“O desastre em Moria é total.” Campo de refugiados em Lesbos consumido pelas chamas

Governo declara estado de emergência na ilha onde quase 13 mil pessoas viviam em condições precárias, num espaço sobrelotado. Campo estava em confinamento, depois de ter sido detectado o primeiro caso de covid-19.

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Migrantes fugiram com os bens pessoais que conseguiram levar Reuters/ELIAS MARCOU
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Campo de Moria ficou praticamente reduzido a cinzas Reuters/ELIAS MARCOU
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Requerentes de asilo passaram a noite ao relento, na berma da estrada LUSA/STRATIS BALASKAS
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Chamas deflagararam durante a madrugada Reuters/ELIAS MARCOU
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Reuters/ELIAS MARCOU

O campo de refugiados de Moria, na ilha grega de Lesbos, ficou praticamente reduzido a cinzas depois de vários incêndios durante a madrugada desta quarta-feira. Milhares de migrantes fugiram do fogo e estão agora bloqueadas na estrada, sob vigilância das forças de segurança.

A polícia antimotim formou dois bloqueios, um a uns 400 metros do campo, numa zona onde permanecem mais de 4000 pessoas; outro numa área perto do campo Kara Tepe, um campo mais pequeno a nordeste de Mitilini​, capital de Lesbos.

Muitos requerentes de asilo em fuga do campo tentaram alcançar precisamente Mitilini​, sendo travados pela polícia antimotim, já reforçada esta manhã com alguns agentes enviados para a ilha. De acordo com a organização Stand by Me Lesvos, um grupo de apoio a refugiados, alguns residentes de Lesbos também tentaram impedir que as pessoas chegassem às localidades próximas do campo.

“A situação está fora de controlo”, disse um agente da polícia à Open TV, citado pela Reuters, acrescentando que as autoridades libertaram perto de 200 pessoas que estavam detidas numa parte separada do campo, a aguardar extradição para os seus países de origem.

Até ao momento, não há registo de mortos ou feridos e a causa dos incêndios não é clara. “Ainda é cedo para dizer o que provocou estes fogos mas a explicação mais plausível é terem começado com motins”, admite a organização não-governamental norueguesa Aegean Boat Report, que monitoriza as chegadas à ilha.

"Esta noite rebentaram"

“O Governo grego usou a pandemia [de covid-19] como pretexto para encerrar os campos por toda a Grécia, as pessoas não aguentavam mais”, nota a ONG na sua página de Facebook. “O campo está há meses em confinamento, as tensões têm vindo a aumentar. “Esta noite rebentaram.”​

“A ilha de Lesbos foi colocada em estado de emergência durante os próximos quatro meses”, confirmou o Governo depois de uma reunião marcada de urgência e presidida pelo primeiro-ministro, Kyriakos Mitsotákis. A ideia é agilizar a mobilização de todas as forças necessárias para ajudar a ilha e os requerentes de asilo.

A comissária europeia para os Assuntos Internos, Ylva Johansson, anunciou no Twitter que a União Europeia vai financiar a transferência de pelo menos 400 crianças e adolescentes que não estão acompanhados pelos pais. “A segurança e o abrigo para todas as pessoas de Moria são as prioridades”, garantiu. A cidade de Berlim ofereceu-se entretanto para receber 300 refugiados.

Ao início da manhã, Moria estava reduzida a uma nuvem de fumo, com contentores e tendas queimadas, enquanto alguns refugiados procuravam recuperar alguns bens pessoais entre os escombros. “Com a primeira luz do dia, consigo ver que algumas tendas resistiram, mas o resto do campo ficou queimado”, disse à BBC Thanasis Voulgarakis, um residente local.

O presidente da Câmara de Mitilini​, Stratos Kytelis, disse que as chamas se propagaram no interior e no exterior do campo, onde há muitas tendas, devido à sobrelotação do espaço, o que levou os refugiados a fugirem, incluindo os que têm covid-19. “É uma situação muito difícil porque algumas das pessoas que estão lá fora tiveram um resultado positivo no teste ao coronavírus”, disse Kytelis, citado dela Deutsche Welle.

Moria estava sob quarentena, depois de na semana passada ter sido confirmado o primeiro caso de covid-19: um requerente de asilo proveniente da Somália, que esteve em Atenas e depois regressou ao campo de refugiados. Desde então, o número de casos aumentou para 35.

O “pior campo de refugiados da Europa”

No campo de refugiados de Moria vivem quase 13 mil pessoas, um número quatro vezes superior à sua capacidade, e há vários anos que organizações de defesa dos direitos humanos alertam para as condições precárias em que os seus habitantes vivem.

Com a pandemia, a situação agravou-se e as organizações no terreno têm reforçado que, perante as condições do campo, é impossível manter o distanciamento físico e cumprir as medidas de higiene necessárias.

“É uma bomba-relógio que finalmente explodiu”, disse Marco Sandrone, coordenador dos Médicos sem Fronteiros em Lesbos, à BBC. “O anúncio da confirmação dos 35 casos de covid-19 pode ter sido o factor que finalmente quebrou as pessoas, no pior campo de refugiados da Europa”, escreve, por seu turno, a ONG Aegean Boat Report. É difícil antecipar como é que Lesbos vai conseguir reagir a esta catástrofe.”

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