Covid-19: efeito do Natal pode ter “maior dimensão” em Portugal do que na Europa

A maioria dos Governos europeus optou por medidas mais relaxadas para os dias de Natal, mas o médico Ricardo Mexia nota que, apesar dos alívios, esses países “tiveram medidas mais apertadas” do que Portugal. Número diário de casos vai subir — falta saber quanto.

Foto
Rui Gaudencio

Ainda não é possível perceber todos os efeitos do alívio das medidas contra a covid-19 em vários países europeus durante o Natal, mas o alívio maior de restrições assumido por Portugal (em comparação com outros países europeus) pode ter implicações na dimensão do aumento de casos que é esperado para as primeiras semanas de Janeiro, de acordo com o presidente da Associação Nacional de Médicos de Saúde Pública, Ricardo Mexia.

Dos seis países que o PÚBLICO escolheu acompanhar, apenas Portugal e Reino Unido têm verificado um aumento constante de novos casos depois da quadra natalícia. No caso de Portugal, os menores números de notificações nos dias de Natal foram seguidos por três dias com mais de seis mil casos, um desses com um novo máximo diário (7627 novos casos a 30 de Dezembro). A média a sete dias de novos casos diários por um milhão de habitantes do país é agora de 489,3 — um aumento de quase 40% face à incidência de 350,5 a 24 de Dezembro.

No Reino Unido, o número de novas infecções já vinha a aumentar ainda antes do Natal, e o país registou esta segunda-feira um novo máximo de 58.784 casos identificados em 24 horas, sendo o sétimo dia consecutivo em que o número diário de casos fica acima dos 50 mil: nos últimos dias, a média diária de infecções aumentou 50% no país. A incidência no país é neste momento de 773,3. 

Por outro lado, a Bélgica manteve a tendência decrescente de novos casos, com uma descida da incidência de 212,5 a 24 de Dezembro para 137,2 a 3 de Janeiro. A Alemanha passou de uma tendência de estabilização para uma descida desde o Natal, de uma média 301,1 casos por milhão de habitantes para 213,6.

Para Ricardo Mexia, ainda é cedo para avaliar por completo o impacto do Natal nos contágios, mas os picos verificados em Portugal entre o Natal e o Ano Novo têm “seguramente um pouco a ver com isso”.

O médico refere que só a partir de quarta-feira é que deverão começar a ver-se valores mais próximos da realidade, mas nota que as diferenças entre os países europeus no alívio das restrições durante a quadra natalícia vão provocar efeitos distintos.

Ricardo Mexia nota que, apesar dos relaxamentos, Espanha, Alemanha, Bélgica, Reino Unido e até França “tiveram medidas mais apertadas do que as nossas”, pelo que se antevê que o crescimento provocado pelas reuniões familiares do Natal “tenha uma maior dimensão” em Portugal.

Já o aumento de casos no Reino Unido “começou ainda antes do Natal, pelo que há outros factores que podem explicar o agravamento”, entre eles a circulação da nova variante, uma “dificuldade adicional”.

Subida de casos era sabida. Falta perceber a dimensão

O aumento da incidência depois do Natal era algo esperado pelos países europeus, pelo que medidas mais severas não bastariam, por si só, para reduzir contágios. Para Ricardo Mexia, a mensagem transmitida ao aliviar as restrições também tem um papel preponderante nas atitudes dos cidadãos.

“Toda a gente sabia que o aumento do número de casos ia acontecer, independentemente de alívios. A questão que se coloca é a dimensão. Quando se aligeiram as medidas, passa-se uma mensagem, as pessoas acabam por adoptar comportamentos que se calhar não teriam se a mensagem fosse outra”, afirma.

Agora, em função da decisão tomada, é necessário “reforçar os meios, melhorar a comunicação”. “Prevenir os problemas em vez de reagir aos prejuízos”, diz o médico.

Além das medidas, refere também que o começo da vacinação “pode ter criado um certo sentimento de que está tudo resolvido”, com as pessoas a “descurar algumas medidas mais básicas. “A vacina só vai ter um impacto daqui a vários meses, nada muda em relação às medidas nem vai poder mudar num horizonte próximo”, diz.

Ainda assim, sublinha que tal hipótese “não passa de especulação”. “O que é facto é que temos os números a subir. Esta segunda-feira, com dados de domingo, estamos acima dos 4 mil. É um valor importante”, avisa, acrescentando que os cenários descritos por “colegas no terreno” fazem temer que a situação “se possa agravar nos próximos dias”.

No dia de Natal foram recolhidas apenas 8770 amostras, o número mais baixo desde Agosto. A procura foi maior imediatamente antes do Natal, com 58.686 testes feitos no dia 23 de Dezembro.

Ricardo Mexia reconhece que o número de casos mais baixo registado nos dias de Natal também são resultado do menor número de testes realizados, mas que ao longo dos dias os números acabam por se corrigir, pelo que “a flutuação dos testes não é um problema”.

“Antes do Natal tivemos muita gente que não iria ser testada e foi, e essa é a maior diferença. Mas a taxa de positividade continua a ser muito elevada. Se tivéssemos testado mais, a positividade caía”, refere.