Covilhã, Cidade Fábrica: um documentário interactivo onde a tradição da lã é apenas o início

A ligação da Covilhã à indústria de lanifícios é o ponto de partida do documentário interactivo Covilhã, Cidade Fábrica. À medida que o vemos, descobrimos mais sobre a vida dos homens e das mulheres que lidavam com teares e tinturarias e embarcamos numa viagem entre o presente e o passado, a realidade e a ficção.

Narrar a importância da indústria dos lanifícios com testemunhos das suas gentes é o cartão-de-visita do documentário Covilhã, Cidade Fábrica, capaz de agarrar qualquer espectador munido de curiosidade. Ajuntadeiras, fiadeiras, tecelões, urdideiras ou tintureiros. Uma vastidão de profissões levadas a cabo por homens e mulheres da Covilhã. Foram, em tempos, labores de peso. Com o passar do tempo, as empresas acabaram por falir e as fábricas por fechar. Os postos de trabalho desapareceram, mas não foram esquecidos. Em cada rua, ruela, bairro operário ou em conversa com as suas gentes, encontramos vestígios desta secular “Manchester portuguesa”. A ideia de fazer um documentário sobre o tema pairava na cabeça do autor Ivo Rocha da Silva há vários anos. E, a pouco e pouco, passou de um caderno de apontamentos para o formato audiovisual.

O passado de Ivo também andou por esta velha terra fabril. Como filho da terra e de quem lá trabalhou conhece a tradição “de fio a pavio”. “Eu sou da Covilhã. Tenho uma grande ligação emotiva e afectiva à cidade”, começa por explicar ao P3. “Do meu lado materno, a minha mãe e a minha avó trabalharam nas fábricas, portanto eu tinha ainda mais esse reforço emotivo com o tema.”

Terra de ovelhas e de lenha para os fornos da tinturaria, o dia-a-dia dos habitantes era passado a cardar, no caso dos homens, e a fiar, no caso das mulheres. A desigualdade salarial, o trabalho infantil, o urbanismo, o património e a política, questões encobertas pela lã, são agora reveladas. 

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Ivo Rocha da Silva

Covilhã, Cidade Fábrica, realizado por Inês Teixeira, quer ser um documentário diferente. Produzido pela Ocidental Filmes e pensado como se de uma viagem se tratasse, apela à participação de quem o vê. Uma viagem entre o presente e o passado, a realidade e a ficção, capaz de agarrar o público a uma narrativa destinada a “romper com o documentário tradicional.” “O que nós quisemos fazer foi desenvolver um documentário, mas de forma interactiva para que as pessoas pudessem ver à sua maneira, viajar por esta cidade fábrica e encontrar um bocadinho da história da Covilhã e dos lanifícios.”

Na plataforma interactiva concebida pela MajorTom, quem escolhe o rumo é o espectador. É possível clicar nas imagens e nos ícones e seguir as setas que vão sendo apresentados à medida que a história se desenrola. Podemos optar por segui-la de forma cronológica, do passado ao presente, ou escolher um percurso “ao sabor da própria vontade, sem que a mesma deixe de fazer sentido.

Quando o percorremos, entramos numa realidade imersiva e condensada que aumenta a curiosidade sobre o que se seguirá. E o que será que vem a seguir? Nunca é a mesma coisa. Podem ser depoimentos, imagens e vídeos de arquivo que espelham a realidade. Mas também podemos ser surpreendidos por recriações históricas da vida na cidade ou narração de excertos do romance A Lã e a Neve, de Ferreira de Castro.

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Ivo Rocha da Silva

Foram necessários quatro anos para que o projecto pudesse ser apresentado, ainda que não esteja pronto. “Na verdade, nunca está finalizado”, explica Ivo. O público vai assistir a uma história inacabada? Sim, mas apenas porque só assim faz sentido. “A mais-valia de ser um documentário que está na Internet é que ele não é estanque e a qualquer momento podemos acrescentar, remodelar.”

Os novos conteúdos, que ainda estão a ser preparados, dizem respeito à parte incógnita, o presente. A história vai mostrar que a zona não vive apenas de recordações e da popular expressão “ou eras operário ou eras industrial”. Nos últimos anos, a indústria de lanifícios assistiu a uma reestruturação. Surgiram novos intervenientes, como a New Hand Lab e a Universidade da Beira Interior, que se alicerçou nas antigas fundações fabris. “O presente vai falar disso, da transformação. Vai falar da Universidade da Beira Interior e da maneira como esta aproveitou os edifícios e reconverteu os que estavam abandonados, uma parte deles, para os transformar em pólos universitários. E vai ter depois algum conteúdo mais engraçado, que é o antes e o depois da Covilhã”, revela.

“As pessoas estão a aceitar muito bem e estão a gostar porque se estão a rever”, explica o autor. Para elas, o documentário é uma espécie de álbum de fotografias ou caixa de recordações. “Quando nós falamos deste tema, não estamos a falar só das pessoas que trabalharam na indústria. Estamos a falar das pessoas que ainda trabalham e de todos os familiares de pessoas que estiveram relacionados de alguma forma com a indústria.”

Assim que a situação pandémica o permitir, o documentário interactivo será mostrado às pessoas, especialmente às de mais idade que não estão familiarizadas com este tipo de formato. Ainda assim, o objectivo é que o projecto chegue a toda a gente e, por isso, Covilhã, Cidade Fábrica está disponível para visualização gratuita.

Texto editado por Ana Maria Henriques