Covid-19: no maior hospital do país, a urgência está a chegar ao limite

A urgência dedicada aos casos suspeitos de covid-19 do Hospital Santa Maria, em Lisboa, reflecte a evolução da pandemia em Portugal com doentes a avolumarem-se à porta para realizar o teste e no interior a capacidade quase esgotada.

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LUSA/TIAGO PETINGA

Os contentores brancos onde funciona a urgência dedicada à covid-19 do maior hospital do país estão instalados em frente à Urgência Central e separados do edifício principal para garantir a segurança dos outros doentes que ali vão fazer os seus tratamentos, consultas e cirurgias. A nova ala foi criada recentemente já depois da primeira fase da pandemia, concentrando os serviços que eram assegurados até então pelas tendas da Cruz Vermelha, pelo espaço na recepção central do hospital e por um pré-fabricado. O que se pretendeu foi “separar os doentes suspeitos dos não suspeitos com a criação de circuitos separados”, diz à agência Lusa o médico Jacques Santos, adjunto da direcção do Serviço de Urgência.

À pergunta se tem aumentado a afluência de doentes com covid-19 ou suspeitos de estarem infectados, o médico afirma que “tem sido de dia para dia, cada vez mais”. “Temos capacidade para 26 doentes e, neste momento, a capacidade está quase preenchida no “covidário”, embora estejam doentes a aguardar transferência para os serviços”, explica.

O movimento é visível à porta da urgência. No dia da reportagem da Lusa em Santa Maria, realizada na terça-feira. Há ambulâncias do INEM estacionadas, profissionais de saúde equipados com fatos de protecção e algumas dezenas de pessoas a aguardar para fazer o teste à covid-19: uns estão sentados nos pilaretes que ladeiam o passeio, enquanto outros preferem esperar de pé a sua vez.

Lá dentro, os profissionais de saúde desdobram-se na zona de triagem, onde fazem as zaragatoas, e circulam pelas várias boxes individuais, onde estão os doentes em situação mais grave, deitados em macas à espera de serem transferidos para outros serviços. Neste serviço, existem ventiladores, uma sala de reanimação e todos os medicamentos e máquinas necessárias para apoiar os casos mais urgentes.

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Estamos a internar muitos doentes em cuidados intensivos”, adianta Jacques Santos, recordando que no início da segunda vaga parecia haver menos doentes graves, porque a população infectada era mais jovem, mas “foi um erro acreditar nisso”. “No meio de tantos doentes novos dá aquela sensação de que o vírus está a ser menos agressivo”, mas “a gravidade dos doentes não é menor”, observa.

Todos dias passam pela urgência entre 100 e 150 utentes, segundo o presidente do Centro Hospitalar Lisboa Norte, Daniel Ferro, considerando que ter a urgência separada ajuda, porque evita-se “ao máximo” o contacto com a instituição, que monitoriza os dois terços que recorreram à urgência e foram enviados para casa, mas podem vir ainda a ter sintomas.

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Apesar dos longos meses de pandemia e do cansaço expresso na cara de muitos profissionais de saúde, a vontade de ajudar permanece. “Em termos de enfermagem mantemos o mesmo perfil desde Março até hoje”, disse à Lusa Carlos Neto, enfermeiro gestor dos Serviços de Urgência, que tem estado no combate à pandemia desde o primeiro dia. Para o enfermeiro, as maiores dificuldades estão “na pressão da insegurança” que os profissionais têm e “na incerteza relativamente ao futuro”, devido ao “prolongamento desta situação”, o que se vai “notando na equipa no seu todo”.

“Mas não baixamos a guarda”, garante Carlos Neto, considerando que os maiores desafios que os profissionais têm de enfrentar é manter os “perfis de segurança, evitar a contingência de dificuldades de material e de meios humanos e prestar a assistência que é necessária”. É uma situação que exige “um grande esforço” e apesar de os profissionais ainda não estarem em exaustão tudo isto “vai deixando umas marcas pela extensão temporal da pandemia e certamente pelo que virá, porque ainda vai demorar uns meses”.

Para o médico Jacques Santos, o problema é que os profissionais não tiveram um período em que estiveram “ausentes da infecção”. Fazendo uma comparação com a gripe A, o médico diz que aí se sabia que havia “um período longo” de acalmia (a Primavera, o Verão e o Outono), o que não aconteceu com este vírus. Só no confinamento, mas não deu tempo suficiente para recuperar, além de que nessa altura havia muitos profissionais de saúde infectados ou em quarentena e isso fez com que “fosse difícil gozarem as férias em pleno”.

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