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Ciências Sociais em Público (XXV) - Análise

Partidos e líderes políticos nos media: quem aparece mais?

O noticiário continua a ser a principal fonte de informação política para os portugueses nas campanhas eleitorais. A visibilidade nos media é determinante para a formação da opinião pública. Todos querem aparecer. Se a vontade é idêntica, o sucesso é muito diferente. Quem aparece mais? Que diferenças existem entre vários tipos de eleição?

A 27 de Agosto de 2019, os meios de comunicação nacional noticiavam que Pedro Santana Lopes, líder do recém-criado partido Aliança, havia “ocupado” as instalações da ERC (Entidade Reguladora da Comunicação Social), queixando-se de que “os novos partidos são postos de lado”, que nenhuma televisão lhe “aparecia” e que os media não cumpriam as regras de “igualdade de tratamento”. Embora este tenha sido um exemplo relativamente recente, a importância atribuída à cobertura noticiosa de eventos políticos, como de ações de campanha, pelos partidos políticos é um fenómeno antigo, sendo mesmo anterior à invenção da televisão, em 1926.

Há quase um século, na seminal obra Opinião Pública, de 1922, o autor americano Walter Lippmann já alertava para os perigos da influência dos media sobre a opinião pública, da sua capacidade de distorcer realidades e da possibilidade de necessidades comerciais influenciarem o conteúdo da cobertura noticiosa. Desde então, muitos outros autores se dedicaram ao estudo dos media e da comunicação política. Por exemplo, sabemos hoje que os media, não sendo necessariamente as implacáveis máquinas de propaganda e persuasão que se pensou (ou receou) na primeira metade do século passado, não deixam de ter um grande poder para influenciar a importância que atribuímos a diferentes temas ou o modo como valorizamos determinadas características dos candidatos e políticos. Sabemos, ainda, que na cobertura de eventos políticos, o enfoque em questões de estratégia e conflito, em detrimento de propostas e temas políticos, parece contribuir para um sentimento de desconfiança e alienação dos eleitores. Estes são apenas alguns exemplos dos mecanismos, ou “efeitos”, que podem resultar da cobertura noticiosa. A análise que aqui apresentamos tem, contudo, uma ambição bem mais modesta, focando-se simplesmente na seguinte questão: qual foi, e como variou, a visibilidade dos principais partidos portugueses nos media, durante os períodos de campanha eleitoral para as europeias e legislativas de 2019?

A importância dos media

A informação é, indiscutivelmente, um elemento essencial para o bom funcionamento de qualquer sociedade livre e desenvolvida. Nesse sentido, os meios de comunicação de massa, como os principais transmissores de informação, tiveram sempre um papel crucial no (bom) funcionamento do nosso modelo de democracia representativa. Este papel foi-se tornando mais evidente com o gradual declínio do tradicional partido de massas e consequente diminuição dos contactos diretos que nós, cidadãos, temos com os partidos políticos. Em 2009, a então líder do PSD, Manuela Ferreira Leite, já afirmava que os comícios de campanha eram “coisas do passado”. Hoje, mais do que nunca, os atores políticos dependem dos diferentes meios de comunicação de massa para informar (e, se possível, persuadir) o eleitorado. Da mesma maneira, tal como revelou o Estudo Eleitoral Português de 2019, apresentado este ano no ICS, grande parte dos portugueses depende dos media tradicionais para saber mais sobre os partidos e as suas posições em determinados temas políticos, e assim conseguir tomar uma decisão de voto informada (isto é, coerente com as suas preferências políticas). Em 2019, fomos chamados duas vezes às urnas para tomar este tipo de decisão, primeiro para o Parlamento Europeu e, mais tarde, para a Assembleia da República. Os resultados dessas eleições, particularmente das legislativas, trouxeram algumas surpresas para o nosso sistema político.

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Nuno Ferreira Santos

Por um lado, o PAN mostrou ser um partido a ter em conta no nosso sistema político, elegendo um eurodeputado e quadruplicando a sua representação na Assembleia da República. Por outro lado, três novos partidos — Livre, Iniciativa Liberal (IL) e Chega — conseguiram, cada um, um assento no tradicionalmente restrito parlamento português. À luz deste desfecho eleitoral, analisámos a cobertura mediática das campanhas eleitorais de 2019. Mais concretamente, quisemos perceber 1) qual foi a visibilidade que os diferentes partidos tiveram? 2) em que eleições os diferentes partidos tiveram maior visibilidade? e 3) que visibilidade tiveram os diferentes líderes partidários nestas campanhas?

Para responder a estas questões, usámos dados recolhidos pelo projeto MAPLE (ICS-UL). Este projeto, coordenado pela investigadora Marina Costa Lobo, criou uma extensa base de dados de notícias da imprensa para, entre outras coisas, analisar o impacto da saliência, proeminência e contestação à União Europeia em diferentes países europeus. No nosso caso, analisámos as notícias publicadas em dois jornais nacionais de referência nos 30 dias que antecederam cada eleição. Para além disso, comparamos também estes resultados a um igual período de tempo em janeiro de 2019, de forma a explorar diferenças entre períodos de campanha e períodos de rotina, ditos, normais. Recolhemos 13.427 notícias, relativos a um total de dez partidos, os nove que elegeram pelo menos um deputado para a Assembleia da República, mais o Aliança. Incluímos o Aliança por ser um novo partido liderado por um anterior primeiro-ministro. Com a assistência do computador, cotámos o número de vezes que cada partido, e cada líder partidário, surgiu ou no título ou no subtítulo de cada notícia.

A visibilidade dos partidos e dos líderes nos media

Sem surpresa, os dados recolhidos confirmam (figura 1) que os dois principais partidos portugueses (PS e PSD) dominaram a cobertura mediática em 2019 tanto no período de campanha (para legislativas e europeias) como no período fora da campanha. Curiosamente, no período fora da campanha, o PSD teve mais visibilidade do que o PS. Situação esta que se manteve nas europeias, embora com uma diferença mínima. Já nas legislativas, a visibilidade do PS foi consideravelmente maior. O CDS-PP foi, consistentemente, o terceiro partido com maior visibilidade, seguido da CDU e do BE. Contudo, as diferenças de visibilidade entre CDU e BE, com a exceção das eleições europeias, foram muito baixas.

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Em relação aos restantes partidos, há alguns aspetos interessantes que vale a pena destacar. O primeiro é a baixa visibilidade que o PAN teve no período fora da campanha, bem abaixo da dos restantes partidos com, à altura, representação parlamentar. Igualmente interessante é a elevada saliência que o Aliança teve na cobertura noticiosa durante o período fora da campanha. Comparativamente, a visibilidade do partido de Santana Lopes nesse período foi superior à visibilidade dos restantes partidos sem assento parlamentar e até mesmo do PAN. Essa visibilidade, contudo, diminuiu consideravelmente nos períodos de campanha eleitoral. Um último aspeto interessante é que nenhuma das notícias analisadas no período fora da campanha mencionou a IL, partido que, meses mais tarde, viria a eleger um deputado. Curiosamente, olhando apenas para as legislativas e para os partidos sem assento parlamentar, a IL foi o partido que surgiu mais vezes nos títulos das notícias durante o período das legislativas, embora estejamos a comparar números muito baixos.

A nossa segunda questão prende-se com a visibilidade de cada partido nos três momentos analisados. Também sem surpresa, a figura 2 mostra-nos que praticamente todos os partidos obtiveram maior visibilidade nos períodos de campanha, em comparação com o período sem eleições. As duas exceções são o Aliança e o Chega. Curiosamente, a visibilidade destes dois partidos foi superior durante o período fora da campanha. É também interessante verificar que partidos como o PSD, CDS-PP, CDU e BE tiveram maior visibilidade nas eleições europeias do que nas legislativas. Um facto curioso que mostra que a cobertura noticiosa destas eleições de “segunda ordem” (eleições aparentemente menos importantes para os eleitores e principais partidos) não foi, de modo algum, inferior à cobertura noticiosa durante as legislativas. Outro facto curioso é que o PSD teve nas eleições legislativas praticamente a mesma visibilidade obtida durante o período fora da campanha. Algo que poderá estar relacionado com os conhecidos desafios que surgiram à liderança de Rui Rio.

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O PS foi o único partido a ter uma visibilidade idêntica em ambas as eleições. Já partidos como o PAN, Livre e IL receberam, notoriamente, uma maior atenção mediática durante o período de campanha das legislativas. Uma situação particularmente evidente no caso da IL, com 73% das notícias sobre este partido a ocorrerem durante a campanha para as legislativas. Como vimos, este foi o partido, até então, sem representação parlamentar, que recebeu mais enfoque na cobertura noticiosa.

A última questão prende-se com a visibilidade que cada líder obteve nos diferentes períodos analisados. Os nossos resultados (figura 3) evidenciam, em geral, a maior visibilidade de António Costa em comparação com Rui Rio. Contudo, esta diferença é apenas visível durante os períodos de campanha, já que a visibilidade destes dois líderes foi idêntica no período fora da campanha. A maior visibilidade de Costa é particularmente interessante no caso das europeias, tendo em conta que PS e PSD receberam, como vimos, semelhante atenção dos media. É igualmente curioso observar a semelhança entre europeias e legislativas, no que diz respeito à visibilidade de Rio e Costa, tendo em conta que, no caso da primeira, nem sequer eram candidatos. Este resultado reforça a natureza de “segunda ordem” das eleições europeias, que frequentemente funcionam como “ensaios” para as legislativas.

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Há ainda outros dois resultados que vale a pena destacar em relação à visibilidade dos diferentes líderes partidários. O primeiro é a elevada “personalização” do Bloco de Esquerda, especialmente quando comparado com o PCP. Se, por um lado, a visibilidade da CDU foi ligeiramente superior à do BE, o mesmo não se verificou em relação aos seus líderes, tendo Catarina Martins recebido, claramente, uma maior atenção por parte dos meios de comunicação. Por outro lado, a comparativamente menor saliência de Assunção Cristas é igualmente interessante, tendo em conta que o CDS foi sempre o terceiro partido mais visível. O segundo e último aspeto que importa realçar é a elevada visibilidade que Santana Lopes teve no período fora da campanha, onde aparece em terceiro lugar em termos de visibilidade. Tal como aconteceu com o partido, o enfoque mediático neste político diminuiu consideravelmente no período de campanha, principalmente nas legislativas. 

Para terminar, é importante realçar que esta análise está longe de explorar todos os ângulos da cobertura noticiosa das eleições de 2019. Por exemplo, são óbvias limitações o facto de não olharmos para o conteúdo das notícias, ou de não explorar possíveis diferenças entre jornais. De qualquer maneira, esta breve análise que apresentámos não deixa de evidenciar a baixa visibilidade mediática que os “pequenos” receberam durante as campanhas eleitorais, sobretudo para as eleições europeias. Uma situação que, a par de outros fatores, poderá ter contribuído, ao longo dos anos, para a aparente estabilidade do sistema partidário português. Esta estabilidade foi ligeiramente desafiada em 2019 e será interessante observar, agora que nove partidos elegeram deputados, o que vai acontecer, em termos de cobertura mediática, nas próximas eleições legislativas.

A alarmante proliferação de desinformação em certos media veio realçar a importância de termos hoje jornalismo de qualidade. Por esse motivo, talvez seja também esta uma boa altura para refletirmos um pouco mais sobre a cobertura mediática de temas políticos. A visibilidade dos vários partidos durante campanhas eleitorais é um bom ponto de partida. Até agora, o assento parlamentar garantiu aos partidos uma cobertura noticiosa diária durante campanhas eleitorais. Esta prática não só é uma barreira para a visibilidade de pequenos e novos partidos, mas também acaba por desincentivar os partidos grandes a se esforçarem por oferecer conteúdo novo e relevante para os eleitores durante a totalidade do período de campanha eleitoral. Como cidadãos, e eleitores, ganharíamos muito se a qualidade das ideias propostas pelos partidos fosse o principal critério de atribuição de valor noticioso.


Cientistas políticos, ICS-ULisboa

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