Ghosting puxa ghosting, mas ninguém parece g(h)ostar

Fazer ghosting é ser um problem solver da própria vida. É o modo jovem para quem não quer, ou não pode, ser totalmente sincero e honesto com a pessoa face a quem se quer desaparecer. Hoje, é mais fácil ignorar e fingir que a pessoa não existe, é mais fácil simplesmente fingir de morto.

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Andrew Guan/Unsplash

Ghosting com gosto, tão 2020. Enquanto o mundo tenta não implodir de forma abrupta sem ninguém saber bem onde começa a ruína, o meu grande interesse fica nos temas que fazem de nós humanos sociais. Concentro-me nos temas que vivo, digamos que é o lado jovem da coisa. Na hora de relativizar toda uma eternidade de problemas que não posso resolver, porque não falar de algo que também preocupa? O ghosting é real, mesmo para quem não sabe que faz, que fez, ou que apenas foi o alvo.

Ghost é fantasma, portanto, ghosting é “fantasmar”. Seja lá o que isso for. Ghosting é desaparecer da vida de alguém sem deixar rasto, enquanto ser que continua a viver. O paraíso, inferno, ou qualquer outra crença não é para aqui chamada. Já os clássicos fantasmas são famosos por fazer aparecimentos fugazes, com mensagens também elas fugazes para mudar a vida de alguém, dar um conselho a meio de um sonho, comunicar do além através de sinais ou copos que caem do lava-loiças. Ou isto, ou apenas um susto.

Se os fantasmas desaparecem, ser-se fantasma é ter uma palidez mais forte do que um colete reflector durante a época balnear. “Estás branco como a cal” ou “pareces um fantasma” raramente são elogios. E com tudo isto, como é que chegamos ao ghosting?

Fazer ghosting é ser um problem solver da própria vida. É o modo jovem para quem não quer, ou não pode, ser totalmente sincero e honesto com a pessoa face a quem se quer desaparecer. Hoje, é mais fácil ignorar e fingir que a pessoa não existe, é mais fácil simplesmente fingir de morto do que dizer apenas “Não tenho mais interesse em falar contigo, foi um gosto, mas a nossa ligação termina aqui”. Enquanto escrevo, percebo a brutalidade das palavras. Ainda assim, não são tão fortes como as de um antigo concurso de televisão: “És o elo mais fraco, adeus!”

Em jargão televisivo de reality show, ninguém faz ghosting porque são todos sinceros e honestos. Peço desculpa, a palavra certa é frontal. E não é ao acaso. Até então, frontal era utilizado para descrever um choque entre veículos que bateram de frente. A brutalidade do cenário fica toda na palavra, que sai da estrada para ser expressão popular. Ainda assim, sempre que é utilizada, é indicadora de um grande acidente. Neste caso, os danos não são materiais, nem físicos, mas tocam fundo no coração.

No ghosting, poupamos a pessoa ao sofrimento de saber algo desagradável sobre ela. Poupamos a pessoa a descobrir o seu próprio defeito e a razão que levou a esse afastamento. Todos adoramos descontos e razões para poupar, seja 50% em alfaces ou 100% em lidar com sentimentos agridoces. Contudo, será que neste mundo pandémico ficaríamos todos mais leves com respostas?

Falo como alvo de ghosting, mas tenho a certeza que também já o fiz. Aliás, tenho a certeza que o fiz quando ainda nem tinha um nome tão cool e vanguardista. Entretanto, o processo foi baptizado e tenho a certeza que já o fiz outra vez, mesmo que sem intenção. O dilema é simples: queremos viver num mundo em que é legítimo fazer ghosting sem resposta e isso é natural, ou vamos querer sempre saber a origem pela qual pessoas que um dia são queridas no outro ficam apenas memória?

Acho que ninguém está preparado para tanta verdade e tenho a certeza que também não somos assim tão evoluídos para saber lidar com abandonos deste tipo. Será que somos capazes de lidar com a rejeição à nossa identidade?