Pelé, uma lenda a cumprir os primeiros 80 anos de vida

O aniversário do homem, a efeméride do símbolo. Durante 22 anos, Edson Arantes de Nascimento coleccionou golos, títulos e a admiração do mundo. Do futebol e não só.

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Reuters/AMANDA PEROBELLI

Nem sempre é fácil equilibrar os pratos do mito e da realidade na balança da carreira de Pelé. Entre recordes de golos, de precocidade, de títulos é comum encontrarem-se imprecisões que ajudam a hiperbolizar ainda mais os feitos de um jogador que se tornou sinónimo de futebol. Por direito próprio. No dia em que Edson Arantes do Nascimento celebra 80 anos, a lenda, há muito afastada dos relvados, prossegue o seu caminho, passando de geração em geração. Andy Wahrol resumiu, em tempos, o impacto global do brasileiro em poucas palavras: “Pelé foi um dos poucos que contradisseram a minha teoria: em vez de 15 minutos de fama, terá 15 séculos”.

Nenhum de nós estará cá para comprovar a previsão dessa figura maior do movimento arte pop, mas nos livros de história Pelé terá sempre um lugar cimeiro. E nem vale a pena estar a desfiar as proezas únicas que alcançou entre 1956 e 1977, como os três títulos mundiais com a camisola da selecção ou os mais de 1300 golos que lhe são atribuídos (e aqui está um exemplo do seu lado mítico). Basta ouvir o que têm a dizer alguns dos seus contemporâneos ou muitos daqueles que só o viram à distância, separados por um ecrã de televisão.

“Aos meus olhos, um artista é alguém que consegue iluminar um quarto escuro. Nunca conseguirei encontrar a diferença entre o passe de Pelé para Carlos Alberto na final do Mundial de 1970 e a poesia do jovem Rimbaud. Há em cada uma destas manifestações humanas uma expressão de beleza que nos toca e nos dá um sentimento de eternidade”. A descrição é feita por Eric Cantona, um dos “grandes” do futebol francês.

A FIFA reuniu alguns testemunhos sobre Edson Arantes de Nascimento e todos reforçam a dimensão invulgar do seu talento. Ferenc Puskas, por exemplo, o maior futebolista que a Hungria já gerou e que brilhou a grande altura nas décadas de 1950 e 1960, fez um retrato curioso do avançado brasileiro: “O melhor jogador da história foi Di Stéfano. Recuso-me a classificar Pelé como um jogador. Ele estava acima disso”.

Estar tão acima dos demais num período em que as regras do futebol viravam as costas à protecção dos jogadores também teve um preço a pagar. Mais do que as lesões que foi contraindo em campo, Pelé tem passado por um calvário de cirurgias nos últimos anos e o persistente problema que lhe afecta a anca limita-lhe, de forma drástica, a locomoção. É essa a razão pela qual tem aparecido muito menos vezes publicamente, apesar das muitas solicitações que recebe de diferentes quadrantes.

Pelé, “o único jogador que ultrapassou as barreiras da lógica”, nas palavras de Johan Cruyff, continua a ser uma referência desportiva sem fronteiras e uma verdadeira “entidade” no Brasil, como o classificou Ronaldo, o “Fenómeno”. Um símbolo de excelência na arte que escolheu, cujo legado em campo se sobreporá sempre às polémicas familiares ou às acusações de falta de humildade, assumidas em tantas tiradas ao longo do percurso. “Pelé é uma coisa à parte, uma coisa de Deus. É como na música. Tem 500 bons pianistas, mas Beethoven só teve um”, atirou, em Maio de 1986.

Nesse ano, Diego Armando Maradona assinou uma obra-prima no Campeonato do Mundo, diante de Inglaterra, e as comparações com Pelé tornaram-se recorrentes. O brasileiro desvalorizou sempre esse exercício, muitas vezes escolhendo outros jogadores e atirando o argentino para segundo plano, tal como aconteceu mais recentemente com Lionel Messi. “Perfeito é Pelé, que não erra, que é imortal”, chegou a assumir.

Se, a espaços, não virava a cara a controvérsia, também é certo que deixou um legado de fair-play e de camaradagem nos relvados que ainda hoje é saudado por muitos dos adversários que enfrentou. E que pode ser resumido nesta ideia de João Batista Pinheiro, embaixador brasileiro nas Nações Unidas: “Pelé jogou futebol durante 22 anos e, durante esse tempo, fez mais pela amizade e pela fraternidade no mundo do que qualquer outro embaixador”.

Por tudo isto, o “Rei” (a alcunha que mais o tem acompanhado) foi um íman para as marcas ao longo dos anos e um rosto apetecível para o marketing das grandes multinacionais, que aproveitaram e muito a projecção extra garantida pela mudança para o NY Cosmos, em final de carreira, e faziam fila para captar a atenção de Pelé. Mais do que um futebolista, era um íman que o poeta Carlos Drummond de Andrade resumiu de forma simples. “A dificuldade, extraordinária, não é marcar 1000 golos, como Pelé - é marcar um golo como Pelé”.

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