“Portugal salva-se se a Europa se salvar” (Eduardo Lourenço)

As democracias enfrentam hoje em dia problemas que me parecem insolúveis. Portugal precisa de uma barrela de alto a baixo. Mas como combinar reformismo e popularidade e ganhar eleições?

A cada ano que passa esta frase me parece mais verdadeira. A somar à nossa histórica inépcia (excepto pela fugaz época dos Descobrimentos), a nossa existência, como nação autónoma e viável, depende hoje em dia de um continente também ele adoecido: há anos que a Europa (UE), meio estagnada, praticamente não cresce. A pergunta mais percuciente será então a de saber de que recursos dispomos para subsistirmos como um Estado-Nação soberano e independente para o caso de a Europa vir a sucumbir ou a desagregar-se. No séc. XIX, a “geração de 70” pôs em dúvida a viabilidade de Portugal. Antero, a quem a pátria doía insuportavelmente, suicidou-se.

Também a geração filha dos babyboomers, que viveu o apogeu da Europa, não enxerga quais possam hoje em dia ser esses recursos; além de que falta uma ideia programática para o País. Há séculos que os nossos momentos de relativa prosperidade procedem de factores externos à nação portuguesa. Já tivemos de tudo: especiarias, ouro e pedras preciosas, remessas dos emigrantes no Brasil; mais tarde, da Venezuela e da França. E tudo se sumiu, sugado pelo Estado e respectivas clientelas. Tanto no tempo do Absolutismo como no da Monarquia Constitucional (1834-1910), quando contraíamos empréstimos para pagar empréstimos, até que a verdade se impôs e em 1892 Portugal faliu com estrondo.

O 25 de Abril foi uma oportunidade preciosa para a sociedade portuguesa se emancipar. Mas deu no que deu: nacionalizações de bancos a lavandarias e, concomitantemente, a tutela do Estado e o cutelo do Partido Comunista sobre os meios de comunicação social. Quem não se lembra da censura imposta no Diário de Notícias pelo camarada José Saramago? Quem não se lembra do assalto ao diário socialista A Luta? O 25 de Abril foi uma oportunidade perdida. Mas não para todos: ganharam o dr. Cunhal e a União Soviética, a quem foi entregue Angola por intermédio de Rosa Coutinho, na altura governador da colónia, e de Agostinho Neto, presidente do MPLA. Consumada esta transacção, percebeu-se, com a transparência da água da fonte, que o alvo principal da romântica revolução dos cravos, conduzida por trás da cortina pelo dr. Cunhal, estava cumprido: Angola era deles. Ainda hoje não coramos de vergonha.

Felizmente, o memorável 25 de Novembro de 1975 pôs cobro ao PREC. Muitas medidas foram revertidas. Mas faltava, para normalizar a situação, admitir a direita na Cidade: devemos a Sá Carneiro, presidente do VI Governo Constitucional (1980-1), a relegitimação da direita em Portugal. Custa a compreender, ao cabo de 45 anos de democracia, o desprezo a que a direita democrática é votada, ao passo que a extrema-esquerda, jacobina e bolchevique, se alçou ao estatuto de acólito governamental do Partido Socialista. Este não enjeita o Partido Comunista, que por puro oportunismo se finge democrático, fiado em que um dia a História há-de amanhecer sem camponeses, nem capitalistas, nem classes médias falhas de consciência de classe. O governo ausculta o PCP e os sindicatos obedecem-lhe. O poder e influência do PC devem-se ao controlo comunista da Intersindical. É respaldado por este poder que o PCP está à vontade para chantagear o Governo de António Costa.

Dir-me-ão que Cavaco Silva governou durante uma década. O seu principal apoio residia na província e, em geral, nas classes médias-médias e baixa. Nos meios das classes altas prevaleceu sempre um olhar de soslaio sobre o filho de um gasolineiro que se doutorara em Economia numa universidade britânica e era recebido pelos reis de Espanha. Durante os dez anos em que foi primeiro-ministro, transformou num país europeu o que não passava de uma aldeia saloia e primitiva acantonada no Oeste da Península Ibérica. Porém, e em essência, Cavaco Silva foi sempre considerado um intruso no regime – quer na governação, quer na Presidência. Desde o 25 de Abril, o Partido Socialista governou Portugal, só ou em coligação, cerca de 28 anos; à direita couberam cerca de 17 anos. Quase toda a comunicação social continua dominada pela esquerda, na oposição ou no poder. A esquerda sempre considerou que o regime democrático lhe pertencia. Sousa Tavares treme perante a possibilidade de um alargamento do voto dos emigrantes inquinar as eleições com demasiados votos à direita! Em 45 anos de Democracia, a direita não se conseguiu impor com boas maneiras e falinhas mansas. Vejo no Chega, precisamente pelo alarme que causa, um possível pelotão da frente para abrir caminho a uma direita clássica, democrática e – sobretudo liberal.

A colonização do País pela esquerda é um fenómeno bizarro e quase inexplicável. Rui Ramos analisou os resultados das últimas eleições presidenciais, concluindo que o que estas nos dizem é que “o País não é de esquerda, que a persistente governação socialista não corresponde a nenhuma sintonia com as doutrinas socialistas, mas a uma estrutura de poder”. (Observador, 29.1.2021) Mas Rui Ramos diz mais: ”Só a estratégia do PS de criar clientelas dependentes do Estado, associada à crescente abstenção, permite à esquerda manter-se no governo [...]. O Estado é de esquerda, mas o País não é.” (idem)

As democracias, e Portugal em particular, enfrentam hoje em dia problemas que me parecem insolúveis. Portugal precisa de uma barrela de alto a baixo. Mas como combinar reformismo e popularidade e ganhar eleições? O problema é geral, ou quase geral. Veja-se a França: irreformável. Raramente na Europa se engendrou uma maneira de combinar popularidade com um executivo liberal e democrático, mas forte. Grande parte da Europa tornou-se ingovernável. Desde o final da II Grande Guerra até à crise financeira e bancária de 2007-8, os povos têm-se tornado cada vez mais difíceis de contentar. Porém, não se vislumbra nenhum modelo político-social alternativo, nenhuma ideologia de substituição. O que a direita ou a esquerda (salvo o Chega) têm para oferecer é sempre mais do mesmo.

O mundo tem mudado vertiginosamente, mas as nossas ferramentas políticas permanecem inalteradas. O “nosso modo de vida” ocidental, de que com toda a razão nos orgulhávamos, está esgotado, mas nós não estamos preparados para abdicar de direitos e privilégios acumulados ao longo de décadas. Mas mais tarde ou mais cedo, e mais cedo do que tarde, teremos de renunciar a alguns deles, a menos que um crescimento milagroso de 4 ou 5% ao ano nos permitisse pelo menos adiar as reformas. Mas a Europa está praticamente estagnada, que é precisamente a razão pela qual tanto precisamos de nos reformarmos e adaptarmos a um mundo onde o Atlântico está a acabar. A civilização europeia atingiu o seu twilight. O centro de gravidade da economia desloca-se para a Ásia, e os oceanos agora interessantes são o Índico e o Pacífico. E já vamos tendo muitíssimo que aprender com os chineses, que há uns 10-15 anos só sabiam copiar!

No que muita gente distraída não repara é na flagrante coincidência entre o declínio económico e social da Europa com o afundamento da sua criatividade intelectual e imaginação política. Desaparecidos Bloom, Steiner, Strauss ou Scruton, onde estão os grandes pensadores, os grandes intelectuais do século XXI? E em Portugal, onde encontramos cabeças que nos orientem? Portugal depende de um renascimento da Europa: culturalmente, intelectualmente, economicamente. Portugal salva-se se a Europa se salvar.