Álvaro Siza recebe Prémio Nacional de Arquitectura de Espanha. “É urgente manter a abertura e o entusiasmo”

Arquitecto de 87 anos é o primeiro não-espanhol a ser distinguido com o galardão. Discursou a partir do seu escritório e disse dever muito a um país onde imprimiu um corpo de trabalho assinalável. Aludiu na sua intervenção aos nacionalismos de Portugal e Espanha (tanto os da sua geração como os de hoje) e à pandemia.

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Álvaro Siza em 2019 no Museu de Arte Contemporânea de Serralves Nelson Garrido

O arquitecto português Álvaro Siza recebeu esta sexta-feira o Prémio Nacional de Arquitectura 2019, quase um ano depois do anúncio de que havia sido o primeiro arquitecto não-espanhol distinguido com o galardão. A partir do seu escritório, no Porto, Siza referiu-se a este prémio, atribuído anualmente pelo Governo de Espanha desde 1932, como “mais um sinal do reconhecimento” que deve a um país em que teve “muitas oportunidades de trabalho e convivência” desde o início do seu percurso profissional.

O arquitecto de 87 anos lembrou na cerimónia de quase uma hora – que foi transmitida online, tendo juntado pequenos discursos no Palácio de Moncloa (o da escultora Eva Lootz e o de Pedro Sánchez, chefe do Governo de Espanha) e intervenções à distância (a de Siza e a do primeiro-ministro português, António Costa) – o impacto que tiveram na sua actividade os “pequenos congressos de arquitectura” que começou a frequentar em território espanhol desde 1970. “Conheci grandes amigos nesses encontros e o que eles faziam nas conversas era simples: cada um apresentava um ou vários projectos, abrindo um debate no qual se confrontavam ideias, todas em resposta às exigências de um mundo em mudança profunda. Essa geração, em combate ao nacionalismo da altura, esperava uma mudança, desejava-se obrigada a desenhá-la”, começou por dizer.

“Os anos 1970 trouxeram essa mudança em Espanha e em Portugal”, continuou. Siza considera que os dois países têm uma “herança cultural rica” que os posiciona como “territórios de encontro entre diferentes culturas, entre a unidade e a diversidade”. “É urgente manter a abertura e o entusiasmo de então. O mundo continua a mudar. Alguém me disse que a palavra ‘crise’ em grego significa também ‘recomposição’, ‘mudança’. Eu acredito que sim. Acredito que o Homem encontrará a vacina para qualquer crise, como acontece há séculos”, frisou o arquitecto, numa referência aos novos movimentos nacionalistas que se têm levantado nos últimos anos (e dos quais Portugal e Espanha não escaparam ilesos, com a ascensão dos partidos políticos Chega e Vox) e, igualmente, à pandemia que o impossibilitou de receber esta distinção presencialmente.

Depois de lembrar que “esta não é a primeira vez que Siza é homenageado em Espanha”, António Costa disse que “este prémio é especial, por ser o primeiro desde 1932 que o júri do Prémio Nacional de Arquitectura entrega a um arquitecto não-espanhol”. O primeiro-ministro estabeleceu um paralelismo com a atribuição do Nobel da Literatura a José Saramago (1998), que “foi sentida com muita alegria e convicção tanto em Portugal como em Espanha”, com quem o autor “repartia as suas afinidades”, frisando que esta distinção reconhece o trabalho de um “mestre da arquitectura”​ que “há muitos anos mantém uma conexão com Espanha e contribui para o fortalecimento das relações culturais entre os dois países da Península Ibérica”.

Pedro Sánchez, por sua vez, destacou a preocupação de Siza com as características dos locais sobre os quais intervém – “As construções que desenha revelam o que já ali existia e que ainda ninguém tinha conseguido ver” –, antes de reflectir sobre aquele que deve ser o papel da arquitectura e dos arquitectos perante as novas dinâmicas impostas pela covid-19. “A pandemia fez com que questionássemos muitas coisas. Já não sabemos o que significa um lugar seguro, por exemplo”, apontou, sugerindo que, agora mais do que nunca, “os arquitectos devem ter um papel transcendente e fundamental”, chamando os cidadãos aos espaços que esboçam e sendo promotores activos da “coesão social”, tanto a uma “escala doméstica” como em “ambiente urbano”.

No dia em que se assinala o 110.º aniversário do poeta e dramaturgo espanhol Miguel Hernández, Sánchez lembrou o seu poema Las Manos, no qual o autor descreve a mão como “a ferramenta da alma”. “Obrigado, Siza, por demonstrar que as mãos da arquitectura servem para unir e preencher lacunas”, concluiu o chefe do Governo de Espanha.

Álvaro Siza Vieira, que nasceu em Matosinhos em 1933 e estudou Arquitectura na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto entre 1949 e 1955, projectou para Espanha, entre muitos outros edifícios, o Centro Meteorológico da Vila Olímpica de Barcelona, o Teatro-Auditório de Llinares na Catalunha, as casas de habitação social na cidade de Cádis, a Faculdade de Ciências da Informação de Santiago de Compostela, a Reitoria da Universidade de Alicante ou o Edifício Zaida de Granada.

Da sua grande lista de distinções destacam-se o Prémio de Arquitectura da Associação Internacional de Críticos de Arte (1982), o Prémio de Arquitectura da Associação dos Arquitectos Portugueses (1987), a Medalha de Ouro de Arquitectura do Conselho Superior dos Colégios de Arquitectos de Espanha (1988), o Prémio Mies van der Rohe (1988) e o Prémio Pritzker (1992). com Lusa

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