Miguel filmou os indígenas brasileiros para salvar “a vida de todos nós”

A série Terra Preta?, do realizador português Miguel Pinheiro, quer mostrar os perigos da “civilização” para os povos indígenas brasileiros e a crescente integração da nova geração no mundo urbano, ao mesmo tempo que tenta preservar o passado e salvar a floresta.

A região do Médio Xingu, no coração da Amazónia brasileira, serve de casa para uma enorme diversidade humana, com várias etnias indígenas a povoarem a floresta, todas com línguas, culturas e ideias diferentes do mundo que as rodeia e do lugar do ser humano nele. Foi este “conjunto de microculturas indígenas do Médio Xingu, que são únicas no planeta”, que o realizador português Miguel Pinheiro quis retratar em Terra Preta?, uma série de nove episódios em que cada um retrata a realidade diária de uma etnia.

Nesta zona da Amazónia, o mundo natural é confrontado com a realidade urbana: os territórios habitados pelos nativos ficam em Altamira, o maior município do Brasil e o terceiro maior do mundo, onde foi construída a barragem hidroeléctrica de Belo Monte, o marco mais recente da invasão da “civilização”. “Belo Monte é a terceira maior [barragem] hidroeléctrica do planeta. Com a sua chegada, a população da cidade inchou, ribeirinhos perderam suas casas, o rio perdeu seus peixes, a floresta suas árvores e quase todos perderam direitos”, conta por escrito ao P3 Miguel Pinheiro. O realizador português, que se formou em Neurociência, mas acabou por seguir teatro e, mais tarde, fotografia e cinema, explica que Altamira é “o segundo município mais violento do Brasil”, uma realidade a que os indígenas não escapam.

Manifestação dos povos indígenas brasileiros Miguel Pinheiro
A barragem hidroeléctrica de Belo Monte Miguel Pinheiro
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Miguel Pinheiro

“Por defenderem a floresta da qual dependem e pela alteridade de suas culturas marginalizadas no pensamento mainstream, os povos originários das Américas são repetidamente atacados como alvos preferenciais”, lamenta Miguel Pinheiro. O teaser do projecto aborda essa mesma resistência à destruição da floresta, num país que é dos que mais mortes de activistas ambientais regista por anoA situação torna-se ainda mais preocupante com as políticas do Presidente brasileiroJair Bolsonaro.

O vídeo (acima) que apresenta a série, ainda sem data definida para o lançamento, apresenta-nos Juma, a primeira chefe indígena mulher do povo xipaya, que fala do perigo inerente à vida indígena e da defesa do lugar onde vivem. A jovem é também estudante de Medicina, exemplo de “uma crescente população indígena que começa a aceder ao ensino superior no Brasil”.

As primeiras imagens mostram-nos também o cacique Raoni Metuktire, da etnia kayapó, um dos líderes indígenas mais respeitados no Alto Xingu. Candidato ao Prémio Nobel da Paz de 2020 pela sua acção em prol da floresta, Raoni Metuktire já antes da construção avisava para os perigos da barragem de Belo Monte para os indígenas, a quem foram prometidos luxos e riqueza. O esforço do cacique foi em vão, e a barragem trouxe pior qualidade de água e mudanças na fauna e flora da floresta de que dependem os índios.

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À esquerda, Juma Xipaya, a primeira cacique mulher do povo Xipaya e estudante de Medicina Miguel Pinheiro

Mergulhar no Brasil indígena

Miguel Pinheiro chegou à Amazónia em Agosto de 2019, o pior mês de incêndios na floresta desde 2010. Deslocou-se até a este “panteão para a biodiversidade” com a sua equipa de filmagens para uma colaboração com o artista plástico chinês Ai Weiwei. Um trabalho que partia de uma “ideia admirável” do artista, mas que Miguel lamenta por “parte dos encargos com a equipa” ainda estarem por honrar.

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Juma Xipaya com o cacique Raoni Metuktire, candidato ao Prémio Nobel da Paz de 2020 Miguel Pinheiro

“No término destas filmagens, eu dei por mim nas margens do rio Xingu, que serpenteia um tanto de chão por quase dois mil quilómetros, até se enroscar no rio Amazonas. Há muito desejava mergulhar neste pedaço de Brasil e assim continuar meu trabalho com os povos tradicionais”, conta Miguel. Para isso, precisava de uma de duas coisas: uma permissão do Governo brasileiro ou um convite dos indígenas.

O português chegou a Altamira e começou a perguntar como podia chegar à fala com os habitantes da floresta, mas sem grande sorte. “Quer ir aonde? Aos índios? Mas Senhor, para quê? No registo mais ligeiro, era isto que me respondiam”, descreve Miguel. A sua sorte mudou quando conheceu Lorena Kuruaya, que tal como Juma é uma jovem estudante de Medicina indígena, que o “levou pela mão para conhecer uma das últimas falantes da sua língua”. A partir daí, começou a conhecer membros de várias etnias, as nove que vão ser apresentadas, uma em cada episódio da série.

“Xipaya, curuaia, caiapó, xikrin, borari, parakanã, asuriní, arara, juruna — eu não tinha ideia da heterogeneidade dos povos que são etiquetados de ‘índios’. A variedade linguística é maior do que aquela que encontramos na Europa”, diz Miguel. Uma “hipérbole de línguas”, entre as quais o português que, lembra, “é uma língua de invasão, pois o Brasil não foi descoberto nem achado...”

Pandemia traz à memória perigos passados

A violência contra os indígenas e a exploração florestal não são os únicos perigos a que os povos indígenas têm de prestar atenção. Lembrando que, noutros tempos, “guerras, confrontos e epidemias trazidas pelos brancos (sarampo, varíola ou gripe) dizimaram povos inteiros nas Américas”, Miguel Pinheiro diz que a covid-19 “causou o pânico ao convocar de novo esta memória”.

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Miguel Pinheiro com um arco e flecha num dos momentos com os indígenas Lorena Curuaia

“As aldeias fecharam ao contacto exterior e multiplicam-se no mundo os pedidos ao Governo brasileiro para expulsar grileiros, garimpeiros e madeireiros, invasores dos territórios indígenas”, acrescentou. O Brasil é o segundo mais afectado pela pandemia no mundo, com mais de quase 1,5 milhões de casos e mais de 60 mil mortes, com vários casos nas populações da Amazónia.

Para Miguel Pinheiro, os efeitos da pandemia nestes territórios vão para lá da vida dos habitantes: “É a diversidade humana que está em causa, e com isso a vida de todos nós. Estes povos convivem na floresta amazónica há milhares de anos. De cada vez que pirómanos e gananciosos agem sobre a floresta, aumenta a vulnerabilidade destes povos e desaparecem tradições, rituais, línguas, conhecimentos.”

Em Terra Preta? – que aproveita o nome de uma mistura usada há milhares de anos pelos povos da Amazónia para “aumentar exponencialmente a fertilidade dos solos” – Miguel Pinheiro quer “informar sobre este conjunto de microculturas indígenas do Médio Xingu, únicas em todo o planeta”.

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Criança indígena Miguel Pinheiro

Os episódios foram gravados antes do aparecimento do novo coronavírus, mas a sombra que a pandemia projecta sobre os indígenas torna ainda mais pertinente a ideia que motiva os trabalhos realizados por Miguel Pinheiro, desde o Centro Histórico do Porto até aos quilombolas do Vale da Jequitinhonha: “Em pleno Antropoceno, começa a ser óbvio que a maior de todas as extinções é a do próprio ser humano. E a ciência postula de forma muito clara: no que toca à sobrevivência, tudo depende da variedade”.