Espanha

Espanha: a dor que a Polícia provoca nos imigrantes ilegais é “legítima”?

Em Reducción, Felipe Romero Beltrán propõe uma reflexão sobre "a aplicação de técnicas de inflicção de dor" por parte da Polícia sobre migrantes em situação ilegal em Espanha. "Esta é uma lógica de poder que se normalizou", refere o fotógrafo, que quer "abrir a discussão sobre a legitimidade destes mecanismos". 

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Em 2020, quando o fotógrafo colombiano Felipe Romero Beltrán, residente em Madrid, se viu com problemas relativos à actualização do seu visto de permanência em Espanha, percebeu que estava em situação idêntica à de muitos migrantes que se encontram, ilegalmente, no país. À semelhança de muitos dos residentes estrangeiros do bairro onde vive, em Lavapiés, Felipe deu por si a ter de evitar os pontos da cidade onde, aleatoriamente, a polícia estabelece pontos de controlo de documentação e onde submete, em caso de resistência, os imigrantes a técnicas de imobilização por meio do uso da força física.

O projecto Reducción, palavra que, em castelhano, assume o significado de "subjugar ou forçar alguém que oferece resistência a obedecer", descreve as técnicas policiais que são utilizadas para submeter quem resiste ao controlo e os locais onde são montadas essas operações de fiscalização. "Em contacto com a comunidade do meu bairro, fui-me apercebendo de quais eram as ruas, as artérias, onde a polícia realiza essas acções e ouvindo histórias, na primeira e na terceira pessoa, relativas às detenções que são realizadas", explica o colombiano ao P3, em entrevista telefónica.

"Uma das histórias que conheci, que me marcou e que alavancou o desenvolvimento desta história, foi a de um senegalês que morreu durante uma destas operações. Morreu vítima de um ataque cardíaco." Muitos dos que são detidos sem documentos legais enfrentam possibilidade de detenção nos "Centros de Internamento de Estrangeiros" e, em último caso, enfrentam risco de deportação. Em Espanha, existem oito centros de detenção de migrantes, onde estes podem ficar retidos durante dois meses enquanto aguardam decisão de extradição, ou não, das autoridades.

Para a realização deste projecto, Felipe contou com a colaboração de dois amigos migrantes, que aparecem nas imagens realizadas em estúdio a simular as tácticas de submissão usadas pela polícia e de um ex-guardia nacional, que conhece e tem na sua posse o manual que descreve todas as técnicas que são utilizadas. "Os dois momentos que vemos descritos nas imagens formam um só, na realidade", explica Felipe. "De um lado, os locais onde ocorreram as detenções e, do outro, os visados sofrendo e aplicando as manobras de submissão. Não pude fazer um registo in loco, com os intervenientes reais, devido a questões legais. E porque não é fácil, em toda a área de Madrid, estar no local certo à hora certa, visto que se tratam de operações espontâneas, que não têm registo sequer a posteriori."

No fundo, refere o fotógrafo, que conversou com o P3 a partir do México, "estamos a falar de violência estatal, estrutural, sobre corpos reais", resume. Ou seja, "da aplicação de técnicas de inflicção de dor de um indivíduo sobre outro, em nome do Estado, numa lógica de poder que se normalizou". E é precisamente para chamar a atenção para essa normalização que Reducción existe e que se encontra em exposição no novo pólo de formação do Instituto de Produção Cultural e Imagem (IPCI), na Avenida Conde de Valbom, em Lisboa, até ao final do mês de Janeiro. "O projecto não pretende dar respostas ou formar juízos de valor, mas sim abrir a discussão sobre a legitimidade destes mecanismos." Este é um trabalho "incómodo", apelida, para a maioria dos Estados, motivo pelo qual é difícil, para Felipe, conseguir reunir apoios para lhe dar continuidade. Apesar disso, considera que a série se mantém em aberto, à espera de novos capítulos.

©Felipe Romero Beltrán
©Felipe Romero Beltrán
©Felipe Romero Beltrán
©Felipe Romero Beltrán
©Felipe Romero Beltrán
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