O que fizeram Finlândia e Estónia para controlar a progressão da covid-19?

Os actuais dois maiores casos de sucesso têm factores comuns como a confiança nas recomendações das autoridades, e ainda outros próprios: a vida online comum na Estónia e a prontidão na Finlândia.

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A primeira-ministra da Finlândia, Sanna Marin JOHANNA GERON/EPA

O mapa da Europa do Centro Europeu para o Controlo de Doenças mostra país após país a vermelho — o que significa que há grandes taxas de incidência de infecções pelo SARS-CoV-2. Semana após semana, o vermelho vai ganhando espaço, e no final desta semana, apenas três países escapam: Finlândia, Estónia e Noruega.

Estes três países estão também com uma curva ascendente de casos com o resto da Europa, mas os números são muito menores: esta sexta-feira foram registados 101 novos casos de infecção na Estónia (já a Letónia contou 284 novos casos e a Lituânia 735), 344 na Finlândia e 297 na Noruega.

Como os números diários têm grandes variações, para comparar é mais útil a taxa de casos por cem mil habitantes a 14 dias, divulgados pelo Centro Europeu para o Controlo de Doenças: Finlândia com 46,6, Estónia com 52,2, e Noruega com 58,9, a distância de países que começaram a piorar como a Grécia (107,8) ou a Letónia (121,8). Portugal tem uma taxa de 382,6 e o país europeu mais afectado é agora a Bélgica com 1600.

A Finlândia é mesmo um caso raro já que esta quinta-feira permitiu-se aliviar algumas restrições, deixando de impor limites aos horários dos restaurantes excepto nas regiões com maior número de infecções.

Procurando explicar a singularidade do país, o diário britânico Financial Times dizia que fruto da guerra com a União Soviética em 1939-40, a Finlândia tem um enorme foco em prontidão de resposta e acção em emergências nacionais. 

Mas mesmo assim, o epidemiologista Pekka Nuorti diz que a mudança de comportamento das pessoas quando foram decididas as restrições foi “notável”: os contactos sociais foram reduzidos em três quartos, sublinhou. Mesmo que o confinamento inicial não tenha sido tão estrito como noutros países: lojas além das essenciais e transportes mantiveram-se em funcionamento.

O site Politico avaliou uma série de líderes europeus na reposta à crise da covid-19 e destacava a primeira-ministra finlandesa, Sanna Marin, no cargo há apenas quatro meses quando surgiu a pandemia. Mesmo com as vantagens de um plano de prontidão existente, de ter uma boa situação geográfica, uma população pequena e forte coesão social, a acção do Governo foi essencial, sublinhava. 

Ao Financial Times Johan Strang, professor de Estudos Nórdicos na Universidade de Helsínquia, disse que o Governo se destacou pela comunicação clara, e pela calma como que foram impostas medidas drásticas como quando a capital restringiu, durante semanas, quaisquer entradas ou saídas do seu círculo.

O responsável de segurança de saúde no Instituto para a Saúde e Bem-Estar, Mika Salminen, menciona de novo o facto de os finlandeses seguirem, em geral, instruções e recomendações: a utilização de uma app de rastreio de contactos (semelhante à portuguesa) foi descarregada por 2,5 milhões de pessoas (num país de 5,5 milhões), destacou, citado pela Reuters. 

O comportamento dos cidadãos foi também referido no caso da Estónia, especialmente na comparação com os outros bálticos — se na Lituânia o motivo para o aumento de casos parece ter estado na relutância do Governo em impor mais restrições na véspera de eleições (que perdeu na semana passada), na Letónia as regras são as mesmas da Estónia e a diferença será no nível de adesão das pessoas às medidas, segundo o epidemiologista letão Jurijs Perevoscikovs.

Mas o modelo único da Estónia de digitalização que vai da administração pública às empresas privadas — esta é “a sociedade digital mais avançada do mundo”, segundo a revista norte-americana de tecnologia Wired — foi visto como essencial na resposta à covid-19. 

Ensino à distância, telemedicina, ou teletrabalho não foram novidade, e a Estónia levou a cabo um concurso de ideias para soluções tecnológicas que ajudassem a resolver problemas colocados pela pandemia, e daí nasceram mapas de risco, programas de resposta automática a dúvidas frequentes, ou plataformas que punham em contacto empregadores que precisavam de funcionários extra com pessoas que tinham ficado sem trabalho, entre outros.

O modelo assenta na confiança dos cidadãos na sua administração, e vice-versa: durante a pandemia passou a ser possível aos próprios doentes iniciar o processo de baixa por doença — o médico faz um seguimento no prazo de uma semana.

Especialistas dizem que a comunicação clara das autoridades e explicação dos motivos para as medidas foram também importantes. Uma delas foi a chamada “regra 2+2” — não se podiam reunir mais de 2 pessoas (de agregados familiares diferentes) a menos de 2 metros.

O uso de máscara, pelo seu lado, só agora foi imposto nos transportes públicos (que começam a ser mais difíceis de arejar com a descida das temperaturas) e salas de espectáculos.

A Noruega, vendo a sua situação piorar, decretou esta segunda-feira mais restrições. A primeira-ministra, Erna Solberg, anunciou que o limite de pessoas em espaços públicos interiores desce para 50 (era de 200), e que em suas casas o máximo de convidados que alguém pode receber é cinco (antes eram 20). 

Também foi estabelecido o uso obrigatório de máscara em locais públicos interiores em que não possa ser assegurado o distanciamento físico; até esta semana, apenas era obrigatória nos transportes públicos.

Os trabalhadores estrangeiros, por outro lado, terão de fazer quarentena obrigatória de dez dias à entrada no país. Até agora os trabalhadores vindos da União Europeia, com quem a Noruega tem um acordo de circulação livre, podiam entrar depois de um teste à partida e outro à chegada.

Os países nórdicos foram dos que impuseram critérios mais estritos para entradas e saídas dos país e medidas: a Finlândia foi o mais rigoroso de todos.

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