No país dos pés enregelados

A cultura de desvalorizar o frio, os ordenados baixos, a electricidade cara e as habitações mal preparadas fazem com que se enregele em Portugal.

Estava imenso frio, chuviscava e eu, apressado, abria a porta do prédio, quando, vinda dos ares, uma bátega, uma só, se abateu sobre o meu cachaço, provocando o tipo de arrepio que vai da cabeça aos pés. Mas, convenhamos, na última semana não foi preciso nenhuma experiência radical para que se sentisse um calafrio persistente, vindo de frinchas e buracos de fechaduras, levando ao bater de pé no chão, ao esfregar de mãos, ou ao xaile pelas costas no restaurante, enquanto se dá graças a Deus pelas máscaras — pelo menos, evita-se a ponta do nariz avermelhada.

Diz-se que é a época dele. Do frio. Está certo. E, no entanto, mal regressam alguns raios de sol é raro encontrar um português que seja capaz de dizer que em Portugal faz frio. Quase ninguém aceita que se questione o magnífico clima do país. Era só o que faltava, dizem. Não bastava o resto. Trata-se a coisa como passageira. Um incidente. Intervalo entre calores. É como a chuva. São aguaceiros, já passa, dizemos. E se está humidade? Veste-se mais um casaco, não há problema. Mas quando damos por ela estamos enregelados. Nada nos consegue aquecer. E é assim todos os anos, com a tendência a agravar-se pelas alterações climáticas, com o nível médio das temperaturas a baixar no Inverno e a subir no Verão. Mas não faz mal. A malta aguenta-se, ou até enrijece, segundo valores culturais ainda mais arcaicos, na certeza de que tudo é transitório. E é. Até a vida.

Quando era miúdo as queixas de frio eram vistas como birras. Somos educados para o suportar. É tudo uma questão psicológica, assegurava alguém, na paragem do autocarro, enquanto até os dentes pareciam bater palmas com um gelo de rachar. Depois começa-se a viajar com assiduidade e percebe-se que há países de Inverno realmente rigoroso e frio suportável. Não só na rua, porque há mais preparação, mas especialmente nos espaços interiores, sejam habitações ou lugares de sociabilidades. Algo que também nos é devolvido por quem veio do norte da Europa e hoje habita em Portugal, ou por portugueses que emigraram para França, Luxemburgo, Alemanha ou Suécia. Quando vemos imagens de nevões nesses países imaginamos, coitados, o seu sofrimento, mas são essas mesmas pessoas que, em Portugal, e com razão, acham as casas e restaurantes mal preparados. E não é apenas o aquecimento, embora ele seja importante. É também a qualidade da construção. Ou a concepção dos espaços. A iluminação, por exemplo. É incrível o que uma boa luz, coisa rara em lugares públicos, faz pela criação de um ambiente mais reconfortante.

Aqui apostamos nos chouriços-tapa-portas, nas fitas isoladoras para as janelas, na botija de água quente na cama ou no aquecedor no meio da sala, ligado a espaços. E não vamos lá. E não vamos porque a generalidade dos portugueses tem ordenados baixos e Portugal tem as tarifas de electricidade mais caras da Europa. A alternativa, se é que se lhe pode chamar isso, são quilos de roupa envergada, que não evitam doenças, nem o mal-estar. A não ser que se tenha muito dinheiro e uma habitação em condições, parece que se sofre mais em casa do que na rua quando estão baixas temperaturas. É mais sofrível ir da sala à casa de banho, do que ir passear até à avenida.

Pode não estar muito frio na rua, mas enregela-se em casa. De acordo com dados do Eurostat, a média de casas mal aquecidas na União Europeia anda em torno dos 8%. Em Portugal situa-se nos 22%. Com a pandemia o fenómeno ganha novos contornos. A ventilação é necessária, mas não se consegue estar de janelas abertas, nem em esplanadas sem aquecedores. Dizem-nos para ficarmos em teletrabalho ou confinados, mas o dinheiro no final do mês para as contas não estica. E lá andamos, encolhidos, em precariedade energética, com baixos rendimentos, despesas incomportáveis e mau desempenho das habitações. Até quando vamos andar a bater o queixo?