Cinco momentos marcantes da carreira de Maradona

Do primeiro título internacional à despedida no Boca Juniors, passaram-se quase duas décadas. A carreira de Diego Maradona ficou marcada por momentos de glória e polémica.

Tão polémico quanto talentoso, Diego Armando Maradona teve uma carreira repleta de altos e baixos. Do primeiro título internacional (Mundial de sub-20 no Japão, em 1979) à despedida no Boca Juniors (contra o River Plate, em 1997), passaram-se quase duas décadas, mas, pelo meio “El pibe” foi o protagonista de um dos jogos mais memoráveis em Campeonatos do Mundo de futebol (contra a Inglaterra, no México 86), e foi elevado ao estatuto de um deus em Nápoles.

Um futebolista irrepetível. Comentário de Nuno Sousa, editor de Desporto do PÚBLICO

O primeiro título internacional
A estreia de Maradona pela principal selecção da Argentina aconteceu aos 16 anos - 27 de Fevereiro de 1977, contra a Hungria, num jogo de preparação -, mas, no ano seguinte, Carlos Menotti considerou que o promissor avançado do Argentinos Juniores era demasiado jovem para integrar o grupo de convocados para o Campeonato do Mundo de 1978, que a Argentina venceu a jogar em casa. Porém, no ano seguinte, Maradona começou a mostrar-se ao mais alto nível.

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No Japão, num Mundial de sub-20 onde Portugal também participou, “El pibe”, deixou a sua marca com golos (seis, em seis jogos) e uma qualidade que não passou despercebida a ninguém. Sob a batuta de Maradona, a Argentina venceu todas as partidas (total de 20 golos marcados e dois sofridos) e, de forma consensual, o pequeno “10” argentino foi considerado o melhor jogador da competição. O primeiro título internacional estava conquistado e o mundo ficava a conhecer a magia de Diego Armando Maradona.

A “mão de deus” na subida ao topo do mundo
A talentosa geração de argentinos que venceu o Mundial sub-20 em 1979 acabou por ter menos impacto do que seria expectável nos anos que se seguiram: a quase totalidade dos jogadores que venceram o campeonato no Japão não se conseguiram afirmar na principal selecção “albiceleste”. Houve, todavia, uma excepção. Sete anos depois de derrotar a URSS em Tóquio, Maradona já tinha mais de 30 internacionalizações e quase 20 golos marcados pela Argentina.

Já com estatuto de estrela planetária, Maradona chegou ao Mundial do México em 1986 com 25 anos e uma dupla responsabilidade: ser o capitão de uma equipa de grande nível (Pumpido, Ruggeri, Burruchaga e Valdano, entre outros) e recuperar o título que a Argentina tinha perdido quatro anos antes, em Espanha.

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Depois de vencerem a fase de grupos, os argentinos afastaram o Uruguai nos oitavos-de-final e, a 22 de Junho, no Estádio Azteca, na Cidade do México, quase 115 mil espectadores assistiram a um jogo repleto de simbolismo: quatro anos depois do final da Guerra das Malvinas, Argentina e Inglaterra estavam frente a frente num Mundial de futebol.

Como se previa, o jogo foi tenso e os argentinos sentiram dificuldades contra uma equipa inglesa de muita qualidade (Shilton, Hoddle, Lineker, Beardsley), mas no início da segunda parte, em apenas quatro minutos, Maradona marcou dois dos golos mais memoráveis da história do futebol: primeiro, com a “mão de Deus”, ganhou o duelo nas alturas com Shilton e fez o 1-0; depois, com um slalom de mais de 50 metros, deixou todos os ingleses para trás e marcou o segundo.

No final, a Argentina ganhou por 2-1 (Lineker ainda reduziu) e, até conquistar o título mundial, a equipa comandada por Carlos Billardo ainda derrotou a Bélgica (2-0) e RFA (3-2). No entanto, será sempre o confronto de Maradona com a Inglaterra que marcará a história do México 86.

O casamento perfeito com o Nápoles
Depois de jogar no Argentinos Juniors (1976-1981) e Boca Juniors (1981-1982), a primeira experiencia de Maradona no futebol europeu foi no Barcelona (1982-1984), mas foi no Sul de Itália que Maradona conquistou o estatuto de um deus.

A 30 de Junho de 1984, poucas semanas depois de o Nápoles evitar na última jornada a descida de divisão e com Maradona em litígio com o Barcelona – ameaçou deixar de jogar se não o deixassem sair -, o argentino foi anunciado como reforço dos napolitanos. O valor do negócio motivou críticas de vários sectores – 13 bilhões de liras na altura (cerca de 6,3 milhões de euros) -, mas para os tifosi napolitanos isso era um detalhe irrelevante.

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Maradona aterrou no San Paolo de helicóptero e passou a ser venerado pelos adeptos. Porém, o sucesso tardou. Nas duas primeiras épocas com Maradona, o Nápoles acabou a Serie A em 8.º e 3.º, mas 1986/87 foi histórico para o clube italiano e o jogador argentino.

Com Ottavio Bianchi no banco e uma sociedade profícua no ataque entre Maradona (10 golos) e Andre Carnevale (oito), o Nápoles conquistou o primeiro titulo italiano da sua história – nessa época venceu também a Taça de Itália. Maradona ficou em Nápoles até 1991, conquistando mais um título italiano (1989-90) e uma Taça UEFA (1988-89).

O Mundial da desgraça
Em 1994, com 33 anos, Maradona chegou aos Estados Unidos para disputar o seu quarto Campeonato do Mundo. No currículo, tinha uma fase de grupos (1982), um título (1986) e uma final (1990), mas, em 1994, a queda de Maradona foi a mais dolorosa.

Já em declínio - em 1991 foi suspenso pela FIFA por 15 meses depois de acusar cocaína num teste antidoping -, Maradona esteve três anos sem vestir a camisola “celeste”, mas com a Argentina em dificuldades, Alfio Basile incluiu “El pibe” nos convocados para o Mundial de 94.

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Maradona, que meses antes de viajar para os Estados Unidos chegou a pesar perto de 90kg, apareceu numa forma física surpreendente (perdeu 13 quilos em poucas semanas) e, no primeiro jogo da Argentina, a 21 de Junho de 1994, deu espectáculo com um grande golo à Grécia.

A exibição de Maradona no Foxboro Stadium encheu os argentinos de esperança e, quatro dias depois, com a braçadeira de capitão no seu “10”, a Argentina voltou a vencer (2-1 à Nigéria). Essa partida, a 25 de Junho de 1994, foi a última de Maradona pelo seu país. Testado após essa partida, Maradona acusou o uso de efedrina, uma substância ilegal utilizada para perder peso, e voltou a ser suspenso pela FIFA por 15 meses. Foi o fim da sua carreira internacional.

A despedida no Boca Juniors
Cumprida a suspensão, Maradona regressou “a casa”. Com o Boca Juniors em crise - não ganhava o titulo argentino desde 1992 -, “El pibe” voltou mais de uma década depois ao icónico clube de Buenos Aires para jogar ao lado do amigo Claudio Caniggia. O regresso, no entanto, não resultou em sucesso desportivo. Com a camisola do Boca, Maradona fez mais 34 jogos e marcou 12 golos, mas não conquistou qualquer título.

A despedida como jogador, no entanto, foi num dos palcos mais mediáticos do futebol mundial: a 25 de Outubro de 1997, Maradona foi titular no “superclásico” River Plate-Boca Juniors, no Estádio Monumental de Núñez.

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Longe dos tempos de glória, Maradona arrastou-se no campo e, ao intervalo, com o Boca a perder (1-0), pede ao treinador Héctor Vieira para sair - a versão oficial é que o argentino tinha sofrido uma contractura muscular na partida anterior frente aos chilenos do Colo-Colo.

No final, após o Boca dar a volta ao resultado com um jovem (Riquelme) que tinha entrado para o lugar de Maradona em destaque -, o astro argentino regressou ao relvado para festejar o triunfo contra os rivais. O Boca assumia a liderança isolada do Apertura no território do principal inimigo, mas Maradona já não voltou a fazer parte da história. Foi a despedida de um dos melhores jogadores da história do futebol.