Infarmed: “Iniciámos uma trajectória descendente”. Pico de infecções foi a 29 de Janeiro

O pico dos casos de infecção poderá ter sido atingido a 29 de Janeiro e, na mortalidade, presume-se que tenha havido um pico na primeira semana de Fevereiro. Nos internamentos, ainda não há um “pico” bem definido. Epidemiologistas e políticos reuniram-se nesta terça-feira no Infarmed.

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Paulo pimenta

Portugal iniciou “uma trajectória descendente” dos casos de infecção por SARS-CoV-2 e o pico de infecções deverá ter sido atingido a 29 de Janeiro, afirmou o especialista André Peralta Santos, da Direcção-Geral da Saúde (DGS) na primeira intervenção da reunião feita no Infarmed (em Lisboa), que juntou políticos e peritos nesta terça-feira, muitos deles por videochamada.

Olhando para os dados relativos à incidência da covid-19 a 14 dias por cada 100 mil habitantes, André Peralta Santos notou que, nos últimos dias, “tivemos uma consolidação desta tendência decrescente”. Na última reunião do Infarmed, a curva da incidência estava a subir.

O pico dos casos de infecção poderá ter sido atingido a 29 de Janeiro e, na mortalidade, presume-se que tenha havido um pico na primeira semana de Fevereiro. Nos internamentos, ainda não há um “pico” bem definido, mostrou André Peralta Santos. Analisando o mapa dividido por cores – vermelho nos concelhos com maior incidência e verde naqueles com menor –, mostrou ainda que, nos últimos dias, tem aumentado o número de concelhos a verde. Depois de haver cerca de 1669 casos por 100 mil habitantes na altura em que foi atingido o pico de infecções, a situação é agora “mais favorável” no país, ainda que muitos municípios tenham registado uma incidência superior a 1920 casos por 100 mil habitantes.

O especialista da DGS acautelou, no entanto, que Portugal continua com um número de casos “extremamente elevado”, mas que o confinamento agora em vigor parece ser suficiente para travar a propagação da covid-19 (incluindo das novas variantes do vírus).

André Peralta Santos apresentou ainda um mapa em que é possível ver a proporção de casos confirmados com a variante britânica do SARS-CoV-2 – as maiores incidências acontecem sobretudo nas zonas litorais e no Sul do país. “Há um maior foco na área de Lisboa e Vale do Tejo, com um foco no Alentejo litoral, na região de Coimbra e a norte menos prevalecente”, afirmou o especialista. 

120 mil casos da variante britânica em Portugal, mas com desvio “da curva projectada”

Já João Paulo Gomes, investigador do Instituto Nacional de Saúde Pública Dr. Ricardo Jorge, fez uma actualização sobre as variantes genéticas do SARS-CoV-2 em Portugal, começando por referir que as variantes da África do Sul e do Brasil têm sido apresentadas como mais perigosas do que a do Reino Unido, porque têm uma mutação que a britânica não tem. “Está associada a alguma fuga ao nosso sistema imunitário, alguns dos nossos anticorpos não se conseguem ligar.”

Falando “da variante que tem assolado o nosso país” – a britânica –, o investigador João Paulo Gomes diz que só a meio de Dezembro foi dado o alerta para esta variante, quando a sua prevalência no Reino Unido rondava já os 60%. Em Janeiro, já estava acima dos 80%.

Em Portugal, circularam 120 mil casos de infecção pelo SARS-CoV-2 com a mutação do Reino Unido entre Dezembro e Fevereiro. As projecções apontavam que, na próxima semana, Portugal teria cerca de 65% dos casos causados pela variante britânica, mas a situação actual está abaixo disso. “Desviámo-nos completamente da curva projectada na altura”, explica. “São óptimas notícias.”

Ainda em relação às variantes do coronavírus SARS-CoV-2, o investigador João Paulo Gomes explicou que a sua carga viral é maior, daí que sejam mais transmissíveis. Ainda que o número de novos casos e de mortes por covid-19 continue a ser muito elevado, tem havido uma “evolução da taxa de crescimento favorável” das variantes. No caso da variante britânica, “houve uma altura em que crescia a 90% por semana e a taxa de crescimento agora, a nível nacional, ronda os 19%”.

Mesmo na região de Lisboa e Vale do Tejo, onde a incidência desta variante “é muito elevada”, a “evolução semana a semana passou para 10% a 15%”, refere o especialista. “Lisboa e Vale do Tejo não mostra uma situação diferente da do resto do país”, garantiu.

Na segunda semana de Janeiro, 16% dos casos identificados em Portugal correspondiam à variante britânica. Foram ainda registados dois casos da variante da África do Sul em Portugal e 6,8% dos casos são semelhantes à “variante da Califórnia”, identificada em 32 concelhos. “Vamos fazer esta monitorização e continuaremos atentos”, concluiu.