Já há 65 casais de águia-real que não abdicam de Portugal

Zonas do Gerês e do Douro Internacional são os santuários naturais da águia-real, uma espécie ameaçada com o estatuto de “Em Perigo”.

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Adriano Miranda

É no norte do país, sobretudo nos distritos de Bragança e da Guarda, que se localizam a esmagadora maioria dos casais da ave rapina, entre 44 e 50 casais. A orografia da região norte, caracterizada por maciços montanhosos e vales alcantilados, revela-se como um dos elementos fundamentais para o aumento da população da águia-real (Aquila chrysaetos) em Portugal.

Destacam-se o Parque Nacional da Peneda-Gerês, os Parques Naturais do Douro Internacional, de Montesinho e do Alvão as Zonas de Protecção Especial (ZPE) dos Rios Sabor e Maçãs e do Vale do Côa. “Desde 2014, a população desta espécie apresentou um ligeiro aumento (cerca de mais 5%)”, refere o Instituto de Conservação da Natureza (ICNF) através de comunicado.

A sub-população da região do Parque Nacional da Peneda-Gerês foi estimada em um a dois casais e estima-se que a espécie esteja a reinstalar-se após décadas de declínio. A espécie esteve regionalmente extinta como nidificante ao longo de um período aproximado de 10 a 15 anos.

É nas rochas escarpadas do território nortenho, onde se formam biótopos rupícolas de grande valor para a fauna e flora, que a rapina encontra condições para a nidificação, concentrando-se nos distritos de Guarda e Bragança a população mais numerosa, “cerca de 72% da totalidade dos casais” existentes em Portugal, salienta o ICNF.

Os estudos feitos na região do Parque Natural do Douro Internacional demonstram que as presas principais desta espécie são os coelhos e lebres, seguidos de aves de média dimensão e répteis. As áreas de matos e floresta aberta “constituem as zonas com maior apetência para a espécie”, sublinha aquele organismo.

O Douro Internacional também acolhe uma das populações com maior densidade em termos ibéricos e a nível europeu. E na zona Bragança/Guarda, a população “está estável e provavelmente em aumento continuado”. A eventual confirmação de cinco casais possíveis “poderia aumentar a certeza dessa previsão de aumento”, observa o ICNF, admitindo que esse aumento se “enquadra na tendência generalizada da população espanhola.”

Este organismo considera que, presentemente, a população da espécie na região Norte se encontra “em situação estável e não enfrenta importantes factores de ameaça.”

Na região Centro, as observações efectuadas à presença da águia-real confirmaram dez casais, que nidificam nas zonas próximas da fronteira com Espanha, desde Vila Velha de Rodão, a sul, até Almeida, a norte.

Nas zonas fronteiriças, num território que inclui várias áreas classificadas, o ICNF “estima a existência de 10 casais nidificantes, sete dos quais localizados no Parque Natural do Tejo Internacional e territórios limítrofes e com reprodução confirmada em 2020”.

O tipo e a intensidade da presença da espécie nos territórios fronteiriços devem-se, prossegue aquele organismo, “a razões históricas”, baseada na disponibilidade de locais adequados à nidificação, proporcionados por áreas escarpadas. Concorrem para a existência de condições de nidificação da águia-real a “reduzida presença de actividades humanas e a disponibilidade de habitat de alimentação favorável, nomeadamente a gestão e exploração de recursos cinegéticos, a sul, e a actividade pecuária de bovinos e ovinos em regime extensivo, a norte”.

As observações de exemplares desta espécie fora das áreas tradicionais de nidificação “têm vindo aumentar”, salienta o ICNF, acrescentando que “os estudos de seguimento via satélite de juvenis permite observar repetidamente a utilização de áreas como o vale do Douro Vinhateiro, a bacia do Tua, a alta bacia do Côa, que poderão assim vir a ser colonizadas por esta espécie”. Esta constatação é interpretada pelo ICNF como “uma excelente notícia para a conservação desta espécie em Portugal.”

As boas perspectivas quanto à preservação da espécie estendem-se à região do Alentejo. Embora no ano de 2020 tenham ocorrido “vários constrangimentos durante o período reprodutor, os resultados foram bastante consideráveis”, destacando-se a presença de cerca de uma dezena de casais que ocuparam o território, numa área com cerca de 5600 quilómetros quadrados, assinala o ICNF, realçando a elevada importância das áreas classificadas no Alentejo.

A águia-real é uma espécie ameaçada com o estatuto de “Em Perigo” segundo o Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal. Desde 1994, verificou-se um número superior a 20 casos de morte, que tiveram como causas principais a electrocussão em linhas eléctricas aéreas, o uso de veneno e o abate a tiro.