Coimbra, um passeio desenhado com as cores do Outono

Tomás Reis é arquitecto e os seus cadernos de viagens enchem-se de desenhos e aguarelas. Aqui, leva-nos por uma Coimbra que ainda estava em tons outonais.

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Coimbra Tomás Reis
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Jardim da Manga Tomás Reis
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Almedina Tomás Reis
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Jardim Botanico Tomás Reis
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Jardim Botanico Tomás Reis
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Jardim da Sereia Tomás Reis
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Portagem Tomás Reis
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Quinta das Lágrimas Tomás Reis

Já tinha estado em Coimbra, mas sem lhe dedicar o tempo merecido. É que, se há cidade que fica na memória, por mais voltas que se dê no mundo, esta é uma delas. Rara é a cidade que tem a histórica universidade no seu lugar mais alto, como se pusesse a transmissão do conhecimento entre gerações acima de todas as coisas. Coimbra também é singular no rio que a atravessa: o Mondego entra na cidade, libertando-se das escarpas do interior. E sai da cidade com carácter renovado, mais sereno, alongando-se entre lezírias e pauis até ao mar. 

É nesta transição do Mondego que encontramos o Outono, com todas as suas transições. A efémera mudança de cor nas árvores é um espectáculo difícil de perder, e que encontra o auge nas encostas de Coimbra. Porque foi o clima generoso, com o trabalho de vários séculos, que nos deu uma diversidade de jardins difícil de encontrar em qualquer outro lugar.

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Choupal Tomás Reis

Das lezírias chega-se a Coimbra. E mesmo ali, junto à saída da via rápida, entra-se na mata do Choupal - talvez um dos espaços preferidos dos conimbricenses. Pelo menos no número de pessoas que corre e anda de bicicleta, sempre na sombra das árvores centenárias. No meio, há um pavilhão de feições nórdicas, onde se levam comes e bebes para mesas de correr, lembrando um biergarten. Todo aquele ambiente humano mostra como Coimbra tem uma cultura de ar livre bastante própria, invejável noutras cidades.

Foi na Baixa de Coimbra que se começaram a desenhar os jardins de Coimbra. Mais especificamente no Mosteiro de Santa Cruz, cuja biblioteca, quase totalmente perdida, concentrou conhecimento único de botânica. Dos jardins deste mosteiro sobreviveu até nós a Fonte da Vida, na sua simetria maneirista, a embelezar o Jardim da Manga. 

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Tomás Reis

Mais adiante, subindo pelo arco de Almedina, entra-se na cidade medieval, coroada pelo antigo castelo, hoje universidade. A Porta Férrea, com as suas proporções elegantes, dá entrada ao Pátio das Escolas. Mas a maioria dos colégios universitários ao redor foram demolidos durante o Estado Novo; deram lugar a edifícios menos característicos, ainda assim ladeados por tílias frondosas. E assim se chega ao jardim botânico, de acesso livre aos conimbricenses e àqueles que visitam a cidade.

Os jardins botânicos espalharam-se pela Europa à medida que as viagens marítimas revelavam outras espécies vegetais. Coimbra também acolheu as novas espécies depois de 1772, numa encosta doada pelos monges agostinhos. E ali ficaram as árvores frondosas, ainda enquadradas pelos arcos do aqueduto de São Sebastião. O jardim desenvolve-se em vários níveis, com fontes ornamentais e balaustradas enquadradas por liquidâmbares e muitas outras árvores. Também vale a pena contemplar a estufa, recuperada com o traço do arquitecto João Mendes Ribeiro.

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Tomás Reis

Mas não nos detenhamos no centro da cidade. É que muito fica por descobrir nos claustros de tantos mosteiros, nos miradouros e nas quintas. Uma paragem na Quinta das Lágrimas é imperdível, porque à limpidez das águas (antes turvas pela morte de Inês de Castro), juntam-se as árvores centenárias, em toda aquela encosta, num ambiente que faz esquecer o bulício da cidade.

Nas margens do Mondego, tudo parece sereno: a água espelha a torre da universidade e o verde das encostas. Foi uma serenidade conquistada, entre o açude e os jardins. No fim, não sei se Coimbra tem mais encanto na hora da partida ou da chegada. Apenas sinto que Coimbra surpreende tanto que parece uma cidade diferente, na partida e na chegada.

Tomás Reis 
@tomasreis_sketches