Crónica

“Em Angola, matei vários como este”

Nesta madrugada, Lisboa arde e não consigo ouvir nada senão as vozes das gaivotas empoleiradas nas janelas do prédio de frente; não consigo ouvir nada senão as gaivotas que me emprestam as suas cordas para cantar este choro.

De facto, muito calor nesta Lisboa que nem as mãos de um Casanova conseguem desnudar. Sob a pele da cidade que nunca dorme está deitada uma camada de escuridão que não impede que tudo arda em meio a este Agosto cercado pelo pandemónio (pandemia, é assim como chamam, nem?); tudo a arder e mais um homem a nascer, pelos buracos que as balas abriram no corpo, rios de sangue onde a alma é arrastada até a morte como se arrastam os barquinhos de papel até o precipício.

     é preto. Apenas mais um preto.

Por estas alturas nada disto se compara à Beirute, não paro de pensar enquanto sentado nesta varanda pisco o olho para o céu azul desta cidade menina e moça; nada disto está aos cacos. Deus deve andar com trabalho até às orelhas por estes dias. Muita gente inocente morta num só lugar e os terroristas que estupram Cabo Delgado ainda lá a fazer e desfazer. Beirute explodiu por causa do maldito nitrato de amónio que há sete anos devia ter sido entornado num navio para Moçambique. O nome do meu país sempre com o corpo inteiro no meio da lama; é muito azar para um país lindo e com um povo tão amável, um país que se deita na areia do Índico, sem camisa, e mira o horizonte do desenvolvimento. Talvez um dia as coisas melhorem, enquanto isso os espinhos vão sufocando sonhos de crianças e jovens. Pouca esperança em meio às desgraças deste 2020!

Aconteceu de novo e o ciclo se perpetua:

     é preto. Apenas mais um preto.

Eu também sou preto, não dava o meu corpo a outras vidas nos palcos como o outro, mas nas manhãs de domingo sou o preto que arrasta o seu corpo magro e sobe a cidade até os lados de São Sebastião e depois de enfiá-lo, de uma só vez, numa túnica branca é banhado por um ar angelical e sobe ao altar para rezar a missa com vários brancos que não são iguais. Ninguém é igual ao outro neste mundo, mesmo os da mesma raça.

Ignore quem quiser, mas a verdade é que aconteceu e continuará acontecendo até que, talvez, morra o último preto da face terra. Aos milhares continuaremos a gritar apelos de tolerância racial até que sequem as nossas gargantas e quando chegar a nossa própria morte apenas consigamos esboçar um mísero choro costurado de silêncios e lágrimas enquanto alguém com um ar senil grite aos quatro ventos

     em Angola, matei vários como este.

Pode-se facilitar os acessos à nacionalidade até o grau zero, mas enquanto a nacionalidade portuguesa for associada apenas às pessoas de pele branca tudo continuará a arder por estes lados que a pouco e pouco se vão tornando num país a cada dia multicultural e multirracial. O homem era português de nascimento, esta foi sempre a sua terra, mas por causa de sua cor um palhaço teve a cara de pau de dizer

     preto volta para tua terra.

Nesta madrugada, Lisboa arde e não consigo ouvir nada senão as vozes das gaivotas empoleiradas nas janelas do prédio de frente; não consigo ouvir nada senão as gaivotas que me emprestam as suas cordas para cantar este choro. 

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