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Silos Contentor Criativo: quem são os artistas que por aqui andam?

Há dez anos que o Silos Contentor Criativo, nas Caldas da Rainha, alberga artistas. O P3 visitou cinco ateliers de actuais inquilinos.

O casal que venceu o FALU

João Margarido, 29 anos, e Constança Bettencourt, 28, ocupam um dos ateliers dos Silos. Ele estudou sempre na Escola Superior de Arte e Design (ESAD) das Caldas da Rainha e ela na Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa (FBAUL) e na ESAD. Ele trabalha em cerâmica e ela é ilustradora. Os dois, que se dão a conhecer pelos nomes artísticos de Egrito e C’marie, foram os vencedores da open call do FALU – Festival Artístico de Linguagens Urbanas, o que lhes permite pintar uma parede da cidade num evento que inclui também os artistas Bordalo II, Add Fuel, Akarcorleone, Daniel Eime e Nuno Viegas. 

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João é designer de produto e dedica-se à cerâmica. Decorativa, embora o artista pretenda que as suas peças tenham também uma utilidade. Neste espaço desenvolve todo o seu processo produtivo, excepto a cozedura, para a qual recorre ao forno de um outro projecto instalado no edifício (o 105 Ceramic Lab), num bom exemplo de cooperação e sinergias proporcionados pelo Silos. 

Constança Bettencourt formou-se em Escultura, mas trabalha como ilustradora. “Um pouco na onda do figurativo... Trabalho muito o retrato, o rosto, as expressões, os gestos”, conta. Os dois jovens trocaram Lisboa pelas Caldas da Rainha. “Esta cidade que nos abraçou tem tudo o que precisamos, sem deixar de ser cidade, mas estando perto do campo. Ao contrário do frenesim constante de Lisboa, aqui sentimos que voltamos a encontrar tempo e a ter qualidade de vida”, diz Constança.

João diz que acompanhou a criação dos Silos em 2010 quando veio estudar para a ESAD. “Acompanhei o Nicola nesta grande aventura e há agora aqui uma grande rede de contactos, somos uma comunidade e com coisas sempre a acontecer.”

A pintora que regressou às origens

Rita de Sá, 39 anos, é do Cartaxo e foi uma das primeiras alunos da ESAD em 1998. Concluída a licenciatura (pré-Bolonha), foi para Lisboa, fez mestrado na FBAUL e depois de dez anos em Inglaterra, regressou à cidade onde estudou pela primeira vez, contrariando a ideia de que não se deve voltar ao lugar onde já se foi feliz.

“Este espaço tem imensa conexão emocional comigo pelos meses que aqui passei em Outubro de 2004 a limpar isto para preparar a primeira exposição de finalistas da ESAD”, conta. Isto numa altura em que ainda não se imaginava que os silos dos cereais viriam a transformar-se neste projecto para criativos.

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Licenciada em Artes Plásticas, Rita de Sá dedica-se à pintura. Paga 100 euros por mês pelo seu atelier, um valor que lhe compensa algumas das desvantagens face a Lisboa. Na capital estava mais perto do mercado, é certo, mas descobriu que não é difícil convencer galeristas e curadores a virem às Caldas da Rainha. “E aqui acabam por conhecer não só o meu espaço, mas também o dos outros artistas que aqui estão instalados”, diz.

Apesar de os ateliers serem fechados, Rita diz que os residentes se encontram uns com os outros nos corredores, têm um grupo no WhatsApp e há momentos organizados para se reunirem.

De Aveiro para as Caldas

Bruno Carapinha e Ricardo Tocha estão acabadinhos de chegar. O espaço que ocupam e pelo qual pagam 162 euros por mês tem o chão em mosaico, paredes brancas, um pé direito razoável e muita luz que entra pelas três janelas. Os dois jovens, de 25 e 24 anos, querem construir um mezanino para aproveitar melhor o espaço que deverá incluir uma “zona limpa” para escritório, zona de arrumações e uma “zona suja” para trabalhar nos seus “ofícios”. Ambos cursaram Design Industrial na ESAD e estão agora a fazer o mestrado em Design de Produto na mesma escola.

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Não é a primeira vez que os dois estudantes, naturais de Aveiro, aqui se instalam. “Estivemos cá em 2016/17 durante a licenciatura. Éramos o turno da noite. O Nicola chamava-nos assim porque nós ficávamos cá a trabalhar até de madrugada.” Agora esta estadia vai ter uma abordagem mais profissional e madura. Bruno está a fazer uma dissertação sobre a forma como a luz traz sensações aos espaços criativos e Ricardo sobre a ubiquidade da tecnologia. “Aveiro também tem um curso de Design, mas não tem esta cultura do ‘vamos arrendar este espaço para os jovens começaram a trabalhar’. Isto é um espírito muito caldense.”

Arquitectura informal

Élsio Silva, 29 anos, é dos poucos “habitantes” que não passou pela ESAD. O caldense foi cursar Arquitectura em Lisboa, terminou em 2016, teve uma experiência de emprego na capital, mas regressou às origens e instalou-se em Dezembro passado no Silos, com a irmã, Jéssica Silva, também arquitecta.

“Vim para aqui para estar com mais pessoas da área criativa e do Design e porque o preço é baixo. Só pago 80 euros por este pequeno estúdio e ainda por cima estou integrado. O meu trabalho final de mestrado foi sobre este edifício e as vantagens que as partilhas das diferentes áreas profissionais trazem para o negócio.”

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Como arquitecto, Élsio Silva faz projectos de edifícios, mas ele e a irmã dizem que gostariam de trabalhar numa arquitectura mais informal e participativa, com mais contacto com as pessoas que habitam os espaços, envolvendo-as nos projectos que lhes são destinados. Para já, os dois arquitectos não pensam sair daqui tão cedo. Agrada-lhes as condições, a partilha, o Central Café e a “roulote do Eusébio”, que tem a fama de fazer dos melhores hambúrgueres da região e que está instalada no pátio.

Empurrada pela covid-19

Liliana Ferreira, 23 anos, também é das Caldas da Rainha e está na recta final do curso de Pintura na FBAUL. Foi a covid-19 que a obrigou a antecipar a vinda para um atelier das antigas torres de cereais.

“Quando interromperam as aulas em Lisboa eu vim para as Caldas e ao princípio trabalhava em casa, mas em Maio decidi vir para aqui. Neste momento só uso o espaço para trabalhos académicos. Pago 150 euros por mês. Em Lisboa seria muito mais caro e aqui estou dentro da comunidade das artes, estou no ambiente e tenho ajuda de pessoas que estão mais à frente do que eu e sabem mais do que eu.”

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No curto prazo, Liliana diz que “gostaria de aumentar o número de trabalhos para fazer exposições na própria galeria do Silos e nos eventos em que se abre o espaço ao público”. O objectivo é consolidar o trabalho pois, apesar de ser finalista, sente que ainda está em fase de aprendizagem. Mais tarde, sim, à medida que tiver nome e a sua obra for mais conhecida, apostará mais na venda.

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