O que pensam os alunos sobre fechar escolas? “Sinto-me segura em casa, mas aprendo muito melhor na escola”

O encerramento das escolas tem sido apontado por especialistas como medida indispensável para reduzir o número de cadeias infecciosas e travar a covid-19 em Portugal. O tema é polémico e divide políticos, professores e peritos em saúde. Mas e os alunos? Sentem-se seguros? Querem voltar à “telescola” ou preferem continuar nas escolas? O PÚBLICO conversou com vários alunos, de norte a sul: a maioria disse que as aulas à distância prejudicam a aprendizagem.

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Da esquerda para a direita, de cima para baixo: Sofia Sousa, Francisco Júnior, Beatriz Afonso, Bernardo Mendonça, Joana Nuno e Leonor Francisco DR

Luís Pereira, 15 anos, 11.º ano, Escola Manuel Gomes Almeida em Espinho

O primeiro confinamento foi uma experiência má, porque não se aprendeu nada. Não senti falta de apoio, mas não gostei do método de ensino e se pudesse escolher passaria sempre a regime presencial. Agora, em Setembro, fui para uma escola nova e foi bom, porque pude conhecer novas pessoas.

No início, tinha um pouco de medo de ser infectado, mas esse medo já passou um pouco. Apesar de eu e os meus amigos nem sempre cumprirmos o distanciamento, estamos sempre com máscara.

João Ferreira, 12 anos, 6.º ano, Escola EB 2/3 Pedro Ferreira em Ferreira do Zêzere

O confinamento de Março foi difícil, mas agora já não. A minha escola encurtou os horários, colocou horas de almoço diferentes e, como estou quase sempre na mesma sala, escreveram no chão o nome da minha turma para ficarmos só naquela fila. Eu preferia um regime presencial para estar mais tempo com os meus amigos, porque usamos sempre máscara, menos quando estamos a comer, e assim é mais seguro. A minha prima, que é da minha sala, já ficou infectada e ninguém da minha turma ficou em isolamento, mas estamos todos bem.

Beatriz Gaspar, 15 anos, 10.º ano no curso de Humanidades, Escola José Gomes Ferreira em Lisboa

Durante o primeiro confinamento, quase não tinha aulas, porque começavam às 9h30 e duravam até às 11h30 e algumas aulas nem sequer eram realizadas por streaming. Os professores simplesmente mandavam os powerpoints com a matéria e as datas das entregas dos trabalhos. Não havia muita pressão, porque, lá está, eu estava completamente livre, tinha imenso tempo. No entanto, também não dei metade da matéria que era suposto ter dado.

Em regime presencial, na sala de aula, usamos todos máscaras, desinfectamos as mãos, mas não há distanciamento social. Somos mais de 30 alunos numa sala e quase tocamos uns nos outros.

Estou em confinamento porque uma amiga minha foi passar a passagem de ano com outras pessoas e ficou contaminada – e ainda por cima não disse nada e eu soube por outras pessoas, não teve respeito. Não tem nada que ver com a escola, mas só a pessoa que esteve em contacto é que vai para casa. Desta vez, viemos quatro ou cinco, mas sei de pessoas que estiveram em contacto com a infectada e que não foram para isolamento. Mas quanto a isso já não posso fazer nada.

Se houver outro confinamento geral e eu vier para casa, sei que não vou aprender nada, porque não temos horários e perdemos a rotina. Claro que era melhor para a nossa população, mas, se fosse possível, eu gostava de continuar a ir à escola. Quinze dias na escola e 15 dias em casa seria o ideal – e talvez resultasse de melhor forma.

Lúcia Jacinto, 12 anos, 7.º ano, Escola D. João II nas Caldas da Rainha

Voltar à escola foi normal, porque já estava habituada à máscara e às novas medidas. A única coisa que mudou foi que os professores estão à porta das salas para se certificarem que desinfectamos as mãos. Ao almoço, como estamos sem máscara, temos de manter o distanciamento social e nos corredores existem linhas para nos guiar. A minha directora de turma pediu para cada aluno comprar daquelas canetas para ir ao quadro e assim não partilhamos os materiais.

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Lúcia Jacinto DR

Se pudesse escolher, seria um pouco dos dois regimes, porque acho que existem disciplinas em que se aprende melhor em casa do que na escola. É muito difícil aprender Matemática à distância.

Beatriz Afonso, 18 anos, 12.º ano no curso de Ciências na Escola Secundária Amato Lusitano em Castelo Branco

O primeiro confinamento foi péssimo. Tínhamos muita pressão, porque os professores estavam todos em cima de nós e não aprendíamos muito – por exemplo, tínhamos meia hora de aula e 20 minutos era só para os alunos aparecerem.

O regime presencial é bom, porque aproveitamos mais as aulas, mas é mais perigoso para a nossa saúde. Não adianta de nada os nossos pais estarem em casa, se nós é que levamos o vírus para casa. Eu acho que as escolas não são o maior meio de propagação, mas a verdade é que quando voltámos, em Setembro, cumpríamos muito mais as regras e agora não.

Um regime misto, em que metade da turma estaria em casa e a outra metade na escola, seria, sem dúvida, melhor para a nossa segurança e para protegermos os que temos em casa. O problema é que agora já há muita gente que não tem assim tanto medo de apanhar covid, porque já é uma coisa normal.

Margarida Monteiro, 17 anos, 11.º ano no curso de Economia na Escola Secundária Amato Lusitano em Castelo Branco

Dependia de professor para professor, mas sentia pouca pressão, quando estávamos em modo online, porque era um pouco facilitado e alguns alunos até levantaram a nota. Em geral, não aprendemos nada ou quase nada.

Antes de voltarmos ao presencial, estávamos todos com vontade de voltar para estarmos uns com os outros, mas achávamos que ia ser algo mais controlado. Eu sei que as escolas estão a fazer o melhor que conseguem, mas há sempre falhas: estarmos 30 pessoas dentro de uma sala e tocarmos uns nos outros não é seguro.

O melhor seria estarmos um período de tempo em casa para normalizar os números, mas sei que não vamos aprender grande coisa. Já estamos assim há quase um ano e estamos cansados. Poderia ser algo gradual: agora, durante um mês, deveríamos voltar ao ensino à distância e depois, dependendo dos casos, ficaríamos num regime misto ou voltaríamos ao presencial. O problema não está nas escolas, mas nos intervalos e quando saímos da escola, porque há pessoas que fumam, que querem comer e acabam por tirar a máscara. E é aí que surgem casos.

Francisco Júnior, 12 anos, 7.º ano na Escola Bordalo Pinheiro nas Caldas da Rainha

Em Março foi mais fácil, porque os horários foram adaptados e parecia que os professores, nas aulas online, davam mais atenção e não havia tanta confusão ou barulho. Quando voltei à escola, senti um pouco de medo, uma insegurança sobre a outra pessoa e como eu posso estar infectado e se posso infectar os meus familiares. Mas agora já sabemos todos o que temos de fazer. Mesmo assim, prefiro em modo online: consigo ter muito mais informação e estar mais atento às aulas do que na sala de aula normal.

Laura Duarte, dez anos, 5.º ano na Escola João Roiz em Castelo Branco

Ter aulas em casa foi uma experiência engraçada, mas, ao mesmo tempo, não gostei muito, porque tanto a professora como os alunos estavam sempre a ficar sem Internet. No início das aulas não me senti muito segura, mas, como era uma escola nova, queria muito ir para poder ter amigos diferentes e brincar. Na nossa escola, por exemplo, só podemos ir à casa de banho durante as aulas para não haver muito contacto uns com os outros e temos setas no chão para nos guiar. Eu não gosto muito de aulas online, mas acho que as escolas deviam fechar 15 dias. Claro que gosto mais de brincar com os meus amigos, mas é necessário que elas fechem.

Débora Santos, dez anos, 4.º ano na Escola João de Deus em Leiria

O confinamento foi um pouco complicado, porque eu não conseguia tirar dúvidas. Os professores conseguiram explicar a matéria, mas foi um pouco mais difícil de aprender. Quando voltei, fiquei mesmo feliz por voltar a ver os meus amigos, mas não me senti muito segura, porque alguns deles não cumprem as normas, como usar máscara, só quando os obrigam.

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Débora Santos dr

Na minha escola, para além do álcool-gel e de me medirem a febre, ainda compraram um spray para desinfectarmos os nossos sapatos e quando comemos não podemos falar, mas alguns não cumprem as regras. Eu preferia as aulas presenciais, porque estamos há muito tempo sozinhos e gostávamos de voltar e brincar com todos, como era dantes.

Bernardo Mendonça, 13 anos, 8.º ano na Escola José Loureiro Botas em Vieira de Leiria

No segundo período, foi muito estranho e difícil de me habituar às aulas online, mas no terceiro período foi mais fácil e as notas até subiram. Acho que os professores também sofreram muita pressão, porque muitos deles nem sequer sabiam trabalhar com o Zoom ou o Teams, mas no fim já estávamos mais habituados. Desde que voltei às aulas presenciais estou sempre a desinfectar as mãos e na hora de almoço até costumo trocar de máscara. Já não me lembrava muito bem de como era ter aulas presenciais, mas foi bom voltar a ver os meus amigos. Sinto-me mais seguro em casa. Eu preferia voltar ao online – e agora seria muito mais fácil, porque já estamos todos habituados e já sabemos como funciona.

Bárbara Robalo, 18 anos, 12.º ano na Escola José Silvestre em Idanha-a-Nova

No início do confinamento, comecei a tentar manter as minhas rotinas, mas rapidamente as perdi e não havia muita motivação. E mesmo cá em casa estava tudo meio estranho. Houve disciplinas que não deu mesmo para acompanhar e a culpa não foi dos professores, porque eles estavam a esforçar-se, mas porque há uma grande diferença na eficácia das aulas online e das presenciais. Tivemos de dar matéria que saía no exame em regime online e foi péssimo. Ainda bem que existiam aquelas perguntas facultativas no exame, porque eu não as conseguia fazer. Foi uma matéria que foi dada muito à pressa.

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Bárbara Robalo DR

É um pouco difícil evitar aglomerados de pessoas, até porque nos intervalos juntamo-nos todos e o espaço não é muito. A nossa escola ainda fez uma coisa boa, que foi colocar umas tendas na rua para que pudéssemos estar lá dentro, mas com este frio não é muito confortável. Acho que era melhor voltarmos ao online, porque, por exemplo, a minha mãe está a trabalhar em casa na mesma e eu continuar na escola não faz sentido. Na verdade, acho que a partir de uma certa idade os alunos já conseguem acompanhar a matéria de forma autónoma em casa. Voltar ao online valeria a pena pela nossa segurança e os professores já estão habituados a esta situação.

André Fernandes, 15 anos, 9.º ano na Escola de Santa Catarina nas Caldas da Rainha

Por um lado, o regime à distância é mais fácil, porque estou mais à vontade; por outro, é mais difícil de acompanhar a matéria e entender, mas os professores apoiaram-me bem. O regresso à escola para mim foi normal, mas há sempre quem não cumpra as regras. Na minha opinião, ensino misto seria o melhor, porque se fosse, por exemplo, dois dias em casa e três dias na escola era bem mais prático e dava perfeitamente para esclarecer as dúvidas que tínhamos durante as aulas online.

Leonor Francisco, 12 anos, 7.º ano no Agrupamento de Escolas de Anadia

Muitos dos meus colegas nem sequer apareciam nas aulas online, ou estavam na cama ou a fazer outras coisas. Em Setembro, ir para a escola foi melhor do que estar em casa, porque voltei a estar com os meus amigos, mas não me sinto sempre segura, porque alguns dos meus colegas não respeitam as regras. Preferia algo misto, porque sinto-me segura em casa, mas aprendo muito melhor na escola.

Sofia Sousa, dez anos, 5.º ano no Complexo Escolar dos Arcos em Óbidos

Eu senti muitas saudades de brincar com os meus amigos e de poder estar com eles na escola, enquanto estive em casa. Eu comecei as aulas com alguma dificuldade, mas depois consegui perceber a matéria. No primeiro dia depois do confinamento, foi estranho, porque já não podíamos brincar nem estar todos juntos, o que foi difícil. E também foi complicado, porque não estávamos habituados a respirar o mesmo ar e não dá para ver muito a cara do outro.

Se eu voltasse para casa, ia ser difícil, porque agora a matéria é mais complicada e ia ser explicada de outra forma. Eu preferia continuar em presencial, mas às vezes tenho medo, porque o país está todo a passar por isto [um confinamento] e nós na escola estamos todos juntos. Depois de as aulas terem começado, um colega meu já esteve infectado e viemos todos para casa, mas eu estou bem.

Ângela Carriço e Bárbara Carriço, 16 anos, 11.º ano no curso de Ciências na Escola José Sanchos em Alcains

Nós sentimos mais dificuldade em regime online, porque os professores ensinavam de uma forma muito mais rápida e até a forma como fomos avaliadas mudou – já não tínhamos testes, só trabalhos. Nesta altura, era difícil entender a matéria e os métodos de ensino não eram os mais correctos, mas a culpa não é dos professores, porque nenhum deles estava preparado para isto.

Voltarmos ao regime presencial foi bem melhor, os professores já estavam mais acessíveis e já conseguíamos perceber a matéria dada. No início do ano, tivemos de repetir tudo o que tínhamos aprendido na quarentena – e foi mais perceptível e cativante, até as notas são muito mais justas em modo presencial. No entanto, foi estranho, porque estávamos habituados a cumprimentar os nossos colegas e a tocarmo-nos, mas agora cumprimos todos as regras.

Uma sugestão: para manter o distanciamento, era ficarmos sempre dentro da mesma sala, mesmo durante o tempo de intervalo, e assim, caso alguém ficasse contaminado, apenas a turma fazia testes. Agora, com este tempo, ficamos todos debaixo do mesmo telheiro, todos juntos. Já tivemos contaminadas, por causa do judo, e já estivemos duas vezes de quarentena: a primeira geral e a outra quando estivemos infectadas. Agora uma terceira... Seria frustrante estarmos sempre isoladas do mundo.

Pedro Duarte, 16 anos, 11.º ano no curso Ciências e Tecnologias na Escola Secundária Nuno Álvares em Castelo Branco

No início, o confinamento foi difícil até para os professores, que estavam meio perdidos, e como consequência sobrecarregavam-nos com trabalhos, mas lá mais para o final correu tudo bem, fomos ajudando-nos mutuamente. Já em regime presencial nunca me senti exposto e sentia-me bem, a aprendizagem presencial era mais fácil. Como forma de evitar aglomerados, no início os professores ainda tentavam que saísse uma fila de cada vez, mas isso foi-se perdendo. Se eu pudesse escolher, apostava no ensino misto, uma semana sim, outra semana não: no presencial fazíamos os testes e no online davam as aulas. Contudo, sinto-me seguro na escola.

Margarida Rodrigues, 17 anos, 12.º ano no curso de Design de Comunicação na Escola Artística António Arroio em Lisboa

Como o meu curso é ligado às artes e tem muita parte prática, em casa não tinha muitos recursos para poder realizar os exercícios que eram pedidos. Senti que havia professores que nem sequer se empenharam e outros que se empenharam de mais. Sempre me senti muito segura em regime presencial. O ambiente é seguro e o modo de aprender é melhor, porque em casa tenho muitas distracções. Neste momento, estou num regime misto, presencial e online, e estou a gostar, porque consigo gerir melhor o tempo, e até a aprendizagem é mais fácil, porque, quando acabo a aula presencial, venho logo para casa estudar. Só o online para mim não dá.

Joana Nuno, 16 anos, 11.º ano no curso de Ciências na Escola José Silvestre Ribeiro em Idanha-a-Nova

Durante a quarentena, os professores não pressionaram nada e foram muito compreensivos, até porque também eles preferiam o regime presencial. Com as máscaras e com as novas regras é tudo muito estranho, mas a escola tomou as medidas certas. Sentir-me segura é algo relativo, porque num dia acho que estou bem e no outro já aumentam o número de casos aqui na terra e eu fico apavorada. Neste momento, optaria por ensino à distância, mesmo que isso condicione a minha aprendizagem, porque prefiro agora ir para casa e recuperar mais tarde do que continuar com imensos casos por dia. Actualmente tento aproveitar ao máximo as aulas presenciais, porque sei que, mais dia, menos dia, vamos voltar para casa. O Governo está a tentar fazer o melhor que consegue, mas está a adiar o inevitável: irmos todos para casa.

Gustavo Nunes, dez anos, 5.º ano na Escola Pêro da Covilhã

Foi muito difícil ter aulas online, porque é muito diferente ver as pessoas ao vivo ou uma pessoa num computador e aprende-se muito melhor presencialmente. Às vezes, a Internet parava e os alunos e os professores ficavam sem som ou imagem. Sou uma pessoa que se adapta bem, mas aprender na escola é muito melhor e faço mais amigos. Ir à escola agora tem uma vantagem e uma desvantagem: a parte boa é que podemos ver os nossos amigos, a parte má é que a coisa está feia agora e é arriscado sair.

Texto editado por Pedro Rios