“Se tiver acesso a uma vacina, por favor tome-a”, pede directora científica da OMS

Organização Mundial da Saúde recomenda vacina da AstraZeneca sem limite de idade e mesmo em países com a variante da África do Sul, apesar de ainda faltarem dados para compreender bem a protecção que dá. O mais urgente é vacinar o maior número possível de pessoas no mundo.

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A vacina da AstraZeneca é importante para muitos países mais pobres - aqui no Brasil, no estado do Amazonas Reuters/BRUNO KELLY

A Organização Mundial da Saúde recomendou esta quarta-feira o uso da vacina da AstraZeneca contra a covid-19 para todas as pessoas que tenham mais de 18 anos, sem impor limites de idade, e que as duas doses sejam administradas, preferencialmente, com um intervalo de oito a 12 semanas.

Apesar de os resultados iniciais de um ensaio clínico na África do Sul terem revelado que a vacina da AstraZeneca é menos eficaz a proteger contra casos leves ou moderados de covid-19 causados pela variante B 1.351 do novo coronavírus, surgida naquele país, o Grupo de Especialistas de Consultoria Estratégica em Imunização (SAGE, na sigla em inglês) da OMS considerou que a vacina deve ser administrada também em países onde estiver em circulação esta variante.

Nenhum dos cerca de 2000 participantes neste estudo precisou de ser internado, ou morreu por causa da covid-19. Mas verificou-se que a vacina da AstraZeneca-Oxford tinha uma eficácia de apenas 22% no geral, ou seja, os participantes vacinados apenas tinham um risco 22% menor de desenvolver covid-19 leve a moderada em comparação com os indivíduos que receberam um placebo.

A África do Sul, que tinha acabado de receber as primeiras doses desta vacina, suspendeu temporariamente a campanha de imunização, enquanto decide o que fazer. O ministro da Saúde falou nesta quarta-feira na possibilidade de trocar as suas vacinas com outros países.

O grupo de especialistas da OMS salientou, no entanto, que a reduzida dimensão deste estudo, que ainda não foi submetido a revisão pelos pares, não permite avaliar de forma específica a eficácia da vacina contra formas graves da covid-19. Outros ensaios clínicos de grande dimensão estão neste momento a decorrer, por exemplo nos Estados Unidos e no Brasil, e pretendem dar resposta a essa questão – e também esclarecer a eficácia da vacina da AstraZeneca nas pessoas mais velhas.

Doses não foram administradas da forma mais eficaz

“A variante B 1.351​ provou ter uma marcada redução de eficácia da vacina nos casos de doença leve a moderada, mas há provas indirectas de que protege contra formas graves de covid-19, hospitalização e morte”, considerou Alejandro Cravioto, secretário do SAGE, numa conferência de imprensa através da Internet, para explicar porque é que a OMS continua a apostar na vacina da AstraZeneca para todas as idades e todos os países.

São argumentos semelhantes aos já usados pela Agência Europeia do Medicamento (EMA) para autorizar a sua administração também a maiores de 18 anos, sem limite de idade: apesar de nos ensaios clínicos já terminados existirem poucos dados directamente observados sobre sua eficácia em pessoas mais velhas, tudo leva a crer que a resposta imunitária que desencadeia nos mais jovens se repetirá nos maiores de 65.

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A África do Sul suspendeu a vacinação, quando se soube o resultado preliminar do estudo dos efeitos da vacina da AstraZeneca na nova variante REUTERS

“Há um grande intervalo de confiança na análise da eficácia da vacina porque poucas pessoas com mais de 65 anos participaram nos ensaios clínicos, e estiveram muito protegidas para evitarem ficar doentes. Por outro lado, a estratégia de imunização seguida não foi a que é agora a mais recomendada, por se ter verificado que torna a vacina mais eficaz: as duas doses foram administradas a estas pessoas com um mínimo de intervalo, o que afecta a eficácia da vacina”, explicou Joachim Hombach, secretário executivo do SAGE.

“Mas a resposta imunitária no grupo de pessoas acima dos 65 foi praticamente igual à dos mais jovens – o que nos dá muita confiança”, concluiu Hombach.

“Todas as vacinas têm um gradiente de eficácia, desde evitarem a doença mais grave até formas mais leves e é de esperar que os efeitos da vacina da AstraZeneca sejam mais fortes para impedir as formas mais graves da covid-19”, adiantou ainda Kate O'Brien, responsável pelo Departamento de Vacinas, Imunização e Medicamentos Biológicos da OMS. Embora o intervalo de confiança da eficácia desta vacina seja muito grande, anda entre 52% e 63%.

Mas a resposta dos linfócitos T - outro elemento do sistema imunitário, além dos anticorpos - continua a ser bastante bom, mesmo nas pessoas que foram infectadas com a variante B1.351, a detectada na África do Sul, sublinhou Kate O’Brien.

Por isso, a directora científica da OMS, Soumya Swaminathan, não teve dúvidas na sua recomendação: “Se tiver ao seu alcance uma vacina contra a covid-19, por favor tome-a. Não fique à espera de uma melhor, que pode chegar daqui a seis meses.”

EMA prepara recomendação sobre variantes

A EMA anunciou, entretanto, nesta quarta-feira que está a preparar uma recomendação para todos os fabricantes de vacinas relativamente às variantes do SARS-CoV-2. Pediu às empresas para investigarem se os seus produtos oferecem protecção contra qualquer das variantes conhecidas – as mais conhecidas, e que causam maior preocupação, são as identificadas na África do Sul, Reino Unido e Brasil – e que lhe apresentem dados. “Em breve será publicado um estudo de reflexão com os estudos necessários para as necessárias adaptações das actuais vacinas às actuais ou futuras mutações do SARS-CoV-2 na União Europeia”, diz um comunicado da EMA.

A vacina da AstraZeneca é muito importante para todos os países que não fazem parte do clube restrito dos mais ricos – a dezena onde até agora já foram administradas cerca de 200 milhões de doses, como sublinhou O’Brien –, porque é mais barata e não tem tantas exigências ao nível de refrigeração. Por isso, ela é muito importante para os países que aderiram à iniciativa COVAX e que esperam começar a receber as primeiras doses ainda em Fevereiro, muitas delas da AstraZeneca – logo depois de um outro procedimento da OMS, a autorização do uso de emergência, que deve ser emitida em meados do mês.

Cerca de 130 países, onde vivem 2500 milhões de pessoas não administraram ainda uma única dose de vacina contra a covid-19, recorda a UNICEF, num comunicado emitido nesta quarta-feira, em que apela aos líderes dos países mais ricos para “olharem para lá das suas fronteiras e usarem uma estratégia para as vacinas que consiga de facto acabar com a pandemia e limitar o surgimento de variantes” do coronavírus.

Por isso, apesar das incertezas que ainda subsistem relativamente à vacina da AstraZeneca – as relativas à idade não parecem ser tão importantes como as que dizem respeito à sua eficácia perante algumas das novas variantes do coronavírus, pelo que dizem os cientistas –, atrasar a sua recomendação, e a sua entrada em uso, é algo que está fora de questão para a OMS, explicou Alejandro Cravioto. “Atrasar a recomendação da vacina quanto temos milhares de pessoas a morrer diariamente em tantos países não seria justificável”, disse o cientista mexicano.

O grande ensaio clínico que a agência reguladora do medicamento norte-americana exigiu à AstraZeneca, já com boa representatividade de pessoas mais velhas, deve dar os primeiros resultados em Março. E então a imagem pode tornar-se mais clara. “Estas recomendações são preliminares e podem vir a ser actualizadas, porque estamos à espera de mais dados”, disse Joachim Hombach.

Entretanto, os problemas de produção da AstraZeneca que estão a travar o abastecimento do mercado europeu podem vir a ser aliviados, através de um acordo com a empresa alemão IDT Biologika, anunciado nesta quarta-feira. As duas empresas estabeleceram uma parceria para a produção da vacina da AstraZeneca, no segundo trimestre de 2021.

Está ainda em discussão um acordo para que a multinacional farmacêutica invista nas instalações da IDT Biologika em Dassau, no estado-federado da Saxónia-Anhalt, para que possa construir biorreactores de 2000 litros, onde a partir do fim do fim de 2022 poderiam produzir-se dezenas de milhões de doses da vacina da AstraZeneca, anunciou a farmacêutica, em comunicado.