De Portas Abertas, uma visita guiada pelo vale nas costas de Coimbra

Nova peça da companhia O Teatrão, que se estreia este sábado no campo do União de Coimbra, explora a zona da Arregaça.

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O espectáculo deveria ter contado com a participação da comunidade local, mas a pandemia impediu-o CARLOS GOMES

O Vale da Arregaça é um lugar de leitura complexa e de difícil classificação. Tem edifícios de volumetria díspar, de empreendimentos recentes a casas devolutas, de moradias restauradas a quintas em ruína. Sobra-lhe o caminho-de-ferro, que não vê um único comboio passar há mais de dez anos e que atravessa o vale com a elegância de uma sutura. É este lugar “cheio de potencial” que uma guia turística ficcional nos propõe mostrar em De Portas Abertas, a nova criação da companhia de Coimbra O Teatrão, com estreia marcada para este sábado. 

Apesar de passar despercebido ao bulício da cidade, o vale está encaixado bem no meio da sua malha urbana. A guia ajuda a descrever: “A Arregaça está para Coimbra como Coimbra está para o país e como o país está para o mundo.” Desenhada para ser um espectáculo-percurso, a peça com direcção de Isabel Craveiro e dramaturgia de Sandra Pinheiro tem como base um levantamento feito no vale, com entrevistas a moradores e elementos de instituições locais.

“Durante o mapeamento da Arregaça conhecemos todas as infra-estruturas que aqui estão, as dificuldades dos habitantes, aquilo que sentem em relação à cidade e ao sítio que habitam. Também fizemos pesquisa histórica sobre o local, as tradições, os hábitos culturais, e isso foi a base da construção da dramaturgia”, explica Isabel Craveiro. “Começámos a perceber que isto fica um pouco nas costas da cidade, que a maior parte das pessoas que aqui vive se sente esquecida, abandonada”, acrescenta. 

A ideia original era que De Portas Abertas fosse um verdadeiro percurso, com cinco núcleos espalhados pela Arregaça e o mesmo número de narradores a coser a história entre os universos do União de Coimbra, o clube centenário do vale que tenta reerguer-se, da Fonte do Castanheiro, onde foi buscar o seu nome o bairro que acolheu os desalojados da Alta universitária quando esta foi arrasada para abrir caminho aos planos monumentais do Estado Novoe das varandas da vizinhança. Mas há também um olhar para os assuntos pendentes, como a Sociedade de Porcelanas de Coimbra, que encerrou em 2005, restando-lhe um grande edifício devoluto, e desactivado Ramal da Lousã, que aguarda o novo projecto de mobilidade da cidade. “Ficou tudo em suspenso, à espera de alguma coisa que não aconteceu”, comenta a directora do espectáculo.

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Era por isso importante trabalhar em proximidade e marcar a memória deste momento, sublinha. “Este intervalo de tempo também é muito interessante, porque coincide finalmente com algumas alterações, como as obras que o município vai fazer no bairro ou o Metro Mondego, cujos trabalhos devem arrancar em Setembro”, refere. O projecto d’O Teatrão na Arregaça começou em 2019 e tem a duração de dois anos, estando prevista a criação de outro espectáculo, bem como de uma programação cultural paralela (assim o permita a evolução da pandemia). “É possível que, no espectáculo que façamos no ano que vem, a paisagem esteja mudada”, antecipa Isabel Craveiro.

O dia de estreia desta peça-percurso deveria ter coincidido com a noite de São João, que ali seria assinalada. Através dos inquéritos aos moradores, O Teatrão começou a sinalizar as pessoas que mostravam vontade de participar, com a ideia de levar a comunidade a ter um papel na peça. A covid-19 adiou a apresentação e tornou o modelo impraticável, mas nem por isso o espectáculo ficou confinado.

O palco, para usar uma ordem de grandeza corrente, é do tamanho de um campo de futebol. Na verdade, é mesmo um campo de futebol, o relvado sintético do União de Coimbra. Quanto ao público, esse será levado numa visita guiada sem sair do lugar, as bancadas de betão do União. Apesar de não ter sido possível incluir os habitantes da Arregaça, De Portas Abertas, que tem nova sessão no domingo, conta com o acompanhamento musical da banda da Associação Artística e Cultural Salatina e com cerca de 80 participantes do projecto educativo da companhia.  

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