É este ano que vou mudar, prometo!

Final do ano é altura de rituais. Fazem-se balanços. Renovam-se expectativas. E fazem-se juras de mudança.

Final do ano é altura de rituais. Fazem-se balanços. Renovam-se expectativas. Projecta-se o futuro próximo. À meia-noite do último dia do ano pedem-se doze desejos ao ritmo da ingestão de outras tantas passas — pelo menos, quem gosta delas, não é o meu caso.

Fazem-se juras de metamorfose. Algumas individuais. Outras colectivas. Umas de ordem interna e outras a pensar na realidade externa. Por mais que se duvide de tais preceitos, é quase inevitável, ao longo da vida, envolvermo-nos neles. Talvez seja uma forma de cada um tentar organizar o seu próprio caos.

Passamos, aliás, o tempo a criar ritos desse género. A diferença é que nesta altura assumimo-lo. Conheci uma pessoa, aquilo que se pode dizer alguém perfeitamente equilibrado, metódico e racional, que tinha um cisma: mudava os móveis de lugar. Eu sei, toda a gente, de vez em quando, faz isso. Acontece que no seu caso era todas as segundas-feiras. Era um protocolo. Dizia que precisava de sentir que todas as semanas havia mudança na sua vida.

Não valia a pena argumentar que a mutação, pelo menos aquela que é mesmo a sério, é um processo, não um evento, que exige constância, tempo, consciência de si e dos outros, dos avanços e retrocessos, de maturação. Enfim, dizia-lhe o vulgar, mas em vão. É como se existissem rituais em que todos fingimos acreditar, ou que temos necessidade de acreditar, o que vai dar ao mesmo. A passagem de ano é isso. É a forma de desarrumar os móveis. Felizmente é apenas uma vez por ano e não todas as semanas.

Dito isto, acredito na mudança individual e na colectiva, interconectadas. Admito que um dos atributos dos seres humanos é a sua condição de projecto, de possibilidade, de entidade que se vai modelando ao longo do tempo. Somos algo que está sempre em construção, embora existam circunstâncias biológicas, ou da realidade política, económica, social ou cultural, que podemos gerir melhor ou pior, mas que não dominamos por completo. Mas, ainda assim, até certo ponto, do que depende de nós, podemos ser arquitectos da nossa vida, escolhendo, valorando e optando. Ou seja, vivemos tanto na possibilidade como na realidade.

E, no entanto, ninguém consegue alcançar nada sozinho, porque somos interdependentes. As nossas acções e interesses redundam nas dos demais, para lá do território onde estejam. Infelizmente, como se viu este ano, parece que só em situações de adversidade somos capazes de perceber que o nosso bem-estar depende também daqueles com quem partilhamos o solo social comum. Nesse sentido, desamparar quem necessita de cuidados é desprotegermo-nos a todos. As mudanças colectivas são complexas. Às vezes começam pelos motivos e nas horas mais inesperadas, correspondendo a um desejo latente que estava lá antes de acontecer, mas que ainda não tinha sido manifestado.

Claro que há mudanças benignas e malignas. Quem já experimentou as primeiras, do ponto de vista individual, sentiu-as certamente na mente e no corpo. De repente, um dia, por qualquer pretexto, percebemos que aquilo está a acontecer. Uma coisa sem razão de ser. Uma coisa que é, que não se justifica, que nos permite estar ali inteiros e não querer estar em mais lado nenhum. Abandonarmo-nos, aceitando até os lugares comuns, numa espécie de reconciliação com qualquer coisa que se acomodou aos nossos mais profundos anseios. Algo de orgânico, mas que correspondeu a um longo processo que veio lá muito de trás, e que acaba por se manifestar em determinados períodos. E para os quais nenhum imperativo de calendário nos prepara.