Não tenhais medo

Uma maleita, um momento de grande suspense, uma mensagem de humildade, uma cura milagrosa e, de permeio, um par de atitudes de fé profunda, de quem no meio do “azar” se sente bafejado pelo Senhor dos Céus. Trump é um destemido, um temerário, o verbo feito carne…

Esta poderia ser uma frase de exortação da fé a que os católicos estão habituados, mas desta vez não é do papa, mas de Donald Trump. Não foi formulada exatamente assim, mas o contexto e a intenção não podem ser mais do que um ato de fé de um “soberano ungido” pela divindade.

Todo o episódio é inenarrável, para não dizer absurdo. Tem todos os ingredientes de uma narrativa bem montada, mesmo que o não seja: uma maleita, um momento de grande suspense, uma mensagem de humildade, uma cura milagrosa e, de permeio, um par de atitudes de fé profunda, de quem no meio do “azar” se sente bafejado pelo Senhor dos Céus e pode arriscar-se a voltar a casa sem máscara e tudo. Um destemido, um temerário, o verbo feito carne…

Ah, sorte! Era mesmo o que precisava para mascarar o desastre que foi o debate dias antes. Só uma história rocambolesca de contornos bíblicos poderia suplantar o disparate que foi a sua lamentável prestação perante os holofotes da nação.

E Deus, ou quem tenha tido a capacidade de intervenção tão providencial, atendeu as suas preces. O mundo calou a sua indignação ante a sua falta de decoro, e passou a acompanhar, ao vivo e em direto, o “milagre” da cura do “desgraçadinho”.

E nem assim perdeu a sobranceria. As reações foram diversas e houve lugar a naturais rábulas humorísticas, como se o “seu covid” fosse o melhor covid de todos, a sua terapia fosse a mais incrível de todas, e tudo o que com ele se relacione seja como um toque de Midas, tornando-se tudo grafado a tinta de ouro. Rematou esta epopeia do soberano vencedor com aleluias ao tratamento, que anunciou como “a cura” para a pandemia, e, chegado à Casa Branca, exibe-se destemido e sem máscara, descansando o mundo, ao fim de sete dias, exortando a Humanidade a não temer o coronavírus.

Se isto não é digno de figurar numa qualquer passagem bíblica, não sei o que possa ser. Um dia os seus seguidores, e os crentes que o seguirão, contarão que “naqueles dias de grande temor”... ele venceu o Golias.

Nestes tempos em que lutamos para regressar à normalidade num mundo atípico, em que confiamos que em breve ultrapassaremos todos esta pandemia, saindo dela melhores pessoas do que quando nela mergulhamos. Quando o país crente se prepara para tentar recuperar, em condições inéditas, a tradicional celebração que marca o 13 de Outubro na Cova da Iria, talvez seja mais aconselhado seguirmos as suas exortações que verdadeiramente nos soerguem e nos trazem paz de espírito: Não tenhais medo.

A autora escreve segundo o novo acordo ortográfico