“Testagem é a arma principal que devemos usar e não o confinamento”. Temos andado “atrás da epidemia”, diz Manuel Carmo Gomes

Manuel Carmo Gomes entende que Portugal pode baixar para três mil casos diários em duas semanas, defendendo que aumentar capacidade testagem é mais importante do que o confinamento. Epidemiologista não voltará a participar nas reuniões do Infarmed.

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Testagem à covid-19 deve ser reforçada, defende Carmo Gomes Daniel Rocha

O epidemiologista Manuel Carmo Gomes considerou, na reunião do Infarmed desta terça-feira, que é essencial aumentar a testagem do vírus, como fez a Dinamarca. "Penso que a testagem é a arma principal que devemos usar e não o confinamento”, resumiu, na intervenção que fez no encontro.

Para Carmo Gomes, a resposta gradual aos indicadores epidémicos – que tem de ser baseada numa experiência “que não pode ser ignorada” – é insuficiente. “Temos de ter uma resposta agressiva, estabelecer linhas vermelhas. Se estas forem ultrapassadas, temos de agir de forma muito agressiva relativamente à epidemia. Esta é a posição que um grupo de 871 cientistas tem estado a defender num site que convido a visitar. Há também preocupações de grandes grupos de cientistas europeus relativamente à presença das variantes, porque elas só vão agravar a situação e tornar mais premente uma mudança de estratégia”, relatou.

Carmo Gomes analisou as medidas tomadas pelo Governo no combate à epidemia. E o primeiro balanço não foi positivo: o professor de Epidemiologia da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa diz que as medidas são tomadas com atraso, numa tentativa de “andar atrás da epidemia”, contribuindo para uma polarização da opinião pública sobre as restrições aplicadas para conter o vírus. 

“A forma como temos vindo a lidar com a epidemia consiste em ler os indicadores – que normalmente chegam com sete dias de atraso –, adoptar medidas em resposta que parecem ser as adequadas à situação, depois levamos uma semana a 15 dias para ver o resultado das medidas, normalmente as medidas não são suficientes e continuamos nisto”, criticou.

Aprender com a Dinamarca

Dando o exemplo da Dinamarca como uma resposta “forte e agressiva”, Carmo Gomes mostrou como o Governo dinamarquês aumentou “brutalmente” a testagem após uma subida do número de casos, algo que em Portugal não foi feito, face à mesma subida, registada após o Natal. “Enquanto em Portugal andamos atrás da incidência, a Dinamarca conseguiu manter a percentagem de testes positivos relativamente baixos, devido a esta resposta”, explicou. Mas como manter o controlo da epidemia após o período de confinamento? Para Carmo Gomes, é essencial aumentar a testagem do vírus, como fez a Dinamarca. "Penso que a testagem é a arma principal que devemos usar e não o confinamento”, disse.

O especialista da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa analisou, na última reunião do Infarmed em que participará (uma decisão que, disse ao PÚBLICO, se deve a motivos de disponibilidade pessoal), a evolução epidemiológica e os critérios de actuação adoptados pelas autoridades, e considerou ainda que o risco de contágio aumentou no mês de Janeiro, registando-se uma estabilização de novos casos, equivalente ao pico da mais recente onda do vírus em Portugal

“Como podemos observar, o risco [de contrair a infecção] aumentou ao longo de Janeiro. Os grupos com maior risco são os de 18 a 24 anos e com mais de 80 anos. O grupo de população activa, com 25 a 65 anos de idade, que também está com taxa de incidência muito elevada. Num nível intermédio, os jovens de 13 a 17 anos, também com risco a crescer. Isto resulta numa estabilização dos contágios, porque há um atraso nos contágios ocorrerem e nós termos conhecimento. Os contágios estabilizaram por volta de 16/19 de Janeiro e coincide com o pico da epidemia”, detalhou o especialista.

Manuel Carmo Gomes revelou que, se for mantida a tendência registada nos últimos dias, Portugal pode descer para o patamar dos três mil casos diários dentro de duas semanas. Alertou para o facto de a velocidade de redução da transmissibilidade abrandar, demorando agora mais tempo a baixar novamente. “O R tem apresentado uma tendência descendente, mas é preciso um certo cuidado: para determinado nível de confinamento, o R desce mas depois tem tendência para estabilizar. O facto de estar com nível baixo, 0,82, significa que o número de casos vai continuar a descer mas a velocidade a que desce pode parar de aumentar. Neste momento, estamos a estimar que teremos uma redução a metade do número de casos em 14 dias, sendo que daqui a duas semanas podemos chegar à zona dos três mil casos [diários]”, explicou.