Quem, como, quando? O que precisa de saber sobre a vacinação da covid-19

Vacinação arrancou em Portugal a 27 de Dezembro e já foram vacinadas mais de 400 mil pessoas. Trabalhadores de risco, idosos com mais de 80 anos e pessoas com comorbidades fazem parte do grupo prioritário. A vacina será gratuita e tem “carácter universal”.

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Desde que Portugal anunciou, a 3 de Dezembro, o plano nacional de vacinação contra a covid-19, já se registaram algumas alterações aos prazos de vacinação inicialmente definidos. Foram criados dois grupos prioritários para receber estas vacinas que, de acordo com as previsões das autoridades de saúde, devem ser imunizados, no máximo, até final de Abril. A ministra da Saúde, Marta Temido, revelou no final de Janeiro que o plano de vacinação contra a covid-19 vai ser revisto de forma a cumprir-se o objectivo traçado pela Comissão Europeia de ficarem vacinados em Março até 80% dos idosos com mais de 80 anos e até 80% dos profissionais de saúde. Em Fevereiro, Francisco Ramos abandonou o cargo de coordenador do plano da vacinação contra a covid-19 e foi substituído pelo vice-almirante Henrique Gouveia e Melo, que anunciou que a escassez de vacinas fará com que a primeira fase seja prolongada até Abril. ​ Tire aqui as suas dúvidas sobre onde, como e quando poderá ser vacinado.

Quando teve início a vacinação em Portugal?

A Agência Europeia do Medicamento (EMA) e a Comissão Europeia aprovaram o uso de emergência da vacina da BioNTech-Pfizer contra a covid-19 a 21 de Dezembro. A imunização dos grupos populacionais considerados prioritários começou a 27 de Dezembro em todos os países da União Europeia, incluindo Portugal; mas há quem tenha começado mais cedo, já a 26, como a Alemanha, a Hungria e a Eslováquia. Desde então até 12 de Fevereiro, foram vacinadas em Portugal 436.220 pessoas com uma das vacinas contra a covid-19 – 303 mil com a primeira dose e 133 mil que já se encontram imunizadas com as duas doses.

A nova estirpe que surgiu no Reino Unido vai ter impacto nos planos de vacinação?

A equipa da EMA diz que, em termos de vacinação, não há motivos para preocupação com a variante do coronavírus que surgiu no Reino Unido. O responsável pelo sector de Vacinas e Anti-Infecciosos da EMA, Marco Cavaleri, nota que é muito provável que a vacina seja eficaz contra a nova estirpe. O director-geral da Saúde britânico, Chris Whitty, afirmava que, até à data, não havia provas de que a nova variante do vírus fosse mais grave ou mais letal. ​Mas o primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, afirmou que há provas científicas que demonstram que a nova variante deste coronavírus está associada a uma mortalidade até 30% superior à estirpe original.

Em Portugal, circularam 120 mil casos de infecção pelo SARS-CoV-2 com a mutação do Reino Unido entre Dezembro e Fevereiro. As previsões apontavam para mais casos ainda, mas houve “óptimas notícias”: “Desviámo-nos completamente da curva projectada na altura”, explicou o investigador João Paulo Gomes na última reunião de especialistas no Infarmed. A Direcção-Geral da Saúde (DGS) disse que, de acordo com os dados de que dispõe, esta estirpe pode não diminuir a eficácia das vacinas. Em Janeiro, a farmacêutica Moderna disse que a sua vacina é eficaz contra as novas variantes do novo coronavírus que surgiram em Inglaterra e na África do Sul. A variante detectada na África do Sul também já foi identificada em Portugal. E há também relatos de que foram detectados em Lisboa dois casos de uma variante do coronavírus com origem no Brasil, a B.1.1.28.

Quem são os primeiros a receber a vacina?

Os profissionais de saúde mais expostos ao vírus foram o primeiro subgrupo a receber as 9750 doses da vacina da Pfizer.

Outro grupo prioritário abrange pessoas com 50 ou mais anos com determinadas doenças associadas a maior risco de agravamento de doença e mortalidade associada à covid-19 (doença coronária, insuficiência cardíaca, insuficiência renal e doença pulmonar obstrutiva crónica), informou a ministra da Saúde. Este grupo começou a ser vacinado na primeira semana de Fevereiro, assim como os elementos da emergência pré-hospitalar – em que se incluem bombeiros – e forças de segurança.

Os titulares de órgãos de soberania, deputados, funcionários da Assembleia da República, membros dos órgãos das Regiões Autónomas e presidentes de câmara, enquanto responsáveis da protecção civil, começaram também a ser vacinados na primeira semana de Fevereiro. De acordo com um despacho, este grupo incluiu a Provedora de Justiça, os membros do Conselho de Estado e a magistratura do Ministério Público.

A vacinação contra a covid-19 dos idosos com 80 ou mais anos e de pessoas entre os 50 e os 79 anos e com co-morbilidades também arrancou na primeira semana de Fevereiro nos centros de saúde e abrange mais de 900 mil portugueses.

Os lares começaram a administrar a vacina aos utentes a 4 de Janeiro. “Até dia 25 [de Janeiro], já tinham sido vacinados mais de 160 mil profissionais de saúde e residentes de estruturas residenciais para idosos e da rede de cuidados continuados integrados, prevendo-se que esta semana termine a vacinação nestas estruturas de acordo com o objectivo fixado”, disse a ministra no final de Janeiro. A excepção são as pessoas em estruturas onde existem surtos activos, que serão vacinadas posteriormente ao surto ser dado como extinto.

Haverá lares mais prioritários do que outros?

Não. O anterior responsável pela task force que elaborou a estratégia nacional de vacinas, Francisco Ramos, explica que o objectivo é chegar a todos os lares entre Janeiro e Fevereiro. Nos primeiros 30 dias deve ser possível chegar a 75% das pessoas residentes em lares. 

Quais são os grupos seguintes?

Pessoas com 65 ou mais anos, independentemente da existência de patologias de risco, vão receber a vacina na segunda fase de vacinação, a partir de Fevereiro de 2021. Este segundo grupo prioritário abrange também pessoas entre os 50 e os 64 anos que sofram de outras patologias que não estejam incluídas na primeira fase de vacinação. Francisco Ramos adiantou na altura que quem esteja nesta faixa etária e sofra de diabetes, neoplasia maligna activa, doença renal, insuficiência hepática, obesidade e hipertensão arterial receberá o medicamento na segunda vaga de vacinação.

São abrangidas 2,7 milhões de pessoas nesta segunda fase, que terá início em Março ou Abril. Os especialistas prevêem, tal como para a primeira fase, cerca de dois meses para completar esta etapa da vacinação. No pior dos cenários, este segundo grupo estará vacinado em Julho.

Quando é que a vacina chega à restante população? 

Os especialistas desenharam um terceiro e último grupo de vacinação, que abrange a restante população do país e que poderá ser igualmente priorizada. A data em que este último grupo deverá ser imunizado só será determinada após a conclusão da segunda fase.​ Os adolescentes e pessoas até aos 65 anos saudáveis não fazem parte dos dois grupos prioritários estabelecidos pelos especialistas de saúde. Ainda não há dados suficientes para recomendar a vacinação de crianças; a OMS não desaconselha a vacinação de grávidas.

Em caso de reacções adversas graves, quem é que se vai responsabilizar? 

Uma das actuais prioridades da task force é garantir que essas situações não ocorram. Mais do que definir responsabilidades, Francisco Ramos explicava antes dos primeiros dias de vacinação que o foco é garantir que há condições de segurança nos locais de administração para que quaisquer problemas sejam atendidos de imediato. Em alguns países como o Reino Unido e Estados Unidos, aconteceram algumas reacções anafilácticas. Os casos levaram o Centro de Prevenção e Controlo das Doenças dos Estados Unidos (CDC, na sigla inglesa) e a EMA a recomendar que os vacinados se mantenham em observação durante 15 minutos após a administração da vacina. 

Os infectados vão ser vacinados?

Francisco Ramos explicava que quem já esteve infectado pode receber a vacina. Nos ensaios clínicos a vacina foi administrada a pessoas que já tinham contraído covid-19 e provou-se segura.

Podem existir alterações a estes grupos?

Sim. Ao início, as autoridades diziam que podiam ser feitos ajustes aos grupos prioritários, que estão dependentes do “ritmo de abastecimento” da vacina – tal como acabou por acontecer.

Terei de pagar pela vacina?

Não. A vacina será gratuita e terá “carácter universal”, disse a ministra da Saúde.

Como é que a vacina protege as pessoas do vírus?

A vacina da BioNtech-Pfizer tem 95% de eficácia. A versão da farmacêutica Moderna ronda os 94,5% de eficácia. Isto refere-se apenas à capacidade da vacina para prevenir a forma grave da covid-19. “Ainda não sabemos se pessoas infectadas [e que foram vacinadas] podem ainda assim infectar outras”, sublinhou Harald Henzmann, secretário da Comissão dos Produtos Medicinais de Uso Humano da EMA.

A vacina tem efeitos secundários?

Segundo esclarece o Ministério da Saúde numa página dedicada à vacinação, tal como qualquer outro medicamento também a vacina contra a covid-19 pode ter reacções adversas, mas maioria delas são ligeiras e de curto prazo e nem todas as pessoas as identificam. 

“Todas as vacinas, ao estimular as nossas defesas, podem causar efeitos secundários ligeiros e de curta duração. Alguns indivíduos vacinados nos ensaios clínicos, relataram ter sentido dor no local de injecção, fadiga, dor de cabeça, dores musculares, dor nas articulações, febre. Outros efeitos como vermelhidão no local da injecção e náuseas ocorreram em menos de um em cada dez casos. Geralmente, estes efeitos desapareceram ao fim de 24 a 48 horas”, lê-se no guia.

Posso ser infectado pela vacina?

Não porque as vacinas não contêm vírus que causam a doença. No entanto, é possível ter contraído covid-19 nos dias antes ou imediatamente após a vacinação e surgirem os sinais da doença poucos dias depois de a receber.

O plano prevê o “consentimento esclarecido” antes da administração da vacina contra a covid-19. Como é que isto é feito?

A task-force esclarecia que a regra do consentimento informado não é novidade e aplica-se a todos os cuidados de saúde. No caso das vacinas do Programa Nacional de Vacinação, por exemplo, o facto de alguém aparecer para tomar a vacina representa consentimento. No entanto, poderia ser solicitado um parecer ao Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida para ver como se obtém o consentimento informado das pessoas que não têm capacidade de decidir por si próprias. Pessoas com demência, por exemplo.

Onde serão dadas as vacinas?

A vacinação arrancou nos cinco principais centros hospitalares do país a 27 de Dezembro. Aos grupos prioritários seguintes, as vacinas serão fornecidas nos centros de saúde, num total de 733 pontos de vacinação em todo o país, onde se calcula poderem ser administradas 40 mil vacinas por dia. Para as pessoas em lares ou unidades de cuidados continuados, as vacinas são dadas nesses próprios locais. Após a vacinação dos grupos de risco, prevê-se a expansão dos pontos de vacinação.

Quantas vacinas serão administradas por dia? 

Por agora, Portugal está a vacinar 22 mil pessoas por dia, segundo disse o vice-almirante Gouveia e Melo. Portugal terá capacidade para aumentar o ritmo para cerca de 80 a 81 mil vacinas por dia quando houver mais doses disponíveis. No máximo, poderão ser administradas 150 mil doses por dia (75 mil pessoas), a capacidade máxima prevista no plano de vacinação. Para isto acontecer é preciso ter três milhões de doses de vacinas disponíveis em um mês e estruturas para as administrar. 

O que devo fazer para receber a vacina?

De acordo com as indicações fornecidas na apresentação do plano de vacinação, serão as autoridades de saúde a identificar e contactar as pessoas nos grupos prioritários. A vacinação será depois agendada, de modo a agilizar o processo. Os cidadãos podem, contudo, solicitar a marcação da vacina, se se enquadrarem nas restrições aplicadas aos primeiros grupos.

As pessoas incluídas nos grupos prioritários para a primeira fase da vacinação contra a covid-19 vão ser contactadas por SMS para dizerem se querem ou não ser vacinadas. Se responderem afirmativamente, recebem um novo SMS para agendamento com a data, a hora e o local. ​

E se não tiver médico de família?

Nesse caso, deverá ser o próprio cidadão a contactar os centros de saúde, apresentando uma declaração médica de um médico privado ou seguro que ateste a necessidade de vacinação. 

Quais são as vacinas que Portugal vai receber?

Portugal adquiriu cerca de 22 milhões de doses, num investimento que está entre os 180 e os 200 milhões de euros. Neste momento, há acordos assinados entre a UE e seis fabricantes, conforme explicou o coordenador do grupo de trabalho que decidiu o plano de vacinação. Até 25 de Janeiro, Portugal recebeu cerca de 411.600 doses de vacinas contra a covid-19, distribuídas entre continente, Madeira e Açores. 

O primeiro foi o da AstraZeneca, assinado a 14 de Agosto, que tem 300 milhões [de doses] para a União Europeia e 6,9 milhões para Portugal. O segundo da Sanofia/GSK, em que não estão definidas doses. O do grupo Johnson&Johnson, com 200 milhões [de doses] para a União Europeia e 4,5 milhões para Portugal. O da Pfizer, com 4,5 milhões para Portugal. O da CureVac, o valor está praticamente acertado, entre quatro e cinco milhões. O último contrato assinado, o da Moderna, tem uma quantidade mais pequena, 80 milhões [para a Europa] dos quais nos cabem 1,8 milhões”, explicou o presidente do Infarmed, Rui Santos Ivo.

Quais foram as primeiras a chegar a Portugal?

Depois de aprovada a vacina da BioNTech/Pfizer (a primeira a chegar a Portugal), a Agência Europeia do Medicamento aprovou a vacina da Moderna a 6 de Janeiro, que nos Estados Unidos começou a ser distribuída a 14 de Dezembro. O parecer europeu sobre a vacina da AstraZeneca e da Universidade de Oxford deverá ser conhecido a 29 de Janeiro. 

Serão precisas duas doses da vacina?

Sim. O plano de vacinação para a covid-19 prevê que o medicamento seja tomado em duas doses. O intervalo entre a primeira e a segunda injecção dependerá da vacina, sendo que nos ensaios clínicos da BioNTech/Pfizer o intervalo entre doses variou entre 19 e 42 dias (em Portugal está a ser recomendado um período superior a 21 dias). A duração da imunização permanece uma incógnita.

Depois de ter recebido a primeira dose, o utente deverá agendar a segunda, de acordo com a indicação do médico ou enfermeiro, o que deverá acontecer logo após ter recebido a primeira dose. Pelo menos 133 mil pessoas já receberam as duas doses da vacina em Portugal. 

E se não me sentir bem na data da segunda dose?

Se estiver com febre, tosse, dificuldade respiratória, alterações do paladar ou do olfacto não deve ser vacinado e deverá contactar o SNS 24. Também não deve ser vacinado enquanto estiver em isolamento ou à espera de um teste à covid-19.

Depois de tomar a vacina ainda tenho de usar máscara?

Sim, mesmo após ser vacinada a pessoa deve manter todas as medidas preconizadas para a sua protecção e contenção da transmissão, incluindo o uso de máscara.

“Por um lado, um vacinado só se deve considerar protegido de doença sete dias depois da toma da segunda dose da vacina. Este é o período de tempo que dá garantia de uma resposta robusta por parte do seu sistema imunitário. Por outro, desconhece-se ainda se estar vacinado impede infecção assintomática. As vacinas conferem protecção contra a doença, mas não necessariamente contra ser portador e transmissor do vírus, sem exibir sintomas. As máscaras e o distanciamento evitam que possamos infectar outras pessoas caso sejamos portadores do vírus sem o saber”, lê-se no guia do Ministério da Saúde.

E se já tiver tomado a vacina da gripe?

Se for elegível para ambas as vacinas, deve ser vacinado para as duas, mas administradas separadamente com o tempo adequado.