Coreia do Norte regista primeiro caso de covid-19 e declara estado de emergência

A confirmar-se, é a primeira vez que o país reconhece um caso de infecção pelo novo coronavirus. No entanto, a Coreia do Sul duvida da veracidade da informação e garante que o homem em questão não está infectado.

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Regime de Kim Jong-un declarou estado de "emergência máxima" no país e “bloqueou totalmente” a cidade fronteiriça de Kaesung LUSA/KCNA

A Coreia do Norte registou no domingo um caso de covid-19 no país e declarou estado de “emergência máxima”. A confirmar-se, será o primeiro caso reconhecido e registado pelos norte-coreanos, que até agora têm afirmado que o país está escudado da pandemia que assolou o mundo.

O caso suspeito é de um cidadão de 24 anos que desertou para a Coreia do Sul há três anos e voltou para o norte através da cidade fronteiriça de Kaesong, apontou a agência estatal norte-coreana KCNA. O homem é simplesmente chamado pela KCNA como “Kim”.

O governo declarou estado de “emergência máxima” e “bloqueou totalmente” Kaesung do resto do país.

No entanto, as autoridades na Coreia do Sul desconfiam da informação e afirmam que o homem não está infectado com a covid-19. À agência de notícias sul-coreana Yonhap, um membro do ministério da Saúde, Yoon Tae-ho, garantiu que o homem “nem está registado como um paciente de covid-19 nem classificado como alguém que esteve em contacto com pessoas infectadas”.

A agência de controlo e prevenção de doenças da Coreia do Sul também informou que duas pessoas que estiveram em contacto com o homem tiveram testes negativos.

A própria Coreia do Norte admite que o homem não realizou nenhum teste à covid-19 – apesar de o país possuir milhares de testes, comprados à Rússia e a outros países – e que o caso é “um resultado incerto, feito a partir de várias análises médicas às secreções do órgão respiratório superior e ao sangue”.

A Yonhap diz ainda que o homem estava a ser investigado por alegadamente ter violado uma mulher no mês passado, também ela uma desertora da Coreia do Norte.

Segundo o jornal The Guardian, cerca de 33 mil norte-coreanos conseguiram fugir para o Sul desde o final da Guerra da Coreia (entre 1950 e 1953), mas poucos optaram por regressar. Os que regressam ao regime ditatorial de Kim Jong-un fazem-no para visitar as famílias antes de morrer ou por ficarem fartos e desiludidos com a democracia sul-coreana, que muitas vezes ostraciza e discrimina os desertores.

Um caso que pode servir como margem de manobra

Depois de meses de confinamento preventivo no país, que não admitiu ao mundo qualquer caso de covid-19, a descoberta do primeiro caso é uma ameaça ao fraco sistema de saúde do país. O líder norte-coreano, Kim Jong-un, convocou uma reunião de emergência com os principais líderes do país para responder à “situação crítica na qual o vírus pode ter entrado no país”, disse a KCNA.

Na Coreia do Sul, duvida-se da retórica de Pyongyang sobre se este é, de facto, o primeiro caso registado, acreditando Seul que o país tem escondido informação do resto do mundo. O facto de agora o Norte admitir que a pandemia finalmente chegou ao seu território pode ser visto como um pedido de ajuda.

“É um momento inédito para a Coreia do Norte ao admitir um caso. Pode estar a tentar aproximar-se do mundo para pedir ajuda, talvez para assistência humanitária”, disse Choo Jae-woo, professor na Universidade de Kyung Hee, na Coreia do Sul, citado pela agência Reuters.

Também à Reuters, um membro do Instituto Coreano para a Unificação Nacional em Seul, Cho Han-bum, disse que o regime comunista de Kim Jong-un está “uma situação tão dura que não conseguem sequer acabar a tempo o Hospital Geral de Pyongyang. Ao apontar o dedo a um caso importado da Coreia do Sul, o Norte pode usar isto como uma forma de pedir abertamente ajuda ao Sul”.

Segundo a Al-Jazeera, a entrada da covid-19 na Coreia do Norte, a acontecer, terá sido através de casos importados a partir da China. Um analista do Instituto Asan para Estudos Políticos, Go Myong-huyn, nota que, durante o inverno e com os rios congelados entre a China e a Coreia do Norte, muitos norte-coreanos aproveitam para passar de um país para o outro para contrabandear bens, algo que pode ter contribuído para a entrada de alguns casos importados.

As autoridades sul-coreanas estão a investigar o registo das câmaras de videovigilância na fronteira para poderem identificar o desertor retornado. A KNCA diz que do lado do Norte, o incidente está também a ser investigado e que os militares que permitiram a passagem vão enfrentar “um castigo severo”. O homem terá nadado da ilha fronteiriça de Ganghwa e passado por baixo da linha de arame farpado, o mesmo trajecto que fez há três anos para fugir do país.

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