Às voltas...

Entre os que defendiam um adiamento e os que insistiam em arrumar rapidamente com esta reeleição, Portugal foi votos e o povo falou. Falou e decidiu pela continuidade, pelos afetos em vez da aspereza, pela estabilidade em tempos de incerteza, pelo centro democrático em vez dos radicalismos extremistas.

Todos os cenários indicavam o pior. O fantasma de uma abstenção histórica pairava sobre estas eleições presidenciais à boleia de uma pandemia que nos voltou a confinar a todos. Mas os portugueses quiseram mostrar que a democracia tem que ser defendida. Que os radicalismos a que temos vindo a assistir nos últimos tempos, e que nos mostram a pequena ponta de um icebergue que já conhecemos de tempos que nem gostamos de nos lembrar, deve ser combatido sem tréguas. O pior dos populismos é quando o canto da sereia que propala venturas arrasta uma horda de incautos e insatisfeitos para um precipício de valores que nos tenta arrastar na lama. 

O povo gritou. Mas nenhum dos golpes lamacentos e baixos granjeou o objetivo traçado pelo próprio como limite. Ventura ficou abaixo de Ana Gomes, e o país respirou de alívio. Anunciou que cumprirá o que prometeu, demitindo-se, mas sabemos que o peito inchado demorará ainda algum tempo a esvaziar. O discurso inflamado e sobranceiro, aliás, assim o prenuncia. Mas o próprio revelou ao que vinha, e as contas que tem para acertar são com o PSD. De resto, a noite foi mais longa do que o previsto e mais dramática para as esquerdas. 

Juntos, os candidatos do PCP e do BE somaram parcos 8% dos votos, esta foi a verdadeira hecatombe eleitoral. Só Marisa Matias perdeu mais de 300 mil votos. Um castigo? Uma desafeição? O regresso às bases? Este foi um fenómeno imprevisível. As esquerdas mais radicais praticamente desapareceram. 

Entre os que defendiam um adiamento e os que insistiam em arrumar rapidamente com esta reeleição, previsível, diga-se, Portugal foi votos e o povo falou. Falou e decidiu pela continuidade, pelos afetos em vez da aspereza, pela estabilidade em tempos de incerteza, pelo centro democrático em vez dos radicalismos extremistas. O povo falou e disse muitas coisas: disse que queria estabilidade e bom senso, disse que não queria radicalismos de nenhuma espécie, castigou a esquerda radical e elegeu um populista como saco do lixo dos descontentes. E digo saco do lixo, porque é impensável que o país tenha votado como votou em Ventura na esperança que ele alguma vez nos pudesse representar a todos. Não passou de um saco do lixo que capitalizou todos os votos descontentes, protestantes e órfãos. Embalados entre discursos extremistas que tocam as cordas dos mais básicos instintos do ser humano, uma turba de agitadores misturou-se a uma multidão que não se revê neste PSD de Rui Rio. O país recentrou-se, apesar do PSD.

E no final de tudo andamos às voltas. Nós e o Presidente eleito num compasso de espera quase infindável onde todos tentaram congratular-se de vitórias que não tiveram. Foi constrangedor seguir um Presidente eleito às voltas sozinho pela cidade universitária em torno da Faculdade de Direito à espera que os derrotados, todos eles, acabassem discursos ressabiados, mais em torno do seu umbigo, ou orgulho ferido, do que em linha com a elevação que o momento exigia. E no final o mais modesto dos discursos foi o do próprio Marcelo Rebelo de Sousa. Realista, reconhecido e com uma leitura provavelmente correcta dos resultados.

Voltamos agora ao nosso combate maior e mais importante. Andamos às voltas com um inimigo comum que é mortal, que nos ameaça a todos e deve ser a nossa prioridade. Mobilizemo-nos todos porque é Portugal que sofre. Lutemos.

A autora escreve segundo o novo acordo ortográfico