derrota”, Ventura acredita que não é possível que o partido tenha um resultado fraco, uma vez que “tem estado bem nas sondagens”. 

“Esta candidatura é a expressão maior de que o politicamente correcto nunca nos amordaçará e de que o sistema nunca nos calará e de que nós, quando todos pensam que nos fazem um cerco sanitário temos a força de o romper”, repetiu Ventura.

Ficou conhecido como o “Tio Careca” nas televisões, das quais foi afastado nos últimos anos. Defende a pena de morte, a prisão perpétua e discrimina em função das orientações sexuais. Com 52 anos, Nuno Graciano será o candidato do Chega à Câmara de Lisboa porque, diz o líder do partido, “representa os valores do partido”, ainda que não tenha qualquer experiência política, nem lhe sejam conhecidas outras posições políticas.

Em 2018, Nuno Graciano reafirmava as suas convicções. Em declarações ao Diário de Notícias, a propósito de um livro que escreveu acerca de parentalidade, Nuno Graciano defendeu que “os filhos que maltratam os pais [merecem] no mínimo, prisão perpétua”. Já “os pais que sodomizam os filhos, no mínimo, pena de morte”, acrescentou. “Sou radical nestas situações”, afirmou sem hesitações.

Sem experiência política, Nuno Graciano estudou Ciências de Desenvolvimento e Cooperação. Estreou-se em televisão em 1994, na TVI, e passou pela SIC. A última presença regular aconteceu na CMTV. Depois de 20 anos em televisão, Nuno Graciano foi afastado. Longe do pequeno ecrã, o antigo apresentador tentou a vida de empresário – mas nem sempre com sucesso (organizou um festival de sushi em Oeiras que recebeu dezenas de reclamações por expectativas defraudadas e falta de comida). Também nisso, André Ventura viu uma vantagem: “O Nuno Graciano é um lutador. Sabe que estar em cima pode ser uma passagem para poder estar em baixo. É alguém que sabe que se não lutarmos ninguém nos dá nada. O Nuno é o símbolo daquilo que somos e do queremos ser, um partido que nunca se resigna”.

A apresentação do candidato acontece “simbolicamente, no Padrão dos Descobrimentos”, em Lisboa. A escolha do local surge depois de em Fevereiro o deputado socialista Ascenso Simões ter defendido a remoção do monumento num artigo de opinião no PÚBLICO, o que gerou algumas críticas, incluindo do Chega. O partido enviou até uma carta a António Costa enquanto secretário-geral do PS questionando-o se mantinha a confiança política em Ascenso Simões depois das declarações do deputado, que afirmou também que no 25 de Abril de 1974 “devia ter havido sangue, devia ter havido mortos”.

O Padrão dos Descobrimentos foi originalmente erguido em 1940, para a Exposição do Mundo Português, numa homenagem às figuras que marcaram a navegação marítima portuguesa e a colonização. Em 1960, por ocasião da comemoração dos 500 anos da morte do Infante D. Henrique, o Padrão foi replicado para a estrutura actual.