A problemática de Music, o filme de Sia sobre autismo

Sia é a salvadora de autistas que nunca pedimos. Uma neurotípica que pensa que salvará autistas, desenvolvendo um filme sobre eles sem eles, e lucrando com uma minoria que já tem de lutar demasiado para se empregar, principalmente nas artes e na indústria do cinema.

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"Music", de Sia DR

Sia fez um novo filme chamado Music, que segue uma adolescente autista não-verbal chamada Music e a sua irmã mais velha, e lançou o trailer há dias. Houve uma reacção imediata da comunidade #ActuallyAutistic, com motivos que irei explicar. A reacção e os comentários em geral foram de uma desinformação assustadora e, por isso, achei importante dar a perspectiva de quem é autista.

Para interpretar o papel principal, Sia escolheu Maddie Ziegler, que não é autista. De acordo com Sia, tentou contratar uma adolescente autista não-verbal, mas, resumidamente, assumir que tal seria “cruel” para alguém com esse nível de funcionamento e achou mais gentil contratar Maddie. Sia é milionária e poderia facilmente construir e tornar o cenário confortável o suficiente para acomodar uma adolescente autista não-verbal, mas optou por não o fazer. Considerou demasiado ter de acomodar a condição que ela diz que está a tentar ajudar com o filme, e substituiu uma autista por Maddie.

Mesmo que tenha sido uma escolha da actriz autista inicialmente escolhida não continuar, existem várias actrizes autistas para convidar para audições: Kayla Cromer, Darryl Hannah e Talia Grant, por exemplo. Embora Kayla e Darryl não sejam adolescentes, as mulheres autistas estão na indústria e existem. E os homens também: Anthony Hopkins é autista, razão que o próprio considerou responsável por ser um bom actor. Em vez disso, Sia optou por nos excluir da nossa própria narrativa e pagar a Maddie para retratar uma minoria que já está totalmente de fora da representação da TV e do cinema (e do mercado laboral em geral). Muitas pessoas comentaram a dizer “Ela é actriz, é o que fazem”, mas todas estas pessoas têm representação na televisão. Nós, autistas, temos Atypical, The Good Doctor, Rain Man, entre outros, nunca com autistas a representar, e que perpetuam mitos e falsidades sobre o autismo. Prejudicam a forma como a sociedade nos vê, tornando difícil conseguirmos diagnóstico e apoio porque não nos encaixamos nesses mitos que a televisão perpetua. E se acham que não existem boas actrizes para representar este papel, claramente têm uma perspectiva errada das nossas capacidades: ninguém poderá representar melhor um autista do que os próprios autistas, visto que temos uma perspectiva do mundo muito diferente, que dificilmente é aprendida.

Ao imitar pessoas autistas no filme, Maddie deixou-me profundamente desconfortável. Aparentemente, a actriz aprendeu maneirismos, estereotipias (movimentos repetitivos) e expressões faciais ao assistir a vídeos que pais fizeram dos seus filhos autistas. Se vai retratar um membro de uma minoria, deveria entrar em contacto directo com a minoria que vai representar, não assistir a vídeos online e apenas imitar o que aí vê. Eu e, aparentemente, vários outros autistas sentimo-nos ridicularizados, como se fôssemos novamente crianças e estivéssemos a ser ridicularizados pelos movimentos que fazemos. Para além disso, a postura de Maddie é a que muita gente usa para ridicularizar os autistas; a maioria dos autistas, contudo, não tem essa postura.

É artificial e estereotipado, uma vez que a actriz parece não ter tirado tempo para entender os motivos pelos quais quais fazemos os movimentos que fazemos, em primeiro lugar. Esta é a abordagem típica que vemos, continuamente, nos filmes. Agindo como se fôssemos conchas vazias que fazem movimentos peculiares, e não seres humanos plenos com disfunções sensoriais que precisam de ser compensadas. Transformaram movimentos que, para nós, têm um propósito e uma profunda conexão sensorial com quem somos em algo esquisito e isso tirou qualquer alma que a actuação poderia ter. Os vídeos a que ela assistiu são problemáticos de qualquer forma, pois mostram crianças autistas em momentos vulneráveis. Há anos que activistas autistas tentam banir este tipo de vídeos. Ninguém gostaria que os seus momentos de profunda vulnerabilidade fossem espalhados online, onde qualquer futuro empregador ou parceiro os pudesse ver.

A personagem também é infantilizada, referida mesmo como “menininha”. Maddie está a retratar uma adolescente e devemos ser respeitados de acordo com a idade que temos. Ao infantilizar adolescentes e adultos, está-se a retirar o nosso poder de decisão, desejos, sonhos e personalidade, para reduzi-los aos caprichos de uma criança. Outra forma de invalidação comum nas nossas vidas.

Sia diz que recebeu o conselho de duas pessoas autistas, mas isso não é suficiente. Deveriam ter sido contratados escritores autistas e elementos de produção autistas, já que o autismo é um espectro e todos somos diferentes. Existem várias crianças não-verbais que falam em adulto e outros comunicam de formas diferentes. Existem também autistas verbais com mutismo selectivo, o que significa que às vezes não somos capazes de falar. Portanto, dizer que não contrataram alguém com esse “nível de funcionamento” porque era “cruel” mostra um desprezo pelas capacidades dos autistas e um entendimento limitado do que funcionamento realmente significa no autismo. Além disso, existem vários livros incríveis sobre experiências de autistas não-verbais, e aposto que vários dos autores estariam dispostos a serem incluídos como escritores ou na produção. Não-verbal não significa não comunicativo, e a exclusão das suas vozes de um filme sobre eles mesmos é profundamente insultuoso.

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Sia Danny Moloshok

Sia também mencionou que fez parceria com uma organização norte-americana chamada Autism Speaks, contra a qual os autistas são profundamente contra, uma vez que apoia ideais da eugenia, financia “curas” e apenas 2% do orçamento anual vai para pessoas autistas reais e suas famílias. Sia garantiu que não sabia, o que ainda não foi confirmado. 

Os maneirismos, as estereotipias e as expressões faciais que fazemos são considerados estranhos, peculiares ou mesmo perigosos. Autistas negros foram baleados e mortos por terem um colapso em público. Não é aceitável que alguém nos use como uma fantasia e trate de nos mostrar como exemplos de “superação” por fazermos coisas do dia-a-dia, para pena e bem-estar de quem está a assistir, o que leva a que pessoas sem deficiências tenham uma ideia distorcida das nossas capacidades.

A nossa existência deve ser homenageada através de um retrato adequado do que é ser autista e, em vez disso, tivemos outro filme para “inspiração” e entretenimento da sociedade, usando a nossa existência como um bouquet de movimentos peculiares. As nossas vidas são sempre retratadas como pesadelo ou inspiração, ao invés de se fazer um esforço para apenas mostrar as nossas vidas plenas e verdadeiras, dificuldades e habilidades.

A história é centrada num retrato neurotípico (não-autista) do que Sia supõe que é ser-se autista, em vez de nos colocar a nós e às nossas experiências na frente e no centro da história. Sia é a salvadora de autistas que nunca pedimos. Uma neurotípica que pensa que salvará autistas, desenvolvendo um filme sobre eles sem eles, e lucrando com uma minoria que já tem de lutar demasiado para se empregar, principalmente nas artes e na indústria do cinema.