Apesar do estado de emergência, contratar médicos reformados continua a ser “muito burocrático”

Presidente da associação que representa os médicos de família diz que doentes com covid-19 em isolamento em casa ainda não perceberam que têm que permanecer “fechados num quarto”.

Foto
Os médicos de família usam a plataforma informática Trace Covid para seguir os doentes Rui Gaudencio

Mesmo nesta altura de grande pressão e sobrecarga do Serviço Nacional de Saúde, o procedimento para a contratação de médicos que se aposentaram mas estão dispostos a regressar para ajudar durante algum tempo continua a ser “muito burocrático e demorado”, criticou nesta quarta-feira o presidente da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar (APMGF), Rui Nogueira.

“Estamos em estado de emergência, precisamos urgentemente de reforços e, mesmo assim, para contratar continuamos a ter que pedir autorização ao director executivo do agrupamento de centros de saúde, que depois manda o pedido para a administração regional de saúde, que por sua vez o envia para o gabinete do secretário de Estado [da Saúde]”, descreve. “É preciso que esta contratação seja célere. O que entendo por emergência é uma resposta rápida, estamos em tempo de guerra”, reclama.

Apesar de a contratação de médicos reformados já ser possível antes da pandemia, foi autorizada de forma mais alargada e “sem sujeição aos limites de idade” em Março passado. Esta foi uma das medidas de carácter excepcional decretadas pelo Governo para garantir “o estado de prontidão do Serviço Nacional de Saúde” e fazer face à “pressão de procura de cuidados de saúde” provocada pela pandemia, como justificou então o Conselho de Ministros.

Desde o início deste ano, calcula Rui Nogueira, “devem ter-se aposentado mais de 200 médicos” e, no último concurso que abriu 400 vagas para novos especialistas e que se atrasou por causa da pandemia, “perderam-se” (não foram ocupadas) cerca de 100. Com poucos mais meios, a carga de trabalho aumentou entretanto de forma impressionante, nota o presidente da associação, que não se tem cansado de alertar para o estado de exaustão em que se encontram muitos profissionais.

Sem recursos humanos e materiais suficientes, a ter que seguir agora “perto de 80 mil casos activos” de infecção, “quase quatro vezes mais do que no pico da primeira vaga, em Abril”, com o trabalho a acumular-se, muitos médicos de família não têm outra hipótese se não a de voltar a adiar algumas consultas de rotina, avisa o presidente da associação.

Além de acompanhar os doentes com covid-19 que podem ficar isolados em casa por não necessitarem de internamento hospitalar — e que são a esmagadora maioria do total — através da plataforma informática Trace Covid, os médicos de família ainda têm que seguir as pessoas que esperam pelos resultados dos testes, além de todos os outros utentes que ficaram sem resposta durante Março, Abril e Maio passados.

Com o aumento descomunal de casos, há muitos mais doentes em isolamento no domicílio. E a vigilância destes pacientes não se tem revelado fácil. Muitos doentes com covid-19 que ficam em casa “ainda não perceberam que “têm que estar fechados num quarto durante o isolamento” para não contagiarem os seus familiares, lamenta.