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Megafone

Carta para o meu eu com 16 anos

Nunca olhes para trás onde estão as estátuas de sal que um dia fomos nós. Olha sempre em frente para os dias à tua espera, vive um de cada vez, sem pressa, sem temor, sem receio.

Olá, espero que esteja tudo tudo bem, apesar de saber não estar. As emoções estão à flor da pele e metade de ti está capaz de tudo e um pouco mais por amor. E sim, já toda a gente na escola sabe, a começar pelas raparigas a fugir a sete pés ao menor sinal da tua sombra e aos poucos e poucos já não sobra nenhuma na tua lista, nenhuma rapariga por quem te apaixonares.

Gostaria de te dizer “vai passar” e, se calhar, começo por aqui: vai passar.

As capas dos cadernos da escola, incessantemente coloridas de alto a baixo a setas, corações e nomes de raparigas? Vai passar.

Os poemas de amor, qual nascente violenta de força a querer na ponta da língua, na ponta da caneta, jorrar em turbilhão da boca para fora e de manhã à noite? Vai passar.

Vai passar e um dia vais ver, vão criar um fenómeno chamado internet onde todos, e tu também, podemos ter uma voz para o mundo, um poço sem fundo para poderes despejar toda essa criatividade. E sim, vais ter público e quem queira ler quanto escreves.

Quanto à namorada, chegará um dia e um dia chegará para sempre.

Mas voltemos atrás, aos teus 16 anos. A professora de Matemática desejosa de te chumbar à força? Vais ter a coragem de enfrentar o sistema, a escola e a turma de anos ou não fosse o teu maior sonho entrar para a faculdade. A média do secundário é em tudo mais importante e o futuro é só teu, de mais ninguém. Nunca deixarás de acreditar.

De caminho gostaria de te dizer para estudares menos, marrar menos, aprender menos, já aprendeste tanto, mas o mundo não perdoa e o saber não tem mesmo lugar, anda ao teu lado na vida. Por isso, não pares, por favor não pares, se um atleta vive do corpo, tu vives da mente e dessa força de vontade e muitos serão os dias onde nada mais terás.

A ansiedade antes de cada teste, o coração aos pulos na boca a cair estrondosamente no mar? O medo do julgamento, o futuro e a sentença numa folha de papel? Não vai passar. Vai melhorar, a ternura dos anos aconchegará mil e um anseios a um canto entre almofadas e cobertores e um dia vais poder tratar cada um por tu. Mas não vai passar. É um facto consumado da vida e vais aprender a viver assim.

O curso de Biologia? És demasiado orgulhoso, saíste à tua mãe e à tua avó, não vais pedir favores a ninguém e mais não digo. Não posso. Se te disser tudo e um pouco mais receio ver-te encostado a um canto à espera de quando o mundo te venha comer à mão. Lamento, mas vais ter mesmo de lutar por cada um dos teus sonhos, caso contrário não seriam sonhos. Um emprego em Biologia? Isso são outras histórias, vais ter de esperar para ver. Não muito, infelizmente.

O meu eu com 16 anos também anda na musculação, mas não se nota. Ainda hoje não se nota. Mas tem 25 quilos a menos e os abdominais definidos. Ainda não sabes, mas vais começar a correr a meia maratona todos os anos até não poderes mais. E no desporto encontrarás um pouco mais do sentido da vida. 

O meu eu com 16 anos está já ali ao virar da esquina e muito de si ainda aqui está tantos anos depois. Excepto a musculação, lá está. E os abdominais.

Terei alguma razão que me leve a pedir-lhe para mudar de direcção? Não me parece, e por conseguinte termino com este apelo: confia um pouco mais em ti e no teu potencial, um dia vais conseguir. Sê paciente como Roma e Pavia, tudo leva o seu tempo, tu não és excepção e faz tudo na mesma.

E nunca olhes para trás onde estão as estátuas de sal que um dia fomos nós. Olha sempre em frente para os dias à tua espera, vive um de cada vez, sem pressa, sem temor, sem receio.

Porque um dia chegarás onde sempre quiseste estar, mesmo não sendo aqui, mesmo se noutro chão, noutra terra. Eu sei, já cá estou e aqui ficarei à tua espera.

Um grande abraço e coragem,

João André 

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