2020, o ano em que o mundo fez reset

Resgatar a nossa liberdade, a liberdade de poder abraçar os nossos, a liberdade de sorrir e falar sem o açaime, a liberdade de cumprimentarmos fraterna e calorosamente, a liberdade de visitarmos os nossos pais e avós. Só isto já nos basta para termos um 2021 excelente!

Seria impossível escrever o artigo de opinião de hoje sem consultar o artigo de há um ano atrás. Estou em crer que um dia teremos duplo significado ao a.C. e d.C. que utilizámos durante tantos séculos para designar se um determinado ano se enquadra antes ou depois do nascimento de Jesus. É que o ano 2020 ficará, com toda a certeza, marcado como o annus horribilis em que a covid-19 nos tornou a todos reféns, mudando definitivamente a forma como vivemos ou, melhor dizendo, vivíamos até aqui. Haverá seguramente uma era antes da covid e depois da covid.

E sobre o que escrevia eu há um ano atrás, a que juntava os tradicionais votos de esperança e desejo de um ano novo cheio de prosperidade? “Brexit”. O tema era o “Brexit!” O mesmo que viu finalmente a luz ao ter sido possível um acordo de saída ordenado que certamente dará a ambos os lados, Reino Unido e União Europeia, a serenidade necessária para ultrapassarmos este divórcio que, no final das contas, acabou por não ter uma separação de bens dolorosa, pelo menos a que se refere à circulação de bens. Um final, apesar de tudo, feliz q.b. no final de um percurso sinuoso e complicado que quase nos mergulhou no caos. Destaque para a presidente da União Europeia, Ursula von der Leyen, que mostrou uma fibra que há muito não se via ao declarar que só sairia da mesa das negociações no último dia do prazo, a provar que a determinação da UE em encontrar a melhor solução para todos era irredutível.

Excelentes sinais para os novos e duros tempos que teremos pela frente. A UE, liderada pela primeira vez por uma mulher, apesar de estar há tantos anos dependente da influência de uma outra mulher, Angela Merkel, parece ter conseguido recuperar o seu ‘norte’, a sua matriz solidária, a provar que este projeto de sonho comum não é uma utopia quando a vontade e a determinação suplantam as táticas e disputas meramente regionais. Não é alheio a este reencontro com o ‘espírito europeu fundador’ a crise sanitária, económica, humanitária e social que nos veio impor este malfadado coronavírus. A Humanidade é capaz de encontrar o seu melhor quando se sente ameaçada, e esta pandemia trouxe uma dor que, não podendo ser contornada, deverá servir para a regeneração de um mundo que caminhava, ou melhor, se precipitava a passos largos num abismo sem retorno.

Não podemos dizer pois que não haverá uma era depois da covid, porque seguramente o mundo nunca mais será o mesmo. Mudámos. Mudámos muito. As máscaras que tantos ostentavam dissimuladas pelo torvelinho do quotidiano, com mais ou menos moral, e em que cada um tratava da sua vidinha sem cuidar que nada somos isolados, tornaram-se acessório obrigatório que nos retirou a capacidade de mostrar o sorriso. Obrigou-nos a todos a olhar olhos nos olhos, a ouvir mais do que a falar, a ter maior atenção aos que nos circundam. Se não cuidamos de nós, colocamos todos os outros em perigo, e vice-versa.

Mudámos. Mudámos muito. Porque a transformação digital que o mundo vinha a sofrer de forma acelerada precipitou-se num ápice e passámos todos a ter novas formas de contornar o que o confinamento nos retirava. Reinventámos o trabalho, o relacionamento e as rotinas. A videoconferência deixou de ter segredos desde a criança da escola à avó internada num lar. O mundo digitalizou-se, tentando aproximar o que o vírus afastou. Passámos a viver com uma medida padrão, à distância de dois metros uns dos outros, por segurança de todos, mas para nossa tristeza. Não abraçamos. Não beijamos. Não cumprimentamos senão com uns gestos novos, reinventando o aperto de mão em golpes de asinhas.

Mudámos. Mudámos muito. Porque passámos a ter rotinas de saída, de circulação. Olhamos os noticiários como vemos a meteorologia, para saber se podemos circular, quando e onde o podemos fazer, e quando o tempo que temos será muito curto para o tanto que nos habituámos a fazer fora de casa. Dizemos ‘hoje não posso sair’ como que diz que ‘hoje vai chover’. É um ano muito duro, inédito nas nossas vidas, e que nos põe à prova há tempo de mais. Que já ceifou vidas demais, para ser mais precisa, mais de um milhão e 800 mil pessoas em todo o mundo, dos quais 6700 portugueses. Que infetou mais de 85 milhões de seres humanos, e que continua a grande velocidade, à velocidade de muita irresponsabilidade de tantos que baixam a guarda à mínima oportunidade, quando ninguém está a ver, como se o vírus se distraísse também. Mudámos e temos que continuar neste registo até que a imunidade de grupo se estabeleça e a Humanidade erradique esta ameaça global.

Terminamos o ano com uma nova esperança. Estão aí as vacinas do nosso contentamento. O país e o mundo começam a vacinação em massa, numa escala nunca antes vista. A ciência foi capaz de se unir às instituições políticas e privadas para encontrar uma arma de combate em tempo recorde. A esperança renasce em todos nós. Mas já não fazemos os votos de muita prosperidade ou de muitas conquistas pessoais. Resgatar a nossa liberdade, a liberdade de poder abraçar os nossos, a liberdade de sorrir e falar sem o açaime, a liberdade de cumprimentarmos fraterna e calorosamente, a liberdade de visitarmos os nossos pais e avós. Só isto já nos basta para termos um 2021 excelente! Quanto damos de valor ao pouco que temos quando a vida nos põe à prova.

Não poderia deixar de destacar a dedicação ímpar de duas mulheres de armas, resilientes e persistentes, que nunca baixaram os braços, mesmo quando se foram abaixo porque a provação é hercúlea para todos, a ministra da Saúde, Marta Temido, e a diretora geral da Saúde, Graça Freitas. As duas generais, com e sem medo, provaram a cada dia e desde Março que a guerra só acaba no último dia da última batalha. Ninguém esteve, estaria ou está preparado para uma situação tão catastrófica e imprevisível. Fizeram tudo o que era possível e deram o melhor de si mesmas em prol de todos, que não foi pouco. A elas devemos gratidão e respeito. 

Foram e continuam a ser duas inexcedíveis mulheres na linha da frente. A minha vénia para ambas.

Teremos um ano muito duro, a batalha não terminou, teremos as ondas de choque sociais, económicas e humanitárias mesmo na porta ao lado. Teremos de estar todos alerta para a pobreza escondida mas evidente. Haverá muito o que fazer para que todos possamos ter o mínimo dos mínimos, mas a Europa mostrou que ninguém ficará para trás ao aprovar um pacote financeiro inédito de tão volumoso. Saibamos fazer a nossa parte, todos nós.

Termino como há um ano atrás.

Que este tempo de esperança nos traga a todos a serenidade para que o nosso futuro seja mais feliz e mais próspero.

Feliz Ano 2021.

A autora escreve segundo o novo acordo ortográfico