Torne-se perito

Festa do Cinema Francês com Delphine Seyrig, duas novas secções e filmes online

“Vai ser muito bom para a juventude ver os filmes de Delphine Seyrig, como actriz, mas também como activista”, um tema que “calha muito bem” nos tempos que se vivem, com uma pessoa que era “muito à frente do seu tempo”, diz a directora do festival, Katia Adler.

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Foto
Delphine Seyrig e Ioana Wieder numa manifestação nos anos 70 Micha Dell Prane

Uma homenagem à actriz francesa Delphine Seyrig, a possibilidade de ver alguns filmes online e a reposição de obras cinematográficas que tiveram de parar devido à covid-19 são os destaques da edição deste ano da Festa do Cinema Francês.

Os pontos chave da programação da edição de 2020 da Festa do Cinema Francês, que arranca no dia 8 de Outubro no Cinema São Jorge, em Lisboa, foram avançados à Lusa pela directora deste festival dedicado à cinematografia daquele país, Katia Adler.

“A escolha da homenagem deste ano da Festa com Delphine Seyrig é muito importante, porque é um pouco o que se passa hoje no mundo, dos temas importantes sobre as mulheres em defesa da liberdade. Dos anos 60, quando houve esse movimento para haver mais liberdade para as mulheres, hoje sabe-se muito pouco. As adolescentes, que hoje podem andar de minissaia e têm um pouco mais de liberdade, têm de entender de onde veio tudo isso”, afirmou. Por isso, considera que o tema deste ano, com a actriz, realizadora e activista Delphine Seyrig, “vai ser muito bom para a juventude ver os filmes dela como actriz, mas também como activista”, um tema que “calha muito bem” nos tempos que se vivem, com uma pessoa que era “muito à frente do seu tempo”.

As sessões da retrospectiva dedicada a Delphine Seyrig decorrem na Cinemateca, entre 9 e 21 de Outubro, e vão contar com a presença da directora do Centro Audiovisual Simone de Beauvoir, Nicole Fernandez, uma especialista em Delphine Seyrig, para participar num debate antes da abertura, no dia 9, às 17h30.

Entre os vários filmes em que participou como actriz e realizadora, que vão passar na Cinemateca, conta-se Les Trois Portugaises, que realizou com Carole Roussopoulos e Ioana Wieder, sobre Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa, uma revisitação do caso português das “Três Marias”, que arriscaram a prisão, sob a acusação da ditadura de atentado aos bons costumes, com a publicação, em 1972, das Novas Cartas Portuguesas, proibida pelo Estado Novo.

O filme documenta as acções de apoio e divulgação do livro ocorridas em Paris, entre Março de 1973 e Setembro de 1974, em particular a leitura-espectáculo La Nuit des Femmes, e uma manifestação nocturna diante da catedral de Notre-Dame, em Janeiro de 1974.

Delphine Syrig, que viria a tornar-se uma das musas da “Nouvelle Vague”, destacou-se não só pelas suas interpretações cinematográficas, mas também pela sua defesa dos direitos das mulheres e pelas colaborações ousadas com cineastas independentes em produções que hoje fazem parte dos clássicos, tendo trabalhado, entre outros, com Luis Buñuel, François Truffaut e Alain Resnais.

Miss, de Ruben Alves, abre a Festa

A edição deste ano da Festa do Cinema Francês vai passar por cinco cidades portuguesas – Lisboa (8 a 21 de Outubro), Almada (14 a 18 de Outubro), Oeiras (15, 17 e 18 de Outubro), Coimbra (21 a 24 de Outubro) e Porto (29 de Outubro a 4 de Novembro) –, podendo vir ainda a ser alargada a outras cidades ainda não confirmadas, disse Katia Adler.

A sessão de abertura do festival será assinalada com a estreia de “um filme muito esperado”, que é o Miss, do realizador (também actor e argumentista) luso-francês Ruben Alves. “Estamos muito felizes por poder passar este filme aqui em Portugal, antes mesmo de França. É um momento muito forte dessa edição também. O realizador Ruben Alves [autor de A Gaiola Dourada] virá com o actor Alexandre Wetter”, acrescentou a directora da Festa.

Mon Cousin, em português intitulado Meu Primo Desastrado, uma comédia realizada por Jan Kounen, encerra a festa em Lisboa, no dia 18 de Outubro.

Ao todo, estão previstas exibições de mais de 50 filmes, 16 antestreias, sessões escolares para os mais novos, e duas secções adaptadas aos novos tempos, designadas Primeira e Segunda Chance. A Primeira Chance traduz-se em três filmes escolhidos pelo festival, e que ainda não têm distribuidor. “São filmes recentes, inéditos em Portugal, que não passaram em lugar nenhum e que buscam distribuidores portugueses, para serem depois lançados aqui”, explicou Adler. Trata-se de Felicita, uma comédia de Bruno Merle, O Amanhã É Nosso, documentário de Gilles de Maistre, sobre um grupo de crianças que combatem por um futuro melhor, e A Rapariga da Pulseira, um drama que relata a vida de uma rapariga de 18 anos, acusada de ter assassinado a sua melhor amiga.

“Temos também uma sessão que se chama Segunda Chance, com filmes que foram lançados entre Janeiro e Março deste ano, e tiveram que parar por causa da covid. Acreditamos que a ‘segunda chance’ é porque poucas pessoas tiveram a sorte de ver esses filmes. Então, são colocados à disposição no Cinema São Jorge”, acrescentou a directora.

Entre os 13 filmes a serem repostos nesta secção, incluem-se o mais recente de Roman Polanski, J'Accuse - O Oficial e o Espião, Festa de Família, com interpretação de Catherine Deneuve, Retrato da Rapariga em Chamas, de Céline Sciamma, Mulher, um documentário sobre a condição feminina com testemunho de cerca de 2000 mulheres de todo o mundo, Frankie, de Ira Sachs, ou Clara e Claire, uma história sobre o amor, protagonizada por Juliette Binoche.

Katia Adler destaca ainda uma programação de sessões especiais, para as quais foi convidada a directora de casting francesa Sarah Teper, que irá dirigir dois ateliers para jovens actores e actrizes, ou interessados em teatro e cinema, e vai explicar como trabalha, dirige e escolhe os atores para os seus filmes. “É uma grande directora de casting em França, que já trabalhou com grandes realizadores e é muito bom tê-la aqui connosco”, sublinhou.

A directora do festival assinalou também que a edição deste ano terá uma iniciativa inédita, organizada em parceria com a Filmin plataforma de VoD (Video on Demand) , que consiste na exibição online de uma selecção de filmes que vão estar a passar no festival. “É importante para que todas as pessoas que não estiverem nas cinco cidades [Lisboa, Porto, Oeiras, Coimbra e Almada] tenham acesso à Festa do Cinema Francês este ano. É a primeira vez que fazemos isto, e acho que essa parceria será muito boa, porque pode atingir um publico maior também”, sublinhou.

Katia Adler reconheceu também que, independentemente do prazer que se retira de uma ida ao cinema, muitas pessoas poderão estar ainda receosas de entrar numa sala de cinema, devido à pandemia de covid-19 apesar de todas as medidas de higiene e segurança asseguradas , pelo que terão aqui uma oportunidade de acompanhar a festa sem sair de casa.

A Festa do Cinema Francês é organizada pela produtora Jangada, com o apoio da Embaixada de França e do Institut Français du Portugal, em parceria com a rede das Alliances Françaises em Portugal.