Todos humanos, mas uns mais do que outros

Estou farto de ser odiado só porque sou cigano, estou farto de ser instrumentalizado só porque sou cigano. Não quero ser prejudicado por ser desta ou daquela etnia, não quero ser beneficiado. Quero ter o direito de ser quem sou.

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Este é o estranho mundo em que vivemos, lugar agradável e horrível, luminoso e sombrio, maravilhoso e terrorífico. Sim, é tudo isto, mas depende de a quem perguntarmos.

Não venho dar lições de moral, nem entrar em questões de política, apenas mostrar alguns factos e falar daquilo que acredito que seja senso comum. Senso comum que creio estar a ser esquecido, dando lugar a fundamentalismos de todo o tipo. A estimativa da União Europeia diz-nos que cerca de 20,9 milhões de seres humanos são traficados como gado todos os anos ao redor do mundo, sendo cerca de 11 mil apenas na União Europeia (em 2012). Perto de 68% têm como objectivo o trabalho forçado e apenas 3855 dos responsáveis por tudo isto foram condenados na Europa, entre 2010 e 2012. Em Portugal, chegaram quase 80 pessoas vindas de El Jadida (Marrocos) à costa algarvia, em 2019. A grande maioria destas vítimas são mulheres e crianças.

Actualmente, existem cerca de 40 milhões de escravos no mundo (dados da ONU) e, há dois anos, a estimativa em Portugal era que existissem cerca de 26 mil, segundo a fundação australiana Walk Free. Existem também dados da Organização das Nações Unidas que dizem que 150 milhões de crianças são obrigadas a trabalhar ao redor do globo, sendo uma boa parte delas “empregadas” por grandes empresas tecnológicas na extracção de lítio para baterias. No nosso país, os dados são incertos e residuais, mas continuam a existir. Observando, mais uma vez, dados da ONU, vemos que perto de 820 milhões de pessoas enfrentam a fome (com tudo aquilo que lhe advém), sendo grande parte desta população crianças. No nosso querido quadradinho à beira do Atlântico, acredita-se que 11% das famílias estejam em situação de fome (isto em 2017) e o risco de uma família com filhos chegar ao limiar da sobrevivência era de 31%, em 2013.

Tudo isto e muito mais acontece no nosso mundo, no nosso amado país e (surpreendam-se!) no Ocidente uma das discussões mais na moda é a de que o meu fundamentalismo é melhor que o teu, esquecendo completamente os quase 20 milhões de seres humanos que morreram nos campos de concentração nazis e as 10 mil vítimas do Holodomor, não esquecendo os outros milhares que perderam as suas vidas por causa da cobiça pelo petróleo dos EUA, entre outros.

A maioria destas atrocidades acontece por variadíssimos motivos e nenhum deles faz sentido. Não consigo compreender como alguém consegue olhar para um seu semelhante e pensar em formas de o vender, explorar, escravizar, utilizar. Transformam-se crianças em objectos, desumanizando-as porque dá lucro, porque são de tal raça ou etnia ou um qualquer deus o assim decidiu.

Sou um bocado niilista, reconheço-o. Não gosto de ideologias, a política irrita-me, não consigo entrar em jogos de poder e oportunismos cheios de nepotismo. Não acredito na falácia da perfeição sem escrúpulos do livre mercado, não me sinto confortável no sonho hipócrita do marxismo e muito menos sou apologista a monstruosidade asquerosa do nazifascismo. Acredito nos direitos humanos, acredito que uma criança tem o direito de ser astronauta, médico, engenheiro ou pintor, independentemente do país, da região onde vive, da raça, da etnia, género, situação económica ou de outro qualquer factor, pois as únicas razões do seu sucesso devem ser as suas preferências, capacidades e esforço. Abomino a igualdade de resultados, mas exijo igualdade de oportunidades.

Estou farto de ser odiado só porque sou cigano, estou farto de ser instrumentalizado só porque sou cigano. Não quero ser prejudicado por ser desta ou daquela etnia, não quero ser beneficiado. Quero ter o direito de ser quem sou, quero ter o direito de ser um ser humano como qualquer outro, porque o sou. Enquanto não ficar claro que, independentemente de todos os factores externos, somos todos homo sapiens, o mundo não pode seguir em frente. No entanto, também não seguiremos em frente enquanto não pensemos por nós próprios.

Se queremos mudar o mundo, devemos mudar-nos primeiro - “a mudança começa em mim” deve ser o pensamento. Até porque o mundo somos nós, os 7 mil milhões de humanos que habitam o planeta Terra e não algo abstracto. Mais do que ideologias, deve-se privilegiar as pessoas e assim criar um mundo onde todos podemos viver com dignidade. Como dizia Kant, devemos ver o próximo como um fim em si mesmo e não como um meio para atingir um fim, seja ele qual for.