O que esperar dos 1104 quilómetros que faltam no “sonho rosa” de João Almeida

São mais de mil quilómetros de corrida, dos quais cerca de 850 fazem parte de etapas de permanente “sobe e desce”. O sonho de Almeida, que assume as poucas probabilidades de sucesso, está à distância de um desempenho hercúleo nas brutais montanhas italianas.

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O "sonho rosa" ainda está de pé LUSA/LUCA ZENNARO
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Perante as duras subidas que tem pela frente, Almeida passará, inevitavelmente, os próximos dias a olhar para cima LUSA/LUCA ZENNARO
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Os predicados de Almeida no contra-relógio ainda poderão vir a ser decisivos no futuro do português neste Giro LUSA/LUCA ZENNARO
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Faltam 1104 quilómetros de Volta a Itália para João Almeida entrar, mais ainda, na história do desporto nacional. Já entrou com o que fez até aqui – recorde português de dias na liderança de uma “grande volta” e ciclista sub-23 que mais dias consecutivos vestiu rosa na história do Giro –, mas, ganhando a corrida, será, de longe, o maior feito da história do ciclismo nacional, que nunca viu um português vencer Giro, Tour ou Vuelta.

Para lá chegar, Almeida tem uma missão que roçará o hercúleo. Comecemos pela análise mais básica: apesar de estar de camisola rosa há 12 etapas, o português não surge como principal favorito nas casas de apostas – esse trono cabe a Wilco Kelderman, actual segundo classificado, a 15 segundos de Almeida.

E o barómetro das casas de apostas, por falível que seja, acaba por traduzir aquilo que as probabilidades dão. E o que dão é uma última semana de Volta a Itália repleta de dureza física e mental, feita para corredores de “barba rija”.

João Almeida, um jovem em estreia em provas de três semanas, não só nunca lidou com pressão mental deste tipo como o seu próprio corpo nunca foi submetido a um esforço tão duro e, sobretudo, durante tantos dias.

O próprio ciclista disse-o ao PÚBLICO, em Agosto, ainda antes de sonhar sequer em vestir rosa no Giro: “Para já, diria que consigo reagir bem em provas de uma semana. Ando bem na montanha, sobretudo em subidas longas e constantes (…) mas ainda não sei bem como é que o meu corpo reagirá a uma prova tão longa”. 

Apesar de liderar a corrida, o próprio português assume, como rookie que é, as parcas probabilidades de sucesso. “Sei que será quase impossível levar a camisola rosa até Milão [última etapa], mas vou tentar e dar tudo o que tenho (…) é uma surpresa ainda estar com a camisola rosa, sem dúvida, mas acho que, se mantiver a consistência, talvez seja possível”.

Quem é o grande rival?

A tentar destronar Almeida está o holandês Wilco Kelderman, um ciclista muito experiente, que, com 29 anos, soma já onze participações em “grandes voltas” e quatro top-10.

A experiência não dá pernas, dirão uns, mas o facto é que Kelderman, sem ser um trepador puro, tem características e experiência para superar a última semana do Giro. Mais: o holandês tem uma equipa preparada para o ajudar na alta montanha, ao contrário do que parece acontecer Almeida.

A última etapa mostrou uma Sunweb a controlar por completo os acontecimentos, com Jai Hindley, um domestique de luxo, a “rebocar” autenticamente Kelderman subida acima. Mais atrás, João Almeida teve de sobreviver. Sozinho.

E “sobreviver” é a expressão ideal, já que o português esteve a poucos segundos de perder a camisola rosa, mantendo-a através de um esforço físico brutal, isolado da restante Quick-Step.

E será a essa alma e capacidade de sofrimento que o português deverá agarrar-se quando, nesta terça-feira, voltar a pegar na bicicleta. Até porque o estatuto de underdog dá a Almeida um apoio extra: exceptuando, naturalmente, os holandeses, Almeida terá o apoio de grande parte dos fãs de ciclismo – a narrativa em torno de uma vitória do jovem que ninguém conhecia será claramente mais fascinante do que a do triunfo de um holandês pouco mediático e já “batido” no World Tour.

Além de Kelderman, o grande rival de Almeida é, sobretudo, o percurso que falta correr. São seis etapas, sendo que duas delas não tirarão o sono ao português: uma é plana, apontada para um final ao sprint, e a outra é um contra-relógio que, esperam os portugueses, venha a ser um dia de emoções – será sinal de que Almeida, na última etapa, ainda estará na luta, podendo usar os tremendos predicados que tem na arte de correr contra o relógio.

Sobram, portanto, quatro tiradas. A primeira, já nesta terça-feira, até pode permitir a Almeida passar entre os pingos da chuva, já que a dureza poderá não ser suficiente para seduzir os candidatos ao triunfo a atacarem a corrida. Mas na quarta-feira e quinta-feira não há como fugir: são, ao todo, 410 quilómetros de permanente “sobe e desce” e com final em alto em contagens de primeira categoria. E o português será atacado por todos os lados.

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Para compor o cenário, sábado há mais: quase 200 quilómetros brutais, com três contagens de primeira categoria que cortarão o fôlego a toda a gente.

O que se diz lá fora?

Bradley Wiggins, bicampeão da Volta a França, lembrou que, apesar do terreno perdido para Kelderman na etapa 15, João Almeida teve um desempenho positivo. “É bom lembrar que ficou à frente do Nibali, do Pozzovivo…“, apontou, ao Eurosport, numa visão assinada por Brian Smith, ex-campeão britânico.

“Houve equipas que trabalharam para os seus líderes e eles não cumpriram, mas o Almeida cumpriu. Definitivamente cumpriu. A última semana vai ser interessante e divertida”, avançou, crendo que o sofrimento de Almeida não é sinal de que a camisola rosa esteja virtualmente entregue a Kelderman.

O site Velonews, conceituado no ciclismo, analisa que Almeida revelou estofo de campeão na etapa 15. “O rookie não entrou em pânico e revelou uma força impressionante ao não colapsar à enorme pressão de Kelderman. Teve, por outro lado, a capacidade de encontrar o seu ritmo e ganhar mais uma viagem ao pódio no final do dia”.

Mas o grande elogio a Almeida vem mais à frente, no mesmo texto. “Quando Almeida ganhar uma “grande volta”, vai olhar para trás, para as etapas 14 e 15 deste Giro, e ver a base do que estaria para vir”.

O site não escreve “se” Almeida ganhar, mas “quando”. E esta já é a maior vitória do português: aconteça o que acontecer, com ou sem rosa em Milão, o ciclista das Caldas da Rainha ganhou o estatuto que porventura só contaria ter daqui a alguns anos.

E, olhando para a classificação, há motivos mais do que suficientes para crer que, mesmo que a vitória escape, o lugar no pódio dificilmente fugirá. E esse já será um feito e tanto.

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