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Que cidades queremos habitar?

Numa altura em que, nunca como então, as cidades abrigam tantas pessoas, é nestas que reside o potencial para que milhões possam continuar a viver as suas vidas de forma saudável.

A Visão Estratégica para o Plano de Recuperação Económica de Portugal 2020-2030, que se encontra em consulta pública até dia 21 de Agosto, realça a crescente necessidade de definirmos um novo paradigma para as cidades.

Numa altura em que, nunca como então, as cidades abrigam tantas pessoas, é nestas que reside o potencial para que milhões possam continuar a viver as suas vidas de forma saudável, acentuando-se o desafio para que possam ser uma resposta sustentável aos desafios do crescimento populacional e das alterações climáticas.

No referido documento, os eco-bairros são encarados como uma resposta aos efeitos negativos das cidades para o meio ambiente (a título de exemplo, as cidades representam entre 71% a 76% das emissões de CO2 e entre 67% a 76% do consumo global de energia), incorporando preocupações como o fomento do uso de energias renováveis, em detrimento de energias fósseis, estilos de construção das habitações mais sustentáveis, promoção de mais espaços verdes ou do uso de transportes públicos.

Em Lisboa, temos o recente exemplo do eco-bairro da Boavista, inaugurado no ano passado, construído com o apoio de fundos europeus. Este tipo de construção integra estratégias e técnicas que combinam urbanismo, participação democrática e o meio ambiente, sendo também uma oportunidade de articular, no espaço urbano, quase todos os tipos de resposta relacionados com os Objectivos da Agenda de Desenvolvimento Sustentável, que norteiam também a Visão Estratégica acima referida.

No contexto em que vivemos, marcado pelas normas de distanciamento social, a participação democrática merece especial atenção, como forma de influenciar as redes sociais informais e essenciais que permitem que as comunidades prosperem, especialmente em tempos de crise. Jane Jacobs, considerada uma das urbanistas mais influentes do último século, dizia que as cidades “têm a capacidade de fornecer algo para todos, só porque, e só quando, elas são criadas por todos”.

As cidades do futuro devem, assim, ser dominadas pelo conceito da “simbiocidade", que privilegia a cooperação e a partilha em detrimento da competição, dando resposta a objectivos e interesses comuns. Isto só é possível através de uma abordagem multidisciplinar, onde se cruzem os olhares de diferentes áreas, desde a Arquitectura ao Serviço Social, com o intuito de se fazer uma análise com as várias perspectivas, identificando sinergias entre os diferentes aspectos num enquadramento de planeamento integrado.

Importa também garantir e promover, sempre que possível, a participação dos moradores nos processos de decisão e a valorização de uma democracia representativa através, por exemplo, do empoderamento de associações locais de representação dos moradores. Precisamos de fazer mais vezes a pergunta: que cidades queremos habitar?

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