Vicente

O Vicente foi uma espécie de Dom Quixote visionário, a perseguir os seus sonhos, projetos à partida inalcançáveis e eu senti-me sempre ao seu lado como um Sancho Pança, um fiel escudeiro que o acompanhava em busca da Dulcineia.

Era o meu maior amigo. Conhecemo-nos há 65 anos, na turma 1º D do Liceu Jaime Moniz, tinha eu o número 34 e ele o 37. Não sendo dados a futebóis, enquanto os nossos colegas se esfalfavam em pontapés e caneladas atrás da bola, passávamos os intervalos a jogar ao berlinde com umas esferas de aço catapultadas pelas chaves dos cacifos em tabuleiros improvisados nas tampas dos coletores do recreio. E para meu encantamento, enquanto jogava, o Vicente ia desfilando os enredos dos filmes que vira, causando-me um misto de espanto e inveja, pois nesse tempo a minha cinematografia limitava-se a um inenarrável melodrama castelhano chamado “Marcelino Pão e Vinho” e às aventuras delicodoces de um tal “Joselito, o Pequeno Rouxinol”. Já então o Vicente possuía um repertório de dezenas de fitas, que reproduzia entusiasmado, modulando a voz, fazendo caretas, revirando os olhos, os braços, o tronco, as mãos, sim, porque o Vicente falava com todo o corpo e eram ilhas misteriosas, continentes perdidos, caravelas cascas-de-noz e tempestades em mares distantes. E ao olhar para o horizonte, na ilha da nossa infância, partilhávamos o mesmo sonho: se para além daquele mar que nos cercava, nada mais existisse e tudo o resto fosse ficção?

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