Quando o Natal trouxe a covid: duas famílias contam como se contagiaram

Para a bebé da família ter um Natal, a família de Carolina juntou seis adultos e quatro estão agora infectados. Na casa da namorada de João, o primeiro a saber que estava infectado foi o avô de 90 anos. Os sintomas foram semelhantes aos de uma gripe.

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Nelson Garrido

Carolina tem 28 anos, o avô tem 82 e ambos estão bem apesar de terem testado positivo para a covid-19 antes do fim do ano.

A trabalhar de casa, com os contactos pessoais muito reduzidos, quase sem ir à rua (ainda mais nos dias anteriores ao Natal) e as compras feitas através da internet, Carolina não previu que isto fosse acontecer. Foi justamente para que o prevenir e evitar que a consoada juntou metade das habituais 12 pessoas

Apenas estavam os avós de Carolina, a mãe, a irmã, o cunhado e a sobrinha. À volta de uma mesa, e mantendo a distância, eram seis adultos e uma criança de dois anos. “Não contando a bebé, estava uma pessoa a mais do que o número recomendado. Estivemos com máscara que tirámos só para comer e mantivemos a distância. Não nos podemos culpabilizar por isso”, diz.

Os primeiros sintomas apareceram quatro dias depois (dia 28), primeiro na irmã – sem certezas quanto à origem do contágio – e no cunhado. 

Tinham pensado ficar cada um na sua casa: os avós passarem o Natal sozinhos; a irmã, o cunhado e a filha de quase três anos ficarem entre eles; e Carolina e a mãe também só as duas. A irmã é profissional de saúde e o casal chegou a propor um Natal radicalmente diferente e não apenas adaptado às circunstâncias. “Se fosse agora, era o que faríamos”, diz Carolina. 

Mas não queriam privar a menina de um Natal, mesmo que contido e sem juntar as famílias dos dois lados. Assim, no jantar, a criança poderia conviver com a avó materna e os bisavós e, no dia 25, com o avô, com os cuidados exigidos e o risco calculado.

Foi o que fizeram, ao contrário de pessoas cujas fotografias viu nas redes sociais a celebraram o Natal com toda a família e sem alterar em nada o modo como festejaram o Ano Novo. “Vejo essas fotos e são realmente muitas pessoas. Devia ter havido mais cuidado. Acho que juntar tanta gente este ano era impensável.” 

Sinais cinco dias depois

Já no dia 29 de Dezembro, foi Carolina quem começou com espirros e tosse – uma tosse que até podia ter outra causa — o que a levou a ser observada por indicação da Linha SNS24 e só depois fazer o teste. Sem nunca ter tido febre, continuou a trabalhar de casa. De diferente em si só reconheceu uma fadiga, além da tosse que entretanto já passou. “É muito fácil confundir sintomas” e o contágio pode ser muito inesperado ou aleatório, “como o Bingo”. 

O mesmo poderia dizer João, que optou pelo sossego de uma passagem de ano sem os amigos para não vir a ter surpresas. O jovem de 22 anos esteve com a namorada e os pais desta na noite de 31 de Dezembro. O plano seria voltar a sua casa no dia 4 de Janeiro, depois de ultrapassada a interdição de se deslocar entre concelhos.

Mas a família da namorada tinha estado com o avô no dia em que fez anos entre o Natal e o Ano Novo quando, horas antes, o senhor já tinha estado com um filho que tinha covid sem saber.

O decano da família não festejou o 90.º aniversário. Apenas recebeu visitas em separado, e sempre com máscara. A primeira foi a do filho com os sinais de uma constipação que afinal eram da covid-19.  

Positivos e negativos juntos

Cinco dias após essa visita, o idoso sentiu-se febril e fez o teste. Deu positivo, embora o seu estado nunca tenha sido grave. O vírus rapidamente se espalhou, mas não por todos e longe de seguir uma lógica: a namorada de João e o pai ficaram infectados; a mãe e o irmão não têm sintomas e tiveram um teste negativo.

João aguardava esta quinta-feira o resultado do teste e acredita que não escapa à covid-19, diz a mãe. Apresenta os mesmos sintomas que a namorada e esta teve um teste positivo.

Assim, o espaço da casa, onde João acabou por ficar (primeiro com a intenção de fazer o isolamento profiláctico e agora para convalescer) está dividido sem que haja contactos. Várias vezes por dia, quem testou negativo passa o desinfectante pela casa e deixa as refeições à porta do quarto dos que testaram positivo.