IPO têm capacidade para fazer cirurgias prioritárias adiadas noutros hospitais. Mas listas de espera aumentarão

Norma da Direcção-Geral da Saúde de Abril de 2020 define como cirurgias prioritárias, a operar no prazo máximo de 45 dias, as dos cancros do pulmão, esófago, estômago e pâncreas.

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Rui Gaudencio
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ADRIANO MIRANDA

Os IPO (institutos de oncologia de Lisboa, Porto e Coimbra) têm capacidade para receber os doentes com cirurgias prioritárias que serão adiadas nos outros hospitais públicos devido à evolução da situação epidemiológica da covid-19, com os internamentos a bater recordes sucessivos, mas para isso deverão ter que adiar as suas cirurgias pouco prioritárias, prevê o director do Programa Nacional para as Doenças Oncológicas, José Dinis, que sublinha que os pacientes prioritários têm que ser operados com rapidez e que já há uma norma da Direcção-Geral da Saúde (DGS) que define o escalonamento dos doentes a operar.

A ministra da Saúde determinou por despacho na quarta-feira que todas as cirurgias prioritárias e de prioridade normal, que incluem as intervenções cirúrgicas de doentes com cancros, sejam diferidas até ao final deste mês. Mais tarde o gabinete de Marta Temido esclareceu que as cirurgias urgentes (que no caso do cancro devem ser feitas num prazo máximo de três dias) e as muito prioritárias (até 15 dias) não estão incluídas. Frisou que o despacho não se aplica a hospitais como os IPO que “estão disponíveis para receber os doentes que requeiram cirurgia prioritária” até 31 de Janeiro e que o adiamento das cirurgias prioritárias será sempre feito “mediante avaliação clínica e garantia de que o prognóstico” do doente não é afectado.

José Dinis, que trabalha no IPO do Porto, lembra que a forma como os doentes devem ser priorizados já está definida numa norma que a Direcção-Geral da Saúde publicou logo no início da pandemia, em 2 de Abril. Na norma surgem como prioritárias (a operar no prazo máximo de 45 dias) as cirurgias a cancros de pulmão, esófago, estômago, pâncreas exócrino “para terapêutica curativa de neoplasias primárias”, além de cancros malignos do sistema nervoso central. São cirurgias com impacto na sobrevida e que por isso são prioritárias. “Num ambiente de escassez é preciso saber como se fazem escolhas”, sublinha José Dinis.

“As administrações regionais de saúde e os hospitais vão ter agora que operacionalizar estas orientações no terreno. Na prática, cada hospital vai ter que ver quais os doentes que tem em agenda para operar nos próximos dias e quais são os mais urgentes [dentro dos prioritários]”, explica. Estes doentes devem ser operados com rapidez, seja nos IPO, seja noutros hospitais com disponibilidade para isso. Nalguns casos, “se adiarmos muito as cirurgias, vamos perder o efeito de meses de quimioterapia”, avisa. 

Sem doentes com covid-19 e uma vez que estão a receber menos pacientes devido à diminuição dos rastreios e diagnósticos, os IPO terão capacidade para absorver os doentes com cirurgias prioritárias marcadas para estes dias, que, calcula José Dinis por alto, deverão ser algumas dezenas. “Tem que haver elasticidade. Se os hospitais tiverem brio, se as ARS não ficarem à espera, o SNS tem capacidade de resposta, mas é preciso que se mexam. Precisamos de uma gestão centralizada para a não covid”, defende o médico.

Preocupados com a recuperação

A presidente da Sociedade Portuguesa de Oncologia (SPO) e as associações de doentes estão preocupadas com o adiamento das cirurgias prioritárias porque vão engrossar ainda mais as listas de espera, mas compreendem a medida numa altura em que o SNS está com grandes dificuldades para dar resposta ao aumento de novos casos de infecção pelo coronavírus e em que os internamentos em enfermarias e cuidados intensivos não param de aumentar.

“Num estado de emergência têm que se definir prioridades. O problema é que isto vai engrossar as listas de espera. E os prazos máximos já não são cumpridos em várias instituições”, observa a presidente da SPO, Ana Raimundo.

O despacho emitido pela ministra da Saúde não foi “nenhuma novidade” para o presidente da Europacolon, associação de apoio ao doente com cancro digestivo. “Sabemos, pelo que ouvimos dos especialistas, que nos próximos 15 dias a curva de casos de covid ainda será ascendente, com necessidades na urgência e cuidados intensivos a crescer”, diz Vítor Neves, classificando o despacho como “um acto realista face ao que está a acontecer”.

E é o que está a acontecer que faz elevar o grau da apreensão que já sentia. “Os centros de saúde estão fechados, não há forma de referenciar as pessoas, não são detectados cancros onde deviam ser”, aponta, lembrando que todos os anos há uma média de 17 mil novos cancros digestivos diagnosticados no país e 10 mil mortes. E, sem diagnósticos atempados, os impactos serão “uma diminuição da sobrevivência, mais sofrimento, mais custos nos tratamentos”.

Por isso, Vítor Neves recupera o alerta que a associação vem fazendo desde Julho: “É preciso que seja criado um grupo com especialistas dedicados a 100% a pensar como vai ser feita reestruturação e organização dos serviços para a recuperação do atendimento regular dos doentes que já têm diagnóstico e como diagnosticar os outros a curto prazo.”

“Quando ouvi sobre o despacho [da ministra suspendendo a actividade não urgente, incluindo cirurgias prioritárias e normais] fiquei um pouco aflito. Depois vi o esclarecimento que coloca relativamente de fora os IPO não fiquei tão assustado”, diz Vítor Rodrigues, presidente da Liga Portuguesa Contra o Cancro.

“Estou convencido que os IPO e os grandes centros de tratamento vão mantendo a avaliação de risco clínico/benefício e têm conseguido ‘navegar’ nesta situação. As cirurgias nível 3 e 4, que são as urgentes e as emergentes, vão continuar a ser feitas. O grande problema é chegar ao diagnóstico e ao início do tratamento”, aponta, salientando que “esta situação terá a longo prazo impacto na sobrevivência.”

“Os IPO tiveram uma quebra na referenciação de 20% a 30%. Têm capacidade de tratamento e se este tempo [de suspensão da actividade nos restantes hospitais] for utilizado para reorganização de circuitos e referenciação dos hospitais, o impacto destes para já 15 dias será relativamente pequeno”, refere Vítor Rodrigues, que assume que está confiante “que vai haver essa capacidade de reorganização dos hospitais que tratam doentes oncológicos”.