Trump não garante que aceitará a derrota nas eleições em Novembro

Surpresa: foi na conservadora Fox News que Trump enfrentou a entrevista mais difícil. A entrevista foi muito elogiada no meio jornalístico norte-americano e marcada por uma prova dos factos em tempo real.

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Donald Trump e Chris Wallace durante a entrevista transmitida no domingo DR

O Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, recusou-se a garantir que vai aceitar o resultado das eleições presidenciais de Novembro, se for derrotado pelo seu principal adversário, Joe Biden, do Partido Democrata. A declaração de Trump, numa entrevista ao canal Fox News transmitida no domingo, põe em causa uma das garantias da transição de poder no país, mas acabou por ser ofuscada pela forma como o jornalista Chris Wallace conduziu a conversa, submetendo o Presidente norte-americano a uma prova dos factos em tempo real sobre vários assuntos.

Pressionado para dizer se vai aceitar o resultado das eleições presidenciais no caso de uma derrota, Trump repetiu o que já tinha dito durante a campanha eleitoral de 2016 num debate contra a sua adversária de então, Hillary Clinton, do Partido Democrata.

“Tenho de ver. Não vou apenas dizer que sim. Também não vou dizer que não.”

Mas se em 2016 Donald Trump tentava chegar à Casa Branca pela primeira vez, agora concorre à reeleição como Presidente dos Estados Unidos. E, como salientou o jornalista Chris Wallace durante a entrevista na Fox News, a transição pacífica de poder é “uma tradição e um orgulho” no país – o que só pode ser garantido se o candidato derrotado acabar por aceitar a sua derrota.

“O que posso dizer é que vou decidir quando chegar a altura. Vou mantê-lo em suspense”, disse o Presidente norte-americano.

Votos por correspondência 

As eleições presidenciais deste ano vão ficar marcadas por um aumento significativo do recurso à votação por correspondência, com milhões de eleitores receosos de ficarem horas a fio em filas durante uma pandemia.

Numa entrevista ao PÚBLICO, em Junho, Lawrence Douglas, professor de Direito Constitucional na Universidade de Amherst, alertou para a formação de uma tempestade perfeita que pode culminar numa crise de sucessão sem paralelo na história do país

Em particular, o especialista salientou que a demora esperada na contagem dos votos por correspondência, em Novembro, pode levar o Presidente norte-americano a afirmar que os resultados finais são os que forem conhecidos na noite da eleição – e não os que forem anunciados dias depois, já com os votos por correspondência contabilizados, e que podem virar alguns resultados em estados divididos.

Coronavírus e elefantes

O canal Fox News, no qual Trump tem alguns dos seus maiores apoiantes nos media tradicionais, como Sean Hannity ou Laura Ingraham, não era o sítio onde mais se esperava ver uma entrevista ao Presidente norte-americano marcada por grandes momentos de tensão.

E ainda que o jornalista Chris Wallace seja conhecido pela sua independência num canal de maioria conservadora, também não se esperava que a sua entrevista viesse a ser considerada por jornalistas de várias áreas como digna de entrar para a história recente do jornalismo norte-americano.

“Acho que vi todas as entrevistas a Donald Trump desde que anunciou a sua candidatura em 2015”, disse no Twitter o jornalista Jonathan Swan, do site Axios, que entrevistou o Presidente norte-americano em 2018. “Chris Wallace acabou de fazer a melhor de todas, e a uma grande distância.”

“Tiro o chapéu a Chris Wallace, um profissional duro, preparado, justo e sempre munido com uma prova dos factos e uma pergunta suplementar”, disse o veterano Dan Rather, também no Twitter. “Imagino que a Casa Branca esteja em alvoroço a tentar conter as repercussões.”

Ao longo da entrevista, Wallace confrontou o presidente Trump com factos que põem em causa muitas das suas afirmações sobre o combate à pandemia do novo coronavírus nos Estados Unidos. E questionou-o também sobre as recentes sondagens que indicam não só uma grande vantagem de Biden na corrida à Casa Branca, como também uma maior confiança dos eleitores no candidato do Partido Democrata em relação à economia – um campo em que se julgava ser impossível derrotar Trump.

Quando o Presidente norte-americano afirmou que o aumento do número de casos de covid-19 nos Estados Unidos resulta do reforço dos testes em todo o país, o jornalista da Fox News referiu que os testes subiram 37% e que os casos cresceram 194%.

“Não é só uma questão do aumento do número de testes, o vírus também se alastrou”, disse Chris Wallace.

Durante a entrevista, o jornalista da Fox News abordou também um teste cognitivo que o presidente Donald Trump diz ter feito com distinção e que tem usado para pôr em causa a saúde mental de Joe Biden.

“Não é um teste assim tão difícil”, disse Wallace ao Presidente norte-americano. “Há uma fotografia e pergunta-se o que está nessa fotografia, e é um elefante.”