O ano em que acabei uma licenciatura

No mesmo ano em que termino uma licenciatura essencialmente prática, fechada em casa, sem difusores, reflectores ou ampliadores, e outra parafernália fotográfica com sufixo “or”, começo a tarefa inglória de enviar currículos.

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Tomasz Sroka/Unsplash

No dia 12 de Março, a bibliotecária veio ter comigo e murmurou-me, baixinho, numa biblioteca quase vazia:
— Desculpe, mas vamos fechar. Terá de abandonar o espaço.

Volvidos quatros meses, a biblioteca continua fechada e eu acabei uma licenciatura em pleno ano da pandemia. Em Fotografia. Sim, licenciei-me em Fotografia. Porque, caros leitores, uma desgraça nunca vem só. Digo-o muitas vezes num tom ligeiramente jocoso e descontraído. Sobre como acabamos, invariavelmente, a passar as compras dos outros no leitor de código de barras ou a varrer as escadas que não nos pertencem. Tudo porque, no momento brilhante de candidatura à faculdade, achámos que o mundo das artes tinha alguma coisa a oferecer-nos. Mas, quando falo mais a sério, gosto de pensar que o buraco negro artístico não é assim tão despido de possibilidades.

Pensamento que me acompanhou até ter concluído uma licenciatura com uma média bastante boa que, para o caso, até nem é muito relevante, porque um portefólio é muito mais interessante na hora de contratar alguém. E nesse mesmo ano em que termino uma licenciatura essencialmente prática, fechada em casa, sem difusores, reflectores ou ampliadores, e outra parafernália fotográfica com sufixo “or”, começo a tarefa inglória de enviar currículos. Começo a questionar-me se, algum dia, algum possível empregador vai dignar-se sequer a responder-me algo que não seja uma mensagem automática.

Tatiana Trouvé, em 1997, com Bureau d’Activités Implicites, começa um trabalho artístico fruto de todos os currículos a que recebe uma resposta negativa. Criando múltiplas personalidade a partir de tudo o que os empregadores diziam faltar-lhe, tornando-se um dos seus trabalhos mais icónicos. Um daqueles momentos brilhantes, próprios de almas talentosas, que não se deixam abater pela tempestade. Sucede que eu nem isso poderia fazer. Não por me encontrar num momento de auto-comiseração agudo e incapacitante, mas porque não me chegam de todo respostas negativas, salvo os já supracitados emails automáticos.

Em contrapartida, às vezes sou acometida por rasgos de positivismo, numa vaga semelhança com manuais de auto-ajuda, em que acredito que vou furar o esquema e acabar empregada, com um salário decente. Não para a vida toda, porque nisso sou muito millennial. Mas, quem sabe, durante um ou dois anos.