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Os movimentos pelo clima cansaram-se de negociações e assinaram o Acordo de Glasgow

Depois de protestos para pressionar governos e Nações Unidas, os movimentos pelo clima decidiram avançar com um plano de acção próprio para evitar que o aquecimento global ultrapasse os 1,5 graus Celsius até 2100. Mais de 80 organizações assinaram o Acordo de Glasgow, cuja principal ferramenta é a desobediência civil.

No mesmo ano que um movimento global pelo clima levou milhões às ruas, as emissões de gases com efeito estufa, como o dióxido de carbono (CO2), atingiram máximos históricos. Para as associações que lideram a luta pela justiça climática, a mensagem ficou clara: “Não vamos depositar mais esperanças em governos e organizações internacionais”, resume João Camargo, activista pela Climáximo e investigador em alterações climáticas. “Nós próprios vamos criar planos que vão visar, no mínimo, o corte de 50% das emissões até 2030.”

O Acordo de Glasgow, que mais de 80 organizações não-governamentais, comunidades e movimentos assinaram esta segunda-feira, 16 de Novembro, via Zoom, é o primeiro passo do plano alternativo de quem está farto de anúncios de esforços “que não funcionam” e que, “ainda para mais, não são cumpridos”. “Este poderoso movimento pela justiça climática precisa de ferramentas novas e fortalecidas para lidar com estas contradições fundamentais e para reverter a narrativa global da impotência institucional, transformando-a em poder social que possa trazer consigo uma mudança duradoura”, lê-se, no texto do acordo.

O primeiro rascunho do Acordo de Glasgow foi apresentado durante um encontro da plataforma By2020WeRiseUp, constituída maioritariamente por grupos pela justiça climática na Europa, no início de Março, em Bruxelas. A “não-cooperação política e económica” e “a desobediência civil não violenta e justificada, dirigida a governos, empresas públicas e privadas e infra-estruturas” são as “principais ferramentas” do novo acordo que deixa de fora negociações com os governos e as Nações Unidas. “Não quer dizer que ignoremos que existem instituições e obviamente que sabemos que se os nossos planos e as nossas acções forem fortes, terão um eco nas instituições”, explica João Camargo, um dos activistas e investigadores portugueses envolvidos no acordo à escala global.

Nos próximos três meses, em colaboração com universidades, os activistas vão apresentar um inventário dos principais emissores em cada região. “O objectivo é termos um quadro bastante claro do que significa cortar 50% das emissões à escala global. Uma percentagem não significa nada: se dissermos que é preciso fechar estas fábricas ou mudar estas fábricas, tudo isto é muito mais palpável. Queremos deixar de falar de abstracções.”

A partir desta lista negra, que será pública, as organizações vão começar a construir “agendas climáticas nacionais” alternativas para que o aquecimento global não ultrapasse os 1,5 graus Celsius até 2100 — a mesma meta que o Acordo de Paris definiu, em 2015, mas que os países não estão a cumprir. 

Ainda há colectivos a juntarem-se ao acordoque barra a entrada a partidos políticos, empresas e igrejas. No acordo, explicam que “o processo de transformação radical da sociedade necessário para travar o colapso climático” não poderá apenas olhar para a ciência e para o corte de emissões, mas terá “em conta muitos outros temas como justiça social, emprego, discriminações”. “Para Portugal implica um corte acima dos 70% até 2030 (em relação a 2018). Não são planos nada fáceis. Não temos nenhuma ilusão sobre isso”, conclui o activista.

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