Terceira vaga da covid-19 quebra tendência de recuperação do emprego

Taxa de desemprego contabilizada pelo INE voltou a cair para 6,5%, um valor muito próximo do nível pré crise, mas as medidas de confinamento estão a baralhar o desempenho deste indicador ao nível das estatísticas.

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Rui Gaudencio

A taxa de desemprego estimada pelo INE acentuou, nos últimos dois meses do ano, a tendência de descida que se verifica desde Junho, mas o resultado de Dezembro ocorre em simultâneo com uma subida da população inactiva e uma diminuição da população empregada. Isto pode significar que, tal como aconteceu no início da pandemia, os dados do desemprego estão a ser beneficiados pelas circunstâncias excepcionais trazidas pelo confinamento ao mercado de trabalho.

De acordo com a informação divulgada esta sexta-feira pelo Instituto Nacional de Estatística, a taxa de desemprego em Portugal, que se tinha situado em 7,5% em Outubro (dados ajustados de sazonalidade), caiu para 7,1% em Novembro e para 6,5% em Dezembro. No último mês do ano foram contabilizados 331 mil desempregados em Portugal pela autoridade estatística, o que significa, olhando apenas para estas estatísticas, que já existem menos seis mil desempregados em Portugal do que no passado mês de Fevereiro, antes da pandemia.

No entanto, neste tempo de pandemia, olhar unicamente para as estatísticas do desemprego quando se analisa o mercado de trabalho pode ser muito enganador. É preciso notar que os indicadores referentes a Dezembro, de carácter ainda provisório, são o resultado de inquéritos realizados ao longo do trimestre entre Novembro e Janeiro deste ano (neste caso as entrevistas decorreram até 17 de Janeiro, com respostas dadas até 24 de Janeiro), incluindo por isso já o período em que foram reforçadas as medidas de confinamento, em resposta à nova vaga da pandemia.

E como se verificou no início da crise, o confinamento baralha significativamente as estatísticas de desemprego do INE. Isto acontece, como explica a própria autoridade estatística, porque as pessoas sem emprego, limitadas nos seus movimentos e com os potenciais empregadores com a actividade reduzida, deixam de conseguir procurar activamente um trabalho, uma das condições para que possam ser declaradas, do ponto de vista estatístico, como desempregadas.

Neste caso, acabam por ser classificadas como inactivas e, em Dezembro, a população inactiva aumentou em cerca de 50 mil pessoas, depois de em Novembro ter praticamente estagnado.

Assim, mais relevante para se tentar perceber o que está acontecer no mercado de trabalho em Portugal é a evolução da população empregada. Este indicador, depois de uma forte quebra no segundo trimestre do ano passado, vinha registando desde o mês de Junho uma subida progressiva, feita a par com a retoma parcial da actividade económica.

Mas em Novembro, de acordo com os dados agora publicados pelo INE, essa subida abrandou e em Dezembro, já com o efeito parcial daquilo que está a acontecer em Janeiro, registou-se uma descida do número de empregados, em cerca de 10 mil pessoas, a primeira variação negativa deste indicador desde o passado mês de Maio.

Os trabalhadores colocados em lay-off continuam a ser registados como estando empregados, pelo que não é por esta via que se assiste agora a uma redução do emprego.

Parece assim evidente que, mais uma vez acompanhando aquilo que é a evolução da actividade económica, que terá recuado no quarto trimestre do ano passado, se está também a começar a assistir, com um ligeiro diferencial de tempo, a uma inversão da tendência de recuperação que vinha sendo feita no mercado de trabalho.