Reservas de sangue com níveis preocupantes: “Temos de restabelecer os níveis”

Pandemia e confinamento poderão estar a contribuir para descida.

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“Dar sangue é seguro, as pessoas não precisam de ter medo, e está previsto nas excepções do confinamento” Reuters/TOBY MELVILLE

O presidente da Federação Portuguesa de Dadores Benévolos de Sangue (Fepodabes), Alberto Mota, está preocupado com os níveis das reservas de sangue em Portugal: “Só estamos tranquilos quando todos [os tipos] estiverem com resposta para mais de dez dias”, disse ao PÚBLICO.

Referia-se aos dados, que são dinâmicos e vão sofrendo alterações, do Instituto Português do Sangue e da Transplantação (IPST) que constavam do site dador.pt, do IPST, na terça-feira: os tipos O+, O-, A-, B+ têm reservas de quatro a sete dias; A+, por exemplo, até quatro dias; AB- de sete a dez dias; já AB+ mais de dez dias. “Esses são os dados referentes à disponibilidade do IPST, que recolhe 60% das colheitas de sangue”, afirmou.

Ao PÚBLICO, o IPST detalhou que, ao final da tarde de terça-feira, as reservas deste instituto se situavam entre os quatro e os 19 dias, “mas os dias de reserva estratégica nacional, considerando as reservas existentes nos hospitais, são de 12 a 35 dias consoante os grupos sanguíneos”. Acrescentou que “os grupos sanguíneos mais afectados são o A positivo, o A negativo, o O negativo e o B negativo”. Por exemplo, “o grupo sanguíneo A positivo, o mais prevalente na nossa população, apresenta reservas para 4 dias”; já o “O negativo, dador universal”, o A negativo e o B negativo apresentam, por exemplo, reservas para 5 dias. Na resposta acrescentava-se, porém, que considerando “as reservas existentes nos hospitais, A positivo tem reservas para 12 dias, A negativo e O positivo para 20 dias e 0 negativo para 25 dias”.

Alberto Mota admite que a pandemia e o confinamento estarão a contribuir para a situação de decréscimo, embora ressalve que, “tradicionalmente, nesta altura”, há “sempre uma descida de dádivas de sangue”: “Tem os picos do Inverno e do Verão, em que desce sempre um pouco. Em Janeiro, Fevereiro e Agosto temos normalmente descidas. Este ano, temos ainda o problema da pandemia. O confinamento faz com que muitas empresas estejam em teletrabalho, não se fazendo tantas colheitas.

E enumera dificuldades: “As unidades móveis não estão a circular pelas grandes praças, porque nessas unidades não é possível assegurar o distanciamento entre as pessoas, por isso é que se tem de procurar espaços alternativos, e aí enfrentam dificuldades por causa do receio das instituições relativamente à cedência de espaços.”

Alberto Mota admite que as pessoas também estarão “com receio”. Por isso, apela: “Dar sangue é seguro, as pessoas não precisam de ter medo, e está previsto nas excepções do confinamento.

“Todos os dias precisamos de mil unidades de sangue para fazer face ao consumo no país, as colheitas não estão a produzir esse número. Temos de restabelecer os níveis para poder responder em pelo menos dez dias. Mesmo que as cirurgias possam ter sofrido algum abrandamento, o país deve estar preparado para responder também às necessidades de outros problemas de saúde que não a covid-19 e ter estes stocks de sangue garantidos”, diz.

Plano de contingência

De acordo com o conselho directivo do IPST, “a actividade de colheita de sangue nos três Centros de Sangue e da Transplantação do IPST decorre em conformidade com o planeamento previsto face à situação covid-19, dando-se cumprimento aos requisitos de segurança da autoridade competente”: “Todos os dias continuamos a realizar sessões de colheita de sangue nos Centros de Sangue e da Transplantação de Lisboa, Coimbra e Porto e em todos os serviços de sangue dos hospitais para assegurar a todos os portugueses a disponibilidade terapêutica com sangue e componentes sanguíneos. Esta situação de decréscimo da dádiva de sangue ocorre habitualmente durante os meses de Janeiro e início de Fevereiro, este ano agravada com a situação pandémica", lê-se na resposta enviada ao PÚBLICO, na qual se reconhece que “o recurso ao trabalho a partir de casa, o ensino à distância, principalmente nas universidades, e a impossibilidade de utilizar as unidades móveis de colheita, que não permitem o necessário distanciamento social, condicionam o recurso a colheitas móveis em locais tradicionalmente com elevado número de dadores”.

Segundo o IPST, “está implementado um Plano de Contingência para garantir a qualidade, segurança e sustentabilidade do fornecimento de sangue e componentes sanguíneos, que contempla um conjunto de medidas para garantir a segurança dos dadores de sangue”, estando a deslocação para dádiva de sangue “autorizada mesmo em tempo de confinamento”, e podendo os dadores fazê-lo, por exemplo, “nos 30 hospitais portugueses com serviços de sangue” e nos “três centros de sangue e da transplantação do IPST em Lisboa, Coimbra e Porto”.

Por isso, também este instituto “apela à colaboração de todos aqueles que preenchem os requisitos que realizem a sua dádiva, tendo contudo em atenção que, caso haja sintomas suspeitos como febre, tosse, falta de ar; ou tenha existido contacto com alguém infectado, este gesto tão importante deve ser adiado para uma altura em que não represente um risco de transmissão do vírus”. E são remetidas “mais informações sobre a dádiva de sangue e locais/sessões de colheita para www.ipst.pt”.

No mesmo dia, e às redacções, o mesmo instituto enviou uma nota intitulada “instabilidade nas reservas de sangue”, na qual se lia que “apesar da suspensão da actividade programada não urgente em alguns hospitais, a necessidade diária de componentes sanguíneos mantém-se” e na qual se recordava que “para ser dador de sangue, basta ter entre 18 e 65 anos (o limite de idade para a primeira dádiva é os 60 anos), ter peso igual ou superior a 50 kg e ter hábitos de vida saudável”. O comunicado terminava com um apelo: “Neste momento particularmente difícil da pandemia, apelamos à solidariedade de todos e em nome dos doentes agradecemos por nos ajudarem a salvar vidas”.

Stock como “nunca tinha visto"

Álvaro Beleza, director do serviço de sangue do Hospital Santa Maria, também reconheceu, na SIC Notícias, que viu o stock como “nunca tinha visto”. “É natural que, quando há confinamento e nesta situação toda, os dadores também se acanhem um pouco. Estamos numa situação difícil e, nomeadamente, no grupo A+. Não temos menos 10%. Temos bastante menos do que costumamos ter”, diz. 

Por isso, apela aos dadores: “É uma das poucas excepções para que as pessoas devem poder sair de casa, doarem sangue nos hospitais, no Instituto Português do Sangue, porque isso realmente faz muita falta, dado que temos de continuar a tratar os doentes de oncologia, de cancro, de outras patologias, e continuamos a operar. Eles precisam de sangue, além dos doentes covid-19 que também precisam”, frisa. Garante que dar sangue “é seguro”, que há “todos os cuidados” e acrescenta não ter havido qualquer caso “de contaminação” de “ninguém que tem estado nas colheitas”. “É seguro, é urgente e é necessário”, insiste.

Relata que, na segunda-feira de manhã, viu “o stock como nunca tinha visto”: “E eu já estou nesta especialidade há mais de 30 anos, confesso que já não me surpreendo com muita coisa, mas fiquei preocupado. Nós hoje temos um décimo daquilo que precisávamos de ter para estar tranquilos. E, nomeadamente, o grupo A”, diz. “Também está demonstrado em alguns estudos clínicos que, nos doentes covid-19, nomeadamente, atingem mais os doentes do grupo A e, portanto, estamos com carências maiores no grupo A”, especifica.

Ainda assim, assegura que, até agora, não tem faltado sangue: “O sangue é essencial à vida e, apesar de termos cada vez mais alternativas, e termos diminuído nos últimos anos 30% as transfusões de sangue, porque cada vez mais há alternativas ao sangue, e é isso que fazemos, é essencial e, portanto, precisamos do sangue para continuar a poder fazer cirurgias, como estamos a fazer, para ter hospital de dia, transfusões em doentes que necessitam, e até agora não tem faltado, mas o sangue é algo que falta sempre”, nota, acreditando, porém, que “os dadores nunca falham” na solidariedade. 

O problema não é novo. Em Outubro, o IPST já alertava para o facto de Portugal estar “com níveis baixos de reservas de sangue”, apelando aos dadores ou a quem tem condições para o ser, para irem dar sangue. Se, também em Março, o mesmo instituto indicava estar a sofrer “uma forte redução no número de dadores”, por causa dos efeitos da pandemia, tendo decidido avançar para o nível amarelo de alerta; em Abril explicava igualmente que a redução nas colheitas em Março foi acompanhada por uma redução nos consumos, com menos cirurgias nos hospitais.

Notícia actualizada com informações do IPST.